Meirelles no BC? Dólar aprova

Mesmo diante de uma onda global de enfraquecimento da moeda americana, o dólar oscilava no mercado doméstico sem rumo certo até um pouco depois das 15 horas

Por O Dia

Foi nesse momento que as mesas de operações começaram a comentar nota da colunista política Tereza Cruvinel que, em seu blog, informava a inclinação da presidente Dilma Rousseff em recorrer a uma fórmula para resolver o impasse na nomeação da nova equipe econômica ainda não cogitada pelo mercado e pela mídia capaz de satisfazê-la pessoalmente e também de agradar investidores e empresários: Alexandre Tombini na Fazenda, Henrique Meirelles no Banco Central e Nelson Barbosa no Planejamento. Foi só então que o dólar assumiu uma tendência declinante, mas ainda relutante. Fechou cotado a R$ 2,5903, em desvalorização de 0,42%, quebrando uma sequência de cinco altas.

Já foram tantas as duplas e trincas formadas desde o dia 27 de outubro que o mercado recusa-se a abandonar o seu ceticismo. O tom comum dos últimos dias é a irritação com a demora. Afora a incredulidade, a fórmula noticiada ontem foi vista como um Frankenstein cujas partes não conversariam muito amistosamente entre si. Seria um passo enorme para a reedição da antiga rixa entre desenvolvimentistas e conservadores que apimentou a gestão Lula. De janeiro de 2003 a março de 2006, sob a gestão de Antonio Palocci na Fazenda, o convívio com Meirelles foi fraterno. De abril de 2006 a dezembro de 2010, sob Mantega, as rusgas eram periódicas.

A volta ao BC de um Meirelles blindado por Lula daria ao mercado a tranquilidade de saber que, se o plano fiscal bolado por Tombini e Barbosa não fosse suficiente para corrigir as distorções, a taxa de juros subiria o que tivesse de subir para fazer o ajuste pela via mais dolorosa. Não foi por outra razão que as ações de bancos lideraram as altas de ontem na Bovespa. Os papéis PN do Bradesco subiram 4,49%, enquanto Banco do Brasil ON avançou 3,66% e Itaú PN, 2,91%. Os analistas têm dúvidas se Meirelles aceitaria retornar ao BC. Só se o cargo fosse uma ponte para a Fazenda com Lula em 2018.

Maior pregão do país em volume de negócios, o mercado futuro de juros da BM&F desacelerou mais ainda ontem. Os juros caíram porque Meirelles resgataria a credibilidade da autoridade monetária e porque as expectativas para o crescimento da economia estão cada vez mais negativas. As taxas dos contratos mais líquidos, com vencimento em janeiro de 2017 e janeiro de 2021, cederam de 12,73% para 12,64% e de 12,71% para 12,63%, respectivamente.

Não é somente a falta de definição dos nomes da próxima equipe econômica que inviabiliza a tomada mais consistente de posições e a fixação de prêmios. O escândalo envolvendo a Petrobras e as empreiteiras ameaça retardar ou paralisar obras e concessões. Se antes dele já se previa um 2015 muito difícil na área econômica, depois então as projeções de crescimento do PIB ficaram ainda mais incertas.

As estimativas do Boletim Focus para o PIB do ano que vem foram sendo rebaixadas continuamente ao longo deste ano. Ao final do primeiro trimestre, as cem instituições participantes da pesquisa previam expansão de 2% em 2015. A projeção caiu para 1,5% no final do segundo e depois para 1,01% ao cabo do terceiro trimestre. Pelo Focus divulgado na segunda-feira está agora em 0,8%. O Banco Fator revisou ontem sua expectativa de expansão do PIB no ano que vem de 0,7% para 0,5%. Com um detalhe altamente significativo, conforme explicitou o seu economista-chefe José Francisco de Lima Gonçalves: “O viés, porém, é de desaceleração, pois não incluímos eventual racionamento de energia elétrica nem efeitos explícitos de queda na produção e investimentos da Petrobras e de projetos de infraestrutura em geral”.

Antes do Juízo Final – nome dado pela Polícia Federal à sétima etapa da Operação Lava Jato --, o mercado já trabalhava com dois cenários possíveis, ambos ingratos ao crescimento de curto prazo. O primeiro incorporava a expectativa de uma guinada ortodoxa da política econômica: um ajuste recessivo seria feito para reorganizar as finanças públicas e trazer a inflação à meta de forma a reconquistar a confiança dos empresários e fazer o País voltar a crescer dois anos depois. O segundo supunha a continuidade em suas linhas essenciais da atual política econômica.

O ajuste não seria recessivo. O governo tentaria obter um superávit primário que fosse pelo menos suficiente para escapar de um rebaixamento de rating. Nessa hipótese, a credibilidade não seria recuperada e os próximos anos seriam de perpetuação do baixo crescimento, com inflação rondando o teto da meta.

Depois do Juízo Final não há mundo visível. A Petrobras e as empreiteiras estão sob suspeição e os investimentos podem sofrer atrasos. Frente à perspectiva de um abalo no PIB, a tentação de um governo de matriz desenvolvimentista é, de novo, atuar com medidas localizadas visando incentivar o consumo. E, para evitar o desemprego, novas desonerações tributárias para irrigar o caixa das empresas. Esse novo cenário pode levar o Banco Central a desistir do seu plano de utilizar a taxa de câmbio como linha auxiliar do ajuste. O BC permitiu que o dólar subisse livremente de R$ 2,2396 no dia 5 de setembro – o início da escalada pré-eleitoral – para R$ 2,60 na sexta-feira, dia em que deu um basta na alta ao anunciar a sua disposição de rolar todos os contratos de swap que irão vencer.

Ou seja, o BC fez uma maxidesvalorização cambial de 16%. Deliberadamente, o BC mudou o câmbio de patamar, assumindo as inevitáveis consequências inflacionárias. Foi por isso que teve de iniciar um novo ciclo de alta da Selic no dia 29 de outubro. O objetivo da máxi foi: aumentar a competitividade da indústria brasileira ao encarecer os importados e reduzir o custo unitário do trabalho em dólar. O primeiro objetivo preserva empregos e o segundo reduz o seu custo. Mas se o câmbio depreciado retira poder de compra dos assalariados, atua por essa senda indireta para esfriar o consumo e derrubar a inflação. Como essa estratégia poderá ampliar a debilidade do PIB, torna-se incompatível se o governo reincidir em medidas pró-consumo para suavizar os efeitos da crise política e econômica desencadeada pelo “petrolão”.

Este novo cenário pode solapar a incipiente retomada da economia brasileira, já constatada por índice de atividade do BC e por indicadores de confiança. Divulgada ontem pelo IBGE, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) relativa a setembro apontou uma leve recuperação deste setor que, embora algoz implacável do IPCA, tem a virtude de ser profícuo criador de empregos. A receita nominal dos serviços cresceu em termos interanuais 6,36% em setembro, o maior avanço deste maio, ante 4,47% em agosto. Em termos reais, a queda diminuiu de 3,65% para 2,05%. Os resultados para o último trimestre do ano ficam comprometidos pelo quadro de incertezas.

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