Mercado ensaia jogar a toalha

Os mercados domésticos desacoplaram-se ontem dos seus similares internacionais

Por O Dia

Enquanto os pregões de fora operaram com certo otimismo, aqui prevaleceu um misto de irritação e desalento com a última pesquisa Datafolha. Na abertura do dia, o dólar chegou a disparar 1,63%, cotado a R$ 2,5038, mas como a moeda americana é uma commodity mundial cujo preço não pode ficar desalinhado por muito tempo aos poucos o ímpeto foi perdendo vigor. Mesmo assim, no encerramento, o real exibiu uma desvalorização incompatível com o desempenho das demais moedas emergentes. O dólar fechou em alta de 0,52%, vendido a R$ 2,4766. Os juros também subiram no mercado futuro da BM&F e pela mesma justificativa que embasou a apreciação cambial — medo e raiva de mais quatro anos com Dilma Rousseff —, nada a ver com a aceleração do IPCA-15.

O Datafolha disparou uma correria no mercado de câmbio. Os investidores trataram de acertar posições o mais cedo possível, pois quem deixar para depois, ainda confiando numa guinada, pode pagar mais caro. Foi por isso que o volume de negócios deu um pulo de 141%, para US$ 2 bilhões. Não foi apenas a vantagem numérica de quatro pontos aberta por Dilma sobre Aécio Neves na pesquisa de votos válidos que fez piscar uma luz pré-pânico nos mercados. Os indecisos começam a se definir por Dilma, Aécio perde votos no Sudeste e no Sul, onde era imbatível, enquanto aumenta a sua desvantagem no Norte e no Nordeste e o seu índice geral de rejeição.

Este Datafolha marcou, para os petistas, o ponto da virada, após duas semanas de total estagnação. Para os adeptos da presidente, a tendência é de abertura e consolidação da superioridade. Não haveria mais tempo para se fazer a reviravolta da virada. Venceu o marketing petista de desconstrução do oponente. Para o peessedebistas, nada estará decidido antes do debate de sexta-feira na Globo. Mas o mercado está em vias de jogar a toalha. Basta o novo Datafolha, a ser divulgado hoje, apontar preferência por Dilma fora da margem de erro.

Ontem o mercado trabalhou sem a expectativa de nova pesquisa (a divulgação de uma sondagem feita pelo instituto Veritá, apontando Aécio com 53,2% dos votos válidos e Dilma com 46,8%, foi completamente desprezada pelo mercado). A terça-feira foi o único dia da semana sem previsão de novas divulgações relevantes. De hoje até sábado, todos os dias novas sondagens virão a público. Amanhã, serão duas (mais uma do Datafolha e outra do Ibope), na sexta-feira apenas uma, a do Sensus, e, na véspera da votação, todos os cinco institutos (Datafolha, Ibope, Vox Populi, MDA e Sensus) mais acionados darão o seu veredito.

Investidores institucionais de porte começaram ontem no pregão de juros futuros da BM&F a remanejar suas carteiras de títulos de forma a melhor se prepararem para a reeleição de Dilma. O resultado do corre-corre foi uma arrancada matutina dos juros e um fechamento dissonante. A compra e a venda de contratos situados em pontos diferentes da curva de juros tornaram heterogêneo o comportamento dos vários vencimentos. Depois de avançar de 12,08% para até 12,23%, o contrato para janeiro de 2016 encerrou o dia em queda de 0,03 ponto, a 12,05%. A taxa para janeiro de 2017, após saltar de 12,16% para 12,40%, fechou com modesta alta de 0,02 ponto, a 12,18%. Já o contrato para janeiro de 2021 sustentou uma expressiva alta de 0,22 ponto, fechando a 11,81%.

Os analistas receberam ontem, do front inflacionário, informe menos preocupante. Um indicador negativo só representa uma má notícia para os mercados se a sua deterioração for mais acentuada do que o previsto. Não foi o que aconteceu com o IPCA-15 relativo a outubro. O índice, gêmeo prematuro do índice oficial de inflação, acelerou de 0,39% no mês passado para 0,48% este mês. Os analistas já sabiam que haveria uma alta significativa, mas esperavam menos. Na mediana das projeções, aguarda-se um avanço de 0,52%, com os extremos situando-se em 0,47% e 0,63%, ou seja, o IPCA-15 ficou bem perto do piso das expectativas. O acumulado em 12 meses manteve-se nos mesmos 6,62% de setembro. A inflação está acima do teto da banda, mas, e daí?, já que não se presta a uso eleitoral imediato.

O fato é que a inflação está onde sempre esteve: nos quatro anos do primeiro mandato de FHC, cujo regime de controle da inflação era o da âncora cambial, a taxa média foi de 9,4%; caiu para 8,7% na média do segundo mandato tucano, cujo sistema era o que vigora até hoje, o de metas inflacionárias; no primeiro mandato de Lula, a taxa média do quadriênio cedeu a 6,5%; e, no segundo, mais ainda, para 5,2%; e no primeiro quadriênio de Dilma poderá fechar com média de 6,17% se o IPCA acumular este ano, como estima o boletim Focus do BC, em 6,45%. Alguém precisaria ser loucamente cínico para afirmar que a inflação está descontrolada.

Outro exemplo de má notícia que, na verdade, não é uma notícia má veio da China. O PIB da segunda maior economia do planeta subiu 7,3% no terceiro trimestre do ano, freando em relação à alta de 7,5% verificada no trimestre anterior. Ruim? Nem tanto, se for considerado que os especialistas previam uma desaceleração maior, de 7,2%. “Essa pequena surpresa positiva deverá reduzir as preocupações com a economia chinesa, após a rápida perda de ritmo apontada pelos indicadores de julho e agosto”, diz o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, em relatório.

Além do dado do PIB, o governo divulgou ontem o desempenho da produção industrial em setembro. Nova surpresa: subiu 8%, acima das previsões (7,5%) e do avanço de agosto (6,9%). O que não deixa os mercados tão satisfeitos é a impressão cada vez mais generalizada de que os dirigentes do Partido Comunistas não fazem mais questão de cumprir as metas de crescimento. Não vai dar para crescer 7,5% este ano. E, para eles, tudo bem. O importante é retirar o artificialismo que bombava excessivamente a expansão. Mas não há crise na China. Há sim crise na zona do euro, mas ontem os mercados se mostraram mais otimistas.

Mas as compras nas principais bolsas europeias (Londres subiu 1,68%; Paris, 2,25%; Frankfurt, 1,94%; e Milão, 2,79%) foram embaladas por um sentimento quimérico, o de que o Banco Central Europeu (BCE) será capaz de superar as suas divergências internas e tomar medidas mais efetivas. Voltaram os comentários de que o BCE vai comprar bônus corporativos. Isso não ataca o cerne do problema. Enquanto não passar a injetar euros imaculados em troca de títulos soberanos carcomidos não haverá esperança de recuperação consistente. E o Conselho do BCE está ainda muito longe de atingir esse consenso.

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