Por diana.dantas
Publicado 14/11/2014 22:32

A presidente Dilma Rousseff retorna hoje da Austrália. Trará consigo o novo ministro da Fazenda? A promessa de anunciar os integrantes da nova equipe econômica após a reunião de cúpula do G-20 pode ser flexibilizada. Se a presidente adiar a decisão para a semana que vem ou para início de dezembro será um sinal de que as boas notícias esperadas pelos mercados não virão. Se a intenção for a de promover uma guinada radical pró-austeridade econômica o momento propício é agora. Diante do acúmulo de fatos negativos surgidos na sexta-feira — a sétima fase da Operação Lava-Jato, o adiamento da publicação do balanço trimestral da Petrobras e a destruição líquida de empregos em outubro —, o governo precisa gerar um clarão solar capaz varrer a atual tempestade. Se a propensão de Dilma estiver oscilando entre Alexandre Tombini e Nelson Barbosa, o nomeação de um dos dois só irá agregar mais nuvens negras numa atmosfera já saturada. Será melhor mesmo protelar.

Se a intenção da presidente for anunciar Tombini ou Barbosa esta semana o dia mais apropriado será a quinta-feira. O feriado da Consciência Negra em São Paulo fecha as sedes dos maiores bancos brasileiros, o pregão da Bovespa e os mercados futuros de dólar e juros da BM&F, os principais formadores dos preços à vista. E as operações cambiais à vista se reduzirão ao mínimo necessário. Será na verdade um feriadão, com boa parte do mercado enforcando a sexta-feira. A indicação de um heterodoxo afinado com Dilma só teria repercussão efetiva na segunda-feira, ou seja, seria concedido um espaço de tempo de quatro dias para a nova equipe explicar e detalhar seu programa econômico, o tipo de ajuste fiscal que será feito e as linhas gerais das políticas monetária e cambial. O mercado voltaria a operar a plena carga na segunda-feira um pouco menos tenso.

Mas se a presidente já estiver fechada com o ex-presidente do BC Henrique Meirelles seria desejável anunciá-lo, mesmo que o restante da equipe econômica ainda esteja pendente, já nas primeiras horas da manhã de hoje. A sagração de Meirelles estaria ornada de um simbolismo capaz de euforizar os mercados. Significaria que a presidente voluntariamente abriu mão do controle direto da economia. Mais: interventor de Lula, Meirelles seria irremovível. É claro que a vitória do mercado no terceiro turno não seria completa se Dilma mantivesse Tombini no BC e colocasse Barbosa no Planejamento. Com isso, a presidente ainda deteria o controle do Conselho Monetário Nacional (CMN), a troica formada pelos ministros da Fazenda e do Planejamento mais o presidente do BC que, entre outras atribuições, decide miudezas como a meta de inflação e a TJLP.

A chance de Meirelles vingar é mínima, reconhecem os analistas. Tanto é que os mercados se prepararam durante a semana passada para a escolha de um nome que representaria a continuidade dos princípios básicos da política econômica dilmista. O que seria essa continuidade? O déficit fiscal primário deste ano foi um ponto fora da curva, feito para reeleger a presidente e zerar as contas em atraso. Em 2015, na pior hipótese um superávit de 1,5% do PIB poderá ser contratado sem problemas, o suficiente para assegurar o grau de investimento e evitar que a Selic vá acima de 12%, estacionando a inflação logo abaixo do teto da meta. A manutenção da política implicaria também na preservação das desonerações tributárias destinadas a garantir a sobrevivência da indústria enquanto a demanda não for aquecida via investimentos.

Resguardada a macroeconomia de acomodação, necessária para a permanência dos programas sociais e taxas baixas de desemprego, o grande salto do segundo mandato teria de ser dado pelos investimentos, tanto público quanto privado. Para tanto, será preciso quebrar alguns tabus protecionistas do primeiro mandato, já que o funding do BNDES mostra-se exaurido. Trata-se de um modelo econômico de matriz keynesiana, de incitação do espírito animal dos empresários por meio de estímulos à demanda. O investimento gera demanda, que gera arrecadação, que gera superávit fiscal sem precisar cortar gastos sociais, que aumenta a capacidade do investimento público.

Trata-se de um modelo execrado pelos mercados. A sua profissão de fé é a de que só será possível restaurar o caminho do crescimento sustentável por meio de políticas macro austeras. Só a ortodoxia, cuja viga mestra é a disciplina fiscal, conseguirá restabelecer a confiança de empresários e investidores, condição básica para a volta do crescimento. O que não for macro terá de ser regido pela regra de ouro do neoliberalismo econômico: qualquer intervenção estatal na livre competição entre os agentes produtivos tornará o sistema imperfeito e viciado, sujeito a distorções que atrasam o desenvolvimento.

Se Dilma não anunciar logo uma equipe econômica pró-mercado, o cenário nesses três dias úteis efetivos até o feriado não será muito diferente do ocorrido na semana passada: Bovespa em queda, dólar e juros futuros em alta. O dólar fechou na sexta-feira cotado a R$ 2,6007, em alta de 0,23%. Em novembro, só não subiu no pregão do dia 10, acumulando no mês valorização de 4,92%. Na sexta, o avanço foi modesto porque o BC resolveu aumentar a oferta de swaps destinados a rolar os US$ 9,831 bilhões em títulos antigos que vencerão em dezembro. Assustado com o preço de R$ 2,63 atingido pelo dólar durante à manhã, ao meio-dia o BC anunciou que hoje venderá 14 mil contratos para prosseguir na rolagem. Como vinha colocando apenas 9 mil por dia, se insistir na cota de 14 mil irá revalidar praticamente todo o lote. Com este sinal, o BC definiu um novo teto informal para o dólar: R$ 2,60.

Os juros futuros fecharam em queda na BM&F. O Caged de outubro pegou de surpresa os analistas. Esperam a criação de 55 mil novos postos de trabalho no mês passado, mas veio corte de 30.283. A destruição de empregos não deveu-se apenas ao costumeiro mau resultado produzido pela indústria e a construção civil. Dado novo, o setor de serviços, antes imune à queda da atividade econômica, começou a acusar debilidade. Criou apenas 2.433 vagas líquidas em outubro. Como este setor é um dos principais vilões da inflação, a curva de juros já tratou de desembutir elevações exageradas da Selic. Mas com um detalhe perverso: como o contrato para janeiro de 2021 caiu menos do que o relativo a janeiro de 2017, a curva ficou plana, um péssimo sinal para a credibilidade da política monetária. O primeiro cedeu de 12,87% para 12,74% e o segundo de 12,80% para também 12,74%.

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