Por diana.dantas

Os executivos do mercado financeiro não conseguiram descansar ontem no feriado da Consciência Negra. O dia foi consumido em constantes trocas de mensagens destinadas a avaliar as apostas para a equipe econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff. Como o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, recusou o convite para assumir o Ministério da Fazenda, a alternativa mais à mão seria outro executivo da instituição, o diretor-superintendente da Bradesco Asset Management (BRAM), Joaquim Levy. A trinca de comando da economia seria fechada com a nomeação do ex-secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, para o Planejamento, e a manutenção de Alexandre Tombini no Banco Central.

O mercado acredita que como o governo precisa restabelecer o mais urgentemente possível a credibilidade perdida na condução da economia — a principal razão para o declínio do PIB — e criar uma agenda positiva que se sobreponha ao escândalo da Petrobras e à rebelião política, os nomes dos três integrantes do Conselho Monetário Nacional (CMN) devem ser anunciados ainda hoje. A avaliação é de que a fórmula que concilia um executivo de mercado na Fazenda com economistas no Planejamento e no BC afinados com a presidente poderá agradar tanto à ala lulista do PT como também aos investidores, empresários e instituições (incluídas aqui as agências internacionais de rating).

A fórmula rechaça as acusações de “estelionato eleitoral” feitas pela oposição. Depois da alta da Selic e do aumento dos combustíveis, houve uma tentativa tosca de atribuir à presidente uma enganação do eleitor ao fazer exatamente aquilo que condenava no seu adversário. Nada disso: o início do que parece ser um ciclo moderado de elevação da taxa básica apenas ajusta a política monetária ao novo patamar da taxa de câmbio e a alta de 3% dos combustíveis, irrisória e sem efeitos sobre a inflação (como mostrou o IPCA-15), já havia sido anunciada em meio ao redemoinho eleitoral. Levy é de fato um executivo de mercado, mas, antes de sê-lo, integrou a equipe de confiança de Antonio Palocci, ou seja, não é um estranho no ninho lulista. Foi secretário do Tesouro, de janeiro de 2003 a abril de 2006, enquanto Palocci esteve na Fazenda.

Além desta credencial “partidária”, Joaquim Vieira Ferreira Levy ostenta outras incontestáveis tanto na academia quanto no mercado. Doutor em economia por Chicago — o templo do monetarismo —, trabalhou no FMI e no BCE antes de entrar para o governo no ano 2000, ainda na gestão FHC. No mercado, desde 2007 lidera a terceira maior gestora de fundos do país, com volume administrado de R$ 304 bilhões.

Embora a indicação de Levy possa contentar os investidores, a reação dos pregões de dólar e juros futuros pode não ser tão eufórica quanto seria caso Trabuco aceitasse a missão. Mais do que o dólar, que caiu 0,57% na quarta-feira, para R$ 2,5757, foi o DI futuro quem mais comemorou os rumores de que Dilma tinha sacramentado o convite ao presidente do Bradesco. A curva futura de juros sofreu uma forte inclinação negativa, primeiro sinal de reconquista da credibilidade. Como o contrato para janeiro de 2017 cedeu 0,12 ponto, de 12,64% para 12,52%, mas o relativo a janeiro de 2021 despencou 0,26 ponto, de 12,63% para 12,37%, a inclinação baixou de mero 0,01 ponto para 0,15.

O raciocínio dos tesoureiros e gestores foi básico: se o novo comando da economia conseguir dar confiabilidade a um plano de equilíbrio das finanças públicas, o Copom não precisará exagerar no novo ciclo de alta da Selic. O início do processo de resgate da credibilidade pega o mercado num ambiente já mais favorável: os analistas foram surpreendidos na quarta-feira por duas boas — embora contraditórias entre si — novidades. O desemprego está caindo, a inflação também. Não bate. A inflação recua por óbvio efeito da debilidade econômica. Pela mesma razão, o desemprego deveria estar subindo. Não está porque as empresas seguram sua força de trabalho, custosamente conquistada e treinada, por apostar numa recuperação econômica mais adiante. É um bom sinal: já há uma predisposição à volta dos investimentos.

Se for isto, os empresários não devem estar lendo com atenção os relatórios que lhes são enviados pelos economistas do mercado. O pessimismo é geral e crescente em relação ao comportamento do PIB no ano que vem. Os empresários parecem pagar para ver: passadas as festas de fim de ano, vão analisar as propostas da nova equipe econômica e sopesar todo o imbróglio político para só então tomar suas decisões.

Os dois indicadores divulgados na véspera do feriado pelo IBGE não combinam nem um pouco com a cenografia apocalíptica que emoldura os quadros para 2015. A taxa de desemprego caiu de 4,9% em setembro para 4,7% em outubro. Surpresa geral, pois veio no piso das previsões. Foi o melhor outubro da série histórica. Não dá mais para simplesmente atribuir o bom desempenho ao encolhimento da PEA (população economicamente ativa). Sim, em relação a outubro do ano passado ela recuou 0,5%, mas comparativamente ao mês anterior subiu 0,6%. O IBGE trouxe outro dado completamente inesperado: frente ao mesmo mês de 2013, o rendimento real do trabalhador cresceu 3,7%. Ou seja, descontada a forte inflação do período, ele ainda teve um excelente ganho.

Esse dinheiro extra não teve ter ido para o mercado de consumo. Tanto é que o IPCA-15 desacelerou de 0,48% em outubro para 0,38% em novembro. Aberta a planilha do indicador, não há como encontrar um viés ruim. Os especialistas previam, na mediana, 0,49%, e mesmo a instituição mais otimista arriscava um 0,41%. No acumulado de 12 meses, o irmão gêmeo precoce do índice oficial de inflação desceu abaixo do teto da meta inflacionária, recuando de 6,62% para 6,42%. O índice de difusão recuou de 64,9% para 60%. E a média dos núcleos desacelerou de 0,48% para 0,32%, segundo cálculos do Banco Fator. Tudo indica que o IPCA cheio irá fechar o ano abaixo do teto de 6,5% da meta. Por enquanto, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, o mais zeloso guardião da moeda dentre os oito membros do Copom, não precisa cumprir a ameaça de endurecer ainda mais a política monetária para quebrar a resistência inflacionária. Tudo indica que já foi quebrada.

Os EUA vivem exatamente o mesmo problema: o desemprego cai, a inflação também. A ata da reunião do Federal Reserve (Fed) de 29 de outubro — o mesmo dia em que o Copom subiu a Selic para 11,25% — expôs nitidamente o seu dilema: a melhora do mercado de trabalho exige a mobilização da política monetária para evitar consequências inflacionárias, mas a tendência para a inflação é de queda. A inflação desacelera porque o dólar se fortalece globalmente por causa da anorexia econômica nos quatro cantos do mundo. A angústia do Fed é velhíssima: quem veio antes, o ovo ou a galinha? Janet Yellen sabe que o subemprego é um território vasto e sombrio nos EUA, não adianta o “payroll” estar bombando: enquanto o core do PCE não embicar, o juro básico não sobe. O recado foi dado e compreendido: ontem, a taxa da T-Note de 10 anos tombou de 2,37% para 2,31%.


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