Além de fazer uso negocial do clássico boato que antecipa o resultado de pesquisa de instituto respeitável, os especuladores do mercado de câmbio inovaram ao utilizar a teoria da conspiração para fazer armações. Ao zum-zum-zum altista de que o Ibope e o Datafolha que seriam divulgados após o fechamento do câmbio iriam indicar vantagem de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves fora da margem de erro, foi contraposta a conspiração baixista de que os softwares das urnas eletrônicas serão no domingo, como já haviam sido no primeiro turno, manipulados para favorecer o tucano.
O primeiro boato forçava investidores a comprar moeda americana, o segundo a vender. Os conspiradores, ao duvidar da idoneidade das urnas e dos sistemas de transmissão de dados, visavam introduzir um elemento de incerteza nos detentores de moeda. Pelo pantim plantado, não foram os institutos de pesquisa que erraram no primeiro turno (Aécio obteve oficialmente 33,55% dos votos válidos, quando as últimas sondagens indicam 26% pelo Datafolha e 27% pelo Ibope), foi o resultado oficial que sofreu adulteração por infecção algorítmica. Queriam convencê-los a reduzir a posição, permitindo aos conspiradores a aquisição de dólar a preço menos inflado. Deu certo em alguns momentos do dia, sobretudo durante a manhã. À tarde, o alarde conspirativo já não fazia mais preço.
Os boatos e contraboatos instalaram uma montanha-russa no pregão: o dólar abriu a R$ 2,4971, subiu a R$ 2,5005 às 8h30, desceu a R$ 2,4892 às 9 horas, voltou a subir a R$ 2,4987 às 11h09, e depois não parou de avançar até às 14h19, quando bateu em R$ 2,5142. Até o fechamento, foi ziguezagueando, para encerrar a R$ 2,5137, em valorização de 1,35%. Trata-se do maior preço de fechamento desde os R$ 2,5280 do dia 29 de abril de 2005. Para tornar viável o constante sobe-e-desce, os players gastaram muito dinheiro: o giro de negócios foi bem expressivo, de US$ 1,8 bilhão. A conspiração pode não ter funcionado plenamente, mas tornou possível comprar moeda por preço abaixo de R$ 2,50.
Hoje, último pregão antes do pleito, tudo será permitido e possível, embora a única pesquisa programada para o dia seja a de um instituto, o Sensus, que não desfruta junto aos investidores do mesmo prestígio do Datafolha e do Ibope. Ainda vai pesar muito o viés altista imposto pelas pesquisas de ontem, dada a dianteira conquistada pela petista. Dilma tem 54% dos votos válidos segundo o Ibope e 53% de acordo com o Datafolha. Aécio, respectivamente, 46% e 47%. A vantagem da presidente é de oito pontos no primeiro caso e de seis no segundo. Não será nada surpreendente se o dólar bater hoje a marca anterior de abril de 2005. Hoje será a última oportunidade para enganações lucrativas já que, a partir de segunda-feira, irá prevalecer a análise mais técnica das influências sobre o câmbio das possíveis políticas econômicas a serem adotadas pelo vencedor e sua equipe.
O pregão de juros futuros da BM&F foi mais afetado pelas expectativas em torno das pesquisas de intenção de voto do que pela conspiração. Os contratos se mantiveram em alta firme ao longo da sessão. Não foi só por meio do avanço generalizado das taxas que os gestores de fundos e tesoureiros de bancos desnudaram suas inquietações. Como a aceleração foi progressiva — tanto mais distante o contrato, maior a alta – a curva futura perde rapidamente seu caráter benigno.
Enquanto o contrato para janeiro de 2016 subiu apenas 0,09 ponto (de 11,94% para 12,03%), a taxa para janeiro de 2017 avançou 0,20 ponto (de 12,10% para 12,30%) e a taxa para janeiro de 2021 saltou 0,29 ponto (de 11,85% para 12,14%). Se Dilma for reeleita no domingo, a taxa para 2021 tende a superar a negociada para 2017. Com isso, o DI irá dizer que não irá esperar que o segundo mandato seja pautado por uma política econômica mais responsável.
Os assalariados parecem não ter queixa da atual. A melhor notícia pré-eleitoral que a candidata Dilma poderia receber da área econômica foi dada ontem pelo IBGE. As comemorações oficiais pela queda da taxa de desemprego, de 5% em agosto para 4,9% em setembro — um número que surpreendeu os especialistas do mercado, que esperavam alta para 5,1% — não foram turvadas pelos dados a respeito da arrecadação federal do mês passado, cuja divulgação foi adiada pela Receita Federal para a semana que vem.
O desemprego caiu porque a velocidade de queda da população economicamente ativa foi maior que a da população ocupada. Uma quantidade menor de desempregados procurou emprego. Por que está difícil achar ou por que a renda da família desobriga o esforço? O primeiro fato é que os salários sobem mais do que a inflação. A alta anual do rendimento médio em setembro foi de 8,3% nominais.
O segundo é que, apesar da estagnação do PIB, as condições de oferta e demanda do mercado de trabalho persistem apertadas. O terceiro é que a inflação está no teto, mas os salários acima dele, assegurando a manutenção do consumo das famílias. Dificilmente um governo não se reelege com um mercado assim, sobretudo se conseguir convencer o eleitorado, como parece estar conseguindo, que a oposição pretende cimentar esse jardim aprazível.
Com as altas, dólar e juros futuros nadaram na corrente oposta à seguida pelos mercados internacionais. Indicadores mais positivos sobre as economias da China e da Europa desguarneceram as defesas antirrisco dos grandes investidores globais. A opção do dia foi sair de ativos de segurança máxima, como os títulos emitidos pelo Tesouro americano, e rumar para ações e títulos de países emergentes. Esse movimento de venda de “treasuries” forçou a alta das taxas. O rendimento efetivo da T-Note de 10 anos avançou de 2,22% para 2,29%. O dado americano mais importante do dia – os novos pedidos de auxílio-desemprego feitos na semana passada – teve influência neutra, já que a alta registrada veio praticamente em linha com as previsões.
As novas solicitações do auxílio cresceram em 17 mil, para 283 mil, quando os analistas previam 282 mil. Na China, a sondagem de manufatura feita pelo HSBC surpreendeu positivamente. A primeira preliminar de outubro foi 50,4 pontos, ante 50,2 em setembro. O mercado esperava a repetição de 50,2. Na zona do euro, todos os PMIs superaram as expectativas: o de manufatura aumentou de 50,3 para 50,7 (os analistas projetam queda para 49,9); o de serviços subiu a 52,4, ante 52 das previsões; e o composto evoluiu de 52 para 52,2, quando o mercado aguardava queda para 51,5.