Por monica.lima

A taxa de câmbio tende a ampliar o seu afastamento das forças que a condicionam tecnicamente nestes 10 pregões derradeiros até o veredicto das urnas no dia 26. As operações de câmbio feitas no mundo real por exportadores, importadores, empresas e investidores do setor produtivo que poderiam ser antecipadas, já o foram. A participação deste tipo de agente irá se limitar ao estritamente necessário. O mercado de dólar se tornará cada vez mais um reduto inóspito frequentado apenas por profissionais e especuladores. Pouca interferência sobre o preços terão as variáveis que são referenciais para o dólar, como o cenário internacional (mais propriamente, o grau da aversão global a risco de emergentes), o fluxo de entrada e saída de capitais, as posições mantidas por hedge funds estrangeiros nos pregões de derivativos cambiais da BM&F, os fundamentos macroeconômicos e as atuações do Banco Central.

A oscilação do giro financeiro poderá ser dramática de hoje até o dia 24. Nos dias de ausência de rumores e pesquisas mais consistentes os pretextos para agitações diminuem na mesma proporção e o volume de negócios cai abaixo de US$ 1 bilhão. Foi o que aconteceu na quinta (US$ 700 milhões) e na sexta-feira (US$ 800 milhões). Nos momentos de reviravoltas, imaginárias ou efetivas, na corrida presidencial o giro sobe acima de US$ 2 bilhões. Foi o que aconteceu no pregão do dia 3 (giro de US$ 3,3 bilhões), véspera do primeiro turno, quando era tida como certa uma reação de Aécio Neves. O foco principal dos analistas estará direcionado para as pesquisas eleitorais feitas pelos institutos que gozam de melhor reputação (Datafolha, Ibope, Vox Populi e Sensus), para as sondagens qualitativas extraoficiais, de circulação teoricamente restrita, e para os debates na televisão (amanhã na Band, no próximo domingo na Record, dia 22 no SBT e dia 24 na Globo).

O dólar tem uma ampla margem de oscilação dependendo das tendências apontadas pelos institutos. De acordo com os analistas, a moeda poderá descer até R$ 2,30 se o candidato tucano conseguir abrir em relação à Dilma Rousseff uma vantagem confortável que lhe garanta a faixa presidencial. Na hipótese inversa, o teto imaginado beira os R$ 2,60. Comparativamente ao preço com o qual os negócios foram encerrados na sexta-feira — de R$ 2,4236, em valorização de 1,07% —, o dólar poderá variar entre uma queda de 5,1% e uma alta de 7,3%.

Como o câmbio desistiu de esperar por acenos da campanha petista em favor de uma política econômica no segundo mandato de Dilma mais pró-mercado, não será difícil conduzir a moeda para um canal de alta acima de R$ 2,50. No dia 1, quando surgiu a possibilidade de a presidente ganhar a eleição já no primeiro turno, o dólar fechou a R$ 2,4848. As recentes entrevistas do coordenador econômico da campanha petista, Aloysio Mercadante, descartam completamente a hipótese de Dilma autorizar um “cavalo de pau” como o que foi feito em 2003 pela dupla Lula-Palocci. O ajuste será suave, nada de tarifaço, arrocho fiscal, aperto monetário, redução drástica de subsídios e revisão das atuações dos bancos públicos. O emprego, como diz o ministro, “não é variável de ajuste”.

A rigor, nem precisaria haver uma explicitação dessa orientação. A própria campanha de Dilma no segundo turno está estruturada na diferenciação das duas políticas econômicas em disputa: a de Aécio, feita para beneficiar os ricos, e a de Dilma, feita em favor dos pobres, para preservar a renda do trabalhador e para permitir a continuidade da inclusão social enquanto o mundo não sai da crise. Embora o enfoque seja simplificadoramente maniqueísta, o desejo é mesmo que a votação do dia 26 se transforme num plebiscito a opor pobres e ricos. É nisso que o horário eleitoral e os discursos irão insistir. Diante dessa dicotomia, não há como esperar por acenos mercadistas por parte do PT. Para que a estratégia plebiscitária dê certo pode ser até necessário que o mercado não esteja a favor de Dilma. Quanto mais oposição enfrentar dos ricos, maiores as chances de cativar os pobres.

Mas o mercado acredita que a manutenção dos pressupostos essenciais da política econômica não é apenas uma estratégia de campanha destinada a consolidar a polarização pobre-rico. O consenso é que, na falta de um rigoroso ajuste das contas públicas, a correção será feita pelo próprio mercado via taxa de câmbio. O dólar alto equilibrará o balanço de pagamentos e forçará o abandono do modelo baseado no incentivo ao consumo interno. A depreciação cambial será mais ou menos intensa no ano que vem dependendo do processo de normalização da política monetária americana e da recuperação da economia mundial.

Os balizadores internacionais raramente têm tido influência sobre o comportamento dos segmentos de câmbio e juros futuros nos últimos pregões. Essa desvinculação tende a se intensificar agora. Se o comportamento externo atua na mesma direção do humor interno pode amplificar determinado viés. Foi o que aconteceu na sexta-feira. À decepção com as pesquisas que apontaram empate técnico entre Dilma e Aécio, quando os investidores já esperavam uma margem mais folgada para o tucano, juntou-se uma inapetência global ao risco, ditada ainda pelos temores relacionados à debilidade econômica da maior parte das nações relevantes. Mas se o senador mineiro disparar nas pesquisas, não haverá inquietação externa capaz de evitar a queda da moeda.

Os indicadores domésticos terão pouca influência real sobre os mercados. Podem ser invocados apenas para justificar manobras intraday. Os mais significativos desta semana são as vendas varejistas de agosto que o IBGE divulga na quarta-feira e o índice de atividade do BC (o IBC-Br) também de agosto, a sair na quinta-feira. Influência mais direta nas campanhas eleitorais poderão ter os dados sobre mercado de trabalho do Caged, ainda sem data para serem divulgados.

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