Em ação, o boato premonitório

Ainda faltam oito pregões até o segundo turno das eleições presidenciais, mas a especulação financeira já alcançou um paroxismo incapaz de respeitar até princípios elementares de lógica

Por O Dia

Exemplo típico vem do ziguezague do Ibovespa. O principal índice da bolsa abriu ontem em queda decepcionado com a falta de confirmação da pesquisa nonsense Sensus que apontou no fim de semana uma disparada de 17,6 pontos de Aécio Neves. O Vox Populi, para cujas sondagens o mercado torce o nariz por serem vistas como benevolentes a Dilma Rousseff, deu na segunda-feira à noite empate técnico com vantagem numérica à presidente. Mas a baixa, de até 1,2% às 11h30, motivada pelo desapontamento, logo foi superada.

Motivo: rumor de que a pesquisa do Datafolha que será divulgada hoje indicará 54% de votos válidos para o candidato tucano e 46% para a petista. E a bolsa subiu até 1,55% às 13 horas. Para a construção do rumor, desprezou-se como detalhe insignificante o fato de que foi propagado poucas horas depois de o instituto ter iniciado a fase de coleta/entrevista, cujo término está previsto apenas para hoje à tarde. E o mercado já tinha o resultado. É um novo tipo de boato, o premonitório.

Como o especulador não possui dons divinatórios, o boato só seria crível em algum grau se alguém supusesse a possibilidade de manipulação da pesquisa: antes de ir a campo, o instituto já teria o resultado. Como será impossível ao Datafolha encontrar o difusor do boato para processá-lo, a coisa ficará por isso mesmo. Azar de quem acreditou. O que não tem nada de adivinhação é o interesse dos especuladores de turbinar as ações do “kit-eleições”, as de estatais e bancos, para favorecer manobras destinadas a viabilizar o “exercício” no mercado de opções da Bovespa, cujo vencimento acontece hoje, antes da divulgação oficial da pesquisa.

Como o câmbio não está às vésperas de vencimento de opções, não acreditou na história fantasiosa e, embora torça para que o Vox Populi esteja errado, não força a mão. Ante o real, o dólar preferiu operar em sintonia fina com a tendência externa. Lá fora, a moeda americana valorizou-se acentuadamente frente às moedas europeias e, em menor escala, em relação a de emergentes. Fechou cotado a R$ 2,4005 em alta de 0,33%. As negociações cambiais limitaram-se ao estritamente necessário. As oscilações foram mínimas — variou entre uma alta de 0,46% (cotado a R$ 2,4036) e uma queda de 0,03% (R$ 2,3934) — e o volume de negócios foi de US$ 1,3 bilhão.

O mercado não tentou predizer quem seria o vencedor do debate entre os dois candidatos marcado para a noite, nem desvendar os resultados das duas principais pesquisas da semana, aquela do Datafolha e outra, do Ibope, ambas com veiculação prevista para hoje à noite. A postura mais conservadora de ontem não significa que hoje o câmbio também não tentará operar com base na “expectativa” dos ventos que as duas consultas soprarão. Como o dólar caiu 1,27% na segunda-feira por causa da pesquisa Sensus, mas subiu ontem apenas 0,33% por causa da Vox Populi, se as sondagens de hoje penderem mais para a segunda a moeda tende a disparar.

Em princípio, a tendência primária do dólar, vinda de fora, é de alta. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano afundaram ontem porque os analistas internacionais já não falam mais em prosseguimento da “estagnação” europeia. Não se vexam em usar uma palavra mais forte, “recessão”. A taxa da T-Note de 10 anos caiu de 2,29% para 2,23%, tendo chegado ao piso de 2,18% das últimas 52 semanas.

O medo de que a eurolândia entre de novo em recessão, arrastando consigo a Inglaterra, provoca dois efeitos complementares, ambos agindo na mesma direção de reduzir os juros longos americanos: 1) Adiamento pelo Federal Reserve (Fed) do seu plano de normalização das condições monetárias; e 2) Fuga de ativos para o abrigo seguro das “treasuries”. Esse é o movimento inicial. Se forem tomadas providências para o alargamento da liquidez nos países do centro do mundo, os emergentes irão se beneficiar, provocando a valorização de suas moedas.

Dois indicadores ampliaram ontem o tom vermelho da luz que pisca com insistência nas mesas. A produção industrial na zona do euro caiu 1,8% em agosto, o pior dado desde setembro de 2012. Os especialistas suspeitavam que iria cair, mas previam baixa de 1,6%. Na Alemanha, o índice Zew de expectativas econômicas tombou de 6,9 em setembro para -3,6 em outubro. Trata-se da décima queda mensal consecutiva do indicador. O Zew não ficava negativo desde novembro de 2012.

O indicador de situação atual também piorou: desabou de 25,4 para 3,2 pontos, quando se previa queda para 15. Os analistas acertaram na direção — a economia está piorando — , mas não sabiam que estava piorando tanto. “A queda da confiança dos investidores alemães em outubro aponta retração da economia do país nos próximos seis meses”, diz o Departamento de Economia do Bradesco em relatório. “As perspectivas para o crescimento alemão, e europeu de modo geral, têm se enfraquecido persistentemente nos últimos meses, aumentando as incertezas em relação à capacidade de recuperação da economia do bloco”, diz.

O pregão de juros futuros da BM&F se deixou contagiar durante as negociações pelo efeito-manada vindo da Bovespa, sob o argumento de que, quando o tropel é ensurdecedor, o melhor a fazer é ir junto com o rebanho. Um dos contratos mais líquidos, com vencimento em janeiro de 2017, oscilou entre 11,73% e 11,86%, mas fechou com a mesma taxa da véspera, 11,76%. As incertezas econômicas externas e as políticas internas provocaram uma cisão nas rotas dos DIs. Enquanto os contratos curtos caíram, os mais longos subiram. A taxa para janeiro de 2016 recuou de 11,88% para 11,85%. Já o contrato para janeiro de 2021 avançou de 11,15% para 11,24%.


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