Por monica.lima

Os Bancos Centrais do Brasil e dos EUA resolveram ontem surpreender os mercados financeiros. E ambos na mesma direção, de endurecimento da política monetária. O nosso BC foi direto: subiu a Selic de 11% para 11,25%, inesperadamente, sem antes ter preparado analistas e investidores. O Federal Reserve (Fed) foi mais sutil, mas com a mesma eficiência, ao alterar o seu discurso assumindo postura bem mais “hawkish”. A decisão de elevar a Selic em 0,25 ponto não foi consensual: cinco diretores votaram pela alta e três pela manutenção em 11%. A taxa estava estabilizada nesse patamar desde abril, depois de ter subido, ao longo de um ano, 3,75 pontos. A fila dos que votaram pela alta foi puxada pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, um dos candidatos a suceder Guido Mantega na Fazenda.

Em nota, o Copom explicou a surpresa: “Desde sua última reunião, entre outros fatores, a intensificação dos ajustes de preços relativos na economia tornou o balanço de risco para a inflação menos favorável. À vista disso, o Comitê considerou oportuno ajustar as condições monetárias de modo a garantir, a um custo menor, a prevalência de um cenário mais benigno para a inflação em 2015 e 2016”.

A alta foi combinada com o Palácio do Planalto? Para analistas “estarrecidos” com o resultado desse primeiro Copom depois da eleição, trata-se de um sinal de que a visão de uma “nova Dilma”, que desencadeou uma lua de mel com o mercado desde terça-feira, não é uma miragem. Antes de sair o resultado do Copom, o namoro havia sofrido uma pausa por causa da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve. Ele surpreendeu ao afastar a possibilidade de a economia americana sofrer contágio negativo do baixo crescimento da Europa e do Japão e da desaceleração da China. Ao sustentar sua confiança na recuperação dos EUA, não chancelou a expectativa dos analistas de postergação para 2016 do início do movimento de alta do juro básico. O Fomc acabou com o programa de compra de títulos, conforme já largamente esperado, e, sem alterar formalmente sua orientação de política monetária, assumiu tom mais austero. Anunciadas as decisões, as bolsas de valores intensificaram as quedas mundo afora. O dólar, que chegou a cair até 1,98%, fechou com uma desvalorização bem menor, de 0,23%, cotado a R$ 2,4684.

Como o pregão de DI futuro da BM&F fecha depois do dólar, deu tempo para os contratos refletirem toda a frustração externa com o matiz conservador empregado pelo Fomc no seu comunicado. O mercado esperava que o Comitê adotasse uma postura bem mais “dovish” depois das más notícias sobretudo em relação à economia europeia. Assumiu posição inversa. Ao reconhecer pela primeira vez este ano a melhora substancial do mercado de trabalho, mostrou-se pronto a subir o juro se a inflação chegar perto da meta de 2% antes do previsto. Depois da reunião, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano, que havia encerrado na terça-feira a 2,30%, subiu a 2,35%.

Os juros domésticos acompanharam. Os contratos fecharam em alta generalizada. A taxa para janeiro de 2017, que havia caído para 11,84% durante o pregão, vinda de 11,92% no fim da sessão anterior, encerrou a 11,98%. E o contrato para janeiro de 2021, que tinha recuado abaixo da linha dos 12% no fechamento anterior, foi a 12,13%. Hoje, em ajuste ao Copom surpreendente, a tendência é de os contratos mais curtos subirem para se ajustarem a um BC mais austero, com queda dos contratos mais longos. Isso, se os mercados externos, influenciados pelo Fomc, deixarem. O dólar, com a mesma ressalva externa, tende a cair porque o aumento da rentabilidade da Selic ampliará a atração de aplicadores de fora.

A alteração do viés do Fomc para “hawkish”, se for capaz de reduzir a entrada de capitais, pode estremecer a lua de mel do mercado com a “nova Dilma”. Na semana passada, já houve expressiva entrada de dólares pela conta financeira da balança cambial, mas a cotação não cedeu porque, de 20 a 24, predominou o violento tiroteio especulativo pré-segundo turno. Ao contrário da fuga de capital prevista em razão do favoritismo da petista, entrou muito dinheiro de fora na semana marcada por boatos desvairados. A conta financeira exibiu saldo positivo de US$ 3,297 bilhões, que, engordado pelo superávit de US$ 400 milhões da conta comercial, resultou numa balança cambial positiva em US$ 3,697 bilhões. Quem estava preocupado com a possibilidade de Dilma ganhar o pleito era o investidor doméstico, não o de fora.

Esse ingresso externo persiste agora no período pós-eleição, marcado pela transição entre um governo estigmatizado por viés desenvolvimentista e outro, um novo, arejado por “novas ideias”. Será? Para a maior parte desse capital, eminentemente especulativo, tanto faz. Ele quer ganhar o juro pago pelas operações que consistem em comprar um contrato de juro futuro na BM&F e vender outro de vencimento diferente, com prazo de liquidação menor. Essa engenharia proporcionou ontem rendimento de 11,9%. Mesmo que Dilma não nomeie um ministro da Fazenda à imagem e semelhança dos executivos do mercado, os estrangeiros confiarão no aparecimento de um comprador para as suas posições. Eles não estão fazendo uma aposta de que o novo ministro será ou não pró-mercado. Apenas jogam com o tempo.

Mesmo a porção mais cética dos gestores – a que não acredita no advento da “nova Dilma” – não se recusa a fazer operações no DI futuro. Hoje, como recomenda o diretor de mercados emergentes da Nomura Securities, Tony Volpon, os descrentes pagam DI janeiro de 2021 e recebem DI janeiro de 2017. Se o novo ministro não for alguém de mercado — Volpon espera um petista do porte do ex-governador baiano Jaques Wagner — não haverá problema: a curva do DI vai se abrir mais ainda, supondo-se uma política monetária que não fará questão de trazer logo o IPCA para perto do centro de 4,5% da meta de inflação. E a engenharia financeira dos DIs será afinada.

O namoro do mercado com a “nova Dilma” não é plenamente sincero. Os executivos acreditam nos sinais de que a futura política econômica sofrerá “mudanças” após o “diálogo” que será restabelecido com as lideranças dos setores produtivo e financeiro, mas não vão caminhar sobre brasas. As portas para a reversão do otimismo permanecem abertas. Quem, no início de setembro, recheou sua carteira com dólar adquirido por R$ 2,24, hoje realiza lucros, mas aos poucos, pronto para voltar a comprar. Os comentários que pipocavam ontem nas mesas eram de que a presidente só vai anunciar a nova equipe econômica às vésperas do encontro do G-20, em meados de novembro. O raciocínio é compatível com as ordens de venda de dólares: adornada por uma reluzente e recém-costurada capa liberal-ortodoxa, a nova Dilma se reapresentaria frente aos seus pares. Mas pode ser apenas imaginação delirante de quem quer, mais adiante, recomprar moeda a preço mais baixo.

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