Por bruno.dutra

Na verdade, o mercado não abandonou seu movimento ondulatório especulativo: num dia a bolsa cai para que os investidores possam remontar posições a preços mais baixos, no outro sobe para permitir que vendam com lucro; o dólar vai no sentido oposto, quando dispara num pregão chancela a venda dos que compraram quando estava em queda na sessão anterior. Essa ondulação especulativa, muitas vezes confundida com “volatilidade nervosa” — não é: a volatilidade não se controla, a ondulação é planejada — continuará até que os investidores tenham sinais mais concretas das mudanças pretendidas.

E elas só devem vir em novembro. Em que período de novembro, na semana que vem ou entre os dias 24 e 28, quando já faltarão poucas semanas para o fim do ano? Como é que fica até lá? Seria pedir demais que logo na segunda-feira, dia 3, a presidente anunciasse o controle rigoroso do gasto público, o fim da política de desonerações tributárias, a diminuição do crédito subsidiado via BNDES e o compromisso de não ingerência setorial — tudo com o que o mercado sonha. Mas o governo poderia já dar um sinal eloquente hoje mesmo, ao término da reunião de outubro do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

Ninguém no mercado espera que o BC suba hoje no início da noite a Selic de 11% para 11,25%. Mas ontem foi forte a impressão de que o Copom poderá alterar o comunicado pelo qual informa sua decisão à sociedade. Não se trata de um texto qualquer. O “statement” é também, junto com a ata, o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) e o boletim Focus, peça formal do sistema de metas de inflação. Seu objetivo é, como os demais documentos, o de influenciar a formação de expectativas inflacionárias positivas. O comunicado da reunião de setembro primou pela simplicidade despida de sinalização:

“Avaliando a evolução do cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 11,00% a.a., sem viés”. Na ata deste encontro de setembro, o Comitê reforçou a indicação de que não estava em seus planos diminuir o “instrumento monetário”. Ou seja, a Selic não cairá, mas nada disse sobre a possibilidade de subir. O momento pode ser agora.

Há três formas de o BC apontar para a necessidade de uma alta futura da taxa básica: 1) Alterar o “statement”, reintroduzindo expressões codificadas destinadas a preparar o mercado para um novo ciclo de alta e, ao mesmo tempo, manter o placar unânime de votação; 2) Não mudar o texto, mas construir um score divergente dentro do Copom, com cinco diretores optando pela estabilidade em 11% e três por uma elevação de 0,25 ponto; 3) Fazer as duas coisas: mudar o comunicado e estabelecer o dissenso. No primeiro caso, a decisão de alta poderia ser tomada apenas na primeira reunião de 2015. No segundo, haveria grande possibilidade de já no encontro de 3 de dezembro ser feita a alta. E, no terceiro, com certeza a taxa subirá nesse próximo Copom.

Tomando qualquer uma das três trilhas, o governo Dilma estende uma bandeira branca ao mercado. Mas o governo fala através do BC? Ele não goza de autonomia operacional (não confundir com independência jurídica como queria Marina Silva)? Sim, oficialmente, goza. O mercado acha que não. Ao longo deste ano, o BC sofreu severas críticas em relação à lerdeza com que perseguia o centro de 4,5% da meta de inflação. Ele demonstrou que estava satisfeito com o alinhamento do IPCA à meta ao longo do período de dois anos conhecido como “horizonte da política monetária”.

Para o pessoal linha-dura, o Copom levou muito tempo — um ano — para subir a Selic de 7,25% até 11%, e parou cedo demais. Para ele, a Selic já poderia estar em 12%. A falta de rigor foi considerada uma leniência que colocava os membros do Copom ombro-a-ombro com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário do Tesouro, Arno Augustin.

Além da mudança do comunicado, outro sinal que o BC poderia dar em favor da sedação dos mercados seria a permanência de Carlos Hamilton Araújo, diretor de Política Econômica. Tido como o membro do Copom de postura mais “hawkish”, Araújo estaria pronto para desembarcar. Talvez não só ele. O pesado contra-ataque da campanha dilmista à proposta marinista de independência teria abalado outras suscetibilidades.

Se nenhum sinal vier hoje à noite — ou seja, se o comunicado for mantido sem nenhuma alteração, nem a volta da locução adverbial de tempo “neste momento”, e com placar unânime pelos 11% —, o mercado retorna à volatilidade ondulatória, ao sabor de informações e boatos sobre quem será o novo ministro da Fazenda.

Ontem, dólar e juros caíram porque executivos e analistas ficaram com a sensação de que, seja quem for o escolhido por Dilma, será um nome identificado com Lula e os seus objetivos. Seria uma espécie de interventor lulista encastelado no centro do poder. Nenhum dos nomes da lista tríplice — o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, e o ex-secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa — em princípio agradaria a presidente.

Nenhum dos três teria jogo de cintura para acomodar as “sugestões” econômicas de Dilma. O primeiro é um executivo brilhante que a vida toda trabalhou no Bradesco. Já no início dos anos 80 ocupava cargo na secretária-geral que assessorava diretamente Amador Aguiar e Lázaro de Mello Brandão. Culto e de trato pessoal sempre afável, foi contudo treinado para pensar como banqueiro — o que é uma inestimável virtude quando se dirige um banco.

As restrições pessoais a Meirelles vêm do tempo em que o presidente do BC desfrutava de status de ministro. Já Barbosa saiu da Fazenda por divergir da política econômica dilmista praticada por Mantega. E saiu atirando. E continua: recentemente, criticou o excesso de intervenção cambial do BC. Colocar Barbosa na Fazenda implicaria em tirar Tombini do BC? Lula talvez tenha de arrumar um quarto nome.

O dólar foi negociado em baixa durante todo o dia. Fechou a R$ 2,4740, em queda de 1,94%. Dependendo do resultado da reunião de hoje do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve, poderá consolidar uma tendência de queda. O Fed deve indicar, sem surpresas, o fim do QE3, a terceira fase do afrouxamento quantitativo. A partir do mês que vem não emitirá nenhum dólar para a recompra de títulos. Isso já está no preço. O que pode não estar é a sinalização para o momento da alta da taxa básica de juros. O mercado desconfia que o Fomc pode jogar para 2016 a alta precificada para o segundo semestre de 2015.

Tal indicação aumentará o fluxo de capitais para o Brasil, atrás da Selic de 11% ou acima disso se um nome lulista for emplacado na Fazenda. O mesmo raciocínio vale para os contratos de juros futuros negociados na BM&F. As taxas recuaram em bloco, mas a curva se manteve positiva — o contrato para janeiro de 2017 cedeu de 12,05% para 11,92% e o para janeiro de 2021 de 12,12% para 11,95%.

Você pode gostar