Na retranca, dólar para de cair

Até o dia 26, serão cada vez mais raros os dias em que o dólar resolver seguir o viés externo. Não faltarão motivos para oscilações frenéticas, mesmo que o Brasil seja beneficiado pelo rearranjo das carteiras dos fundos globais

Por O Dia

Ao contrário da Bovespa, que, em alta, decidiu ignorar a baixa das grandes bolsas internacionais, confiante nas chances de Aécio Neves de levar o pleito, os mercados de câmbio e juros futuros operaram cautelosamente, avessos a riscos. O dólar acomodou-se em seguir o viés externo, sem arrojos independentes, e os contratos futuros de juros mal se mexeram. Acuado pelo excesso de informações inconclusivas, o câmbio assumiu uma posição defensiva. No aguardo das pesquisas do Datafolha e do Ibope que seriam divulgadas à noite e dos primeiros programas partidários do horário televisivo, os investidores preferiram se blindar comprando moeda. E o dólar fechou cotado a R$ 2,3979, com valorização de 0,50%, interrompendo uma sequência de quatro quedas, durante a qual acumulou perda de 4,25%.

Como o mercado das pesquisas está mais volátil do que a taxa de câmbio, o dólar tentou ontem acompanhar tecnicamente as oscilações da moeda nos mercados globais. De manhã, a cotação desceu à mínima de R$ 2,3645, em baixa de 0,90% em relação ao fechamento de quarta-feira. O mote foi a desvalorização internacional da divisa americana em sintonia com o desabamento dos juros de 10 anos do Tesouro americano. O ganho efetivo da T-Note de 10 anos caiu dos 2,32% do encerramento anterior para até 2,28%. O rendimento não era menor que 2,30% desde junho do ano passado.

A razão ainda era o desmonte das posições construídas por fundos especializados em derivativos com base na crença de que o Federal Reserve (Fed) teria, por força de indicadores mais robustos sobre o estágio de recuperação da economia, de antecipar o início do descongelamento da taxa básica. Essa certeza foi golpeada pela ata da última reunião de política monetária do Fed. O documento vê os EUA sendo atingidos negativamente pelo desaquecimento mundial. A descontinuidade dessas operações sofreu, contudo, uma pausa no meio da manhã com a divulgação de um dado positivo sobre o mercado de trabalho.

Em corroboração da tese anterior de que a economia americana não emite por enquanto sintomas de que esteja sendo afetada pelo baixo crescimento mundial, o número de novos pedidos de auxílio-desemprego recuou na semana passada ao seu menor patamar desde antes da crise recessiva de 2008. A quantidade de novos pedidos caiu para 287 mil, mil a menos do que a anterior, ao passo que os analistas esperavam alta para 294 mil. Depois do dado, os gestores dos fundos se lembraram que o Fed potencializou no documento a importância dos indicadores para a tomada das decisões monetárias. E a taxa da T-Note de 10 anos avançou a 2,34%. O dólar passou a subir frente a uma série de divisas, inclusive o real. Rapidamente o câmbio reverteu a baixa matinal e passou a subir, atingindo até R$ 2,3985, alta de 0,52%.

O mercado americano tentou extrair alguma orientação mais consistente sobre os rumos da política monetária dos pronunciamentos feitos ontem por dirigentes do Fed. Em vão. James Bullard, o falcão presidente do Fed de St. Louis, disse o que se espera que um falcão diga: o momento mais indicado para o início do aumento dos juros não é a metade 2015, como creem os mercados, mas o fim do primeiro trimestre. Outro falcão, Jeffrey Lacker, de Richmond, fez um discurso mais apropriado a um “dove”: ainda é cedo para se definir uma data para a efeméride do juro, o momento dependerá dos indicadores. E o “dove” Stanley Fischer, vice-presidente do Fed, foi evasivo: “o período de tempo considerável” das atas é alguma coisa entre dois meses e um ano. Mais obscuro, impossível.

O câmbio tentou imunizar-se contra o variado cardápio de boatos e notícias do dia. Ora o mercado recebia a informação de que Marina Silva estava fazendo exigências inaceitáveis à formalização de seu apoio a Aécio Neves como forma de impedir uma crise no seu partido, a Rede, cuja cúpula já havia decidido recomendar aos seus simpatizantes qualquer tipo de voto, menos a opção em Dilma Rousseff. A Rede tornou o voto em Aécio equivalente político ao nulo ou branco, o que dá a medida exata da consideração que faz do senador mineiro. Ora o câmbio acolhia notícia de que “tracking” do PT desqualificava pesquisas de menor peso apontando a disparada do PSDB no segundo turno. Ora era a firmeza da presidente Dilma em rebater pessoal e instantaneamente todo e qualquer ataque tucano, sinal de que a via da “desconstrução sangrenta” de Aécio no horário eleitoral já havia sido decidida. A presidente não se vexou em descer um degrau na escala hierárquica para alvejar o nomeado ministro da Fazenda de uma eventual gestão tucana.

Mas os dias em que o dólar, por falta de certezas, resolve seguir o viés externo serão cada vez mais raros até o dia 26. Não faltarão motivos para oscilações frenéticas, mesmo que o Brasil seja beneficiado pelo rearranjo das carteiras dos fundos globais. Em tese, o desarme da bomba da alta do juro básico americano poderia inverter o fluxo financeiro atualmente negativo. Na semana passada, a conta financeira da balança cambial foi negativa em US$ 1,579 bilhão. Em caso de consolidação da dianteira de Aécio Neves, o retorno dos capitais mais especulativos poderia magnificar uma tendência de baixa da moeda. Na hipótese inversa, talvez não fosse capaz de conter uma disparada.

O pregão de juros futuros da BM&F sustentou a inclinação negativa da curva futura de DIs. Considerando sempre os contratos com vencimento no dia 1° de janeiro de cada ano, a taxa recua de 11,86% em 2016 para 11,76% em 2017 e 11,36% em 2021. As oscilações em relação aos fechamentos de quarta-feira, quando existiram, foram muito tímidas. A taxa para a virada do ano permaneceu em 10,95%. Estabilidade em 11,76% foi a tônica do contrato para janeiro de 2017. O pregão não mostrou nenhuma reação à surpreendente deflação registrada pela primeira prévia do IGP-M de outubro. O índice caiu 0,07%, na contramão da expectativa dos analistas de alta de 0,08%. O dado amortece em parte o desconforto trazido pelo IPCA de setembro, acima das expectativas, ao informar que o minichoque dos alimentos já passou, mas não fez preço nos DIs.

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