Conversão inevitável

A súbita e radical conversão de Dilma Rousseff ao mercado já inspirava desconfianças antes do adiamento do anúncio formal da equipe econômica. A presidente vem manifestando atípica urgência em agradar a todo mundo, o oposto do seu velho estilo autossuficiente

Por O Dia

Será que Dilma vai mudar de ideia?" Os executivos do mercado financeiro foram para casa na sexta-feira com essa dúvida na cabeça e voltam hoje às suas mesas sem que a inquietação tenha sido resolvida satisfatoriamente no fim de semana. O adiamento do anúncio formal da equipe econômica passou a impressão de que a presidente foi assaltada por um arrependimento de última hora. Foram aventadas quatro explicações: a presidente quer aliviar o novo time do fardo fiscal de 2014 ainda em discussão no Congresso; a intenção é nomear primeiro e segundo escalões completos, num megashow midiático; alas mais à esquerda do PT estão revoltadas com a escalação de um ortodoxo mercadista para comandar a economia e exigem um recuo; e Nelson Barbosa não estaria aceitando o Planejamento, inconformado com a perda da Fazenda para Joaquim Levy.

Enquanto a dupla não for sacramentada oficialmente, os investidores tendem a sair do salão de festas em que se transformaram na sexta-feira os pregões da Bovespa, do dólar e do juro futuro. Ficarão do lado de fora, só observando. A súbita e radical conversão de Dilma Rousseff ao mercado já inspirava desconfianças antes do adiamento. A presidente vem manifestando atípica urgência em agradar a todo mundo, o oposto do seu velho estilo autossuficiente: está pondo uma das principais representantes do agronegócio no Ministério da Agricultura; para o da Indústria vai designar uma liderança industrial; e, no trono das Finanças, queria assentar um banqueiro de primeiríssima linha mas, como não houve acordo, inclinou-se a um ortodoxo cujo pensamento foi afiado na meca do monetarismo, a Universidade de Chicago. Cada uma das várias faces do capital cuidará dos seus interesses específicos. Falta agora colocar um sindicalista no Ministério do Trabalho.

Tem jeitão de tentativa, algo desesperada, de arregimentar apoio em todas as frentes. Os analistas não sabem se houve de fato uma repentina iluminação da presidente, ou se Dilma apenas monta trincheiras provisórias para se defender da ofensiva sem trégua dos que defendem o impeachment. E, quando a nuvem sombria destinada a apeá-la o quanto antes do poder passar, a velha Dilma voltará?

Com o aval de uma onda global favorável aos ativos de risco de emergentes, os mercados celebraram na sexta-feira os nomes dados como certos para integrar a nova equipe econômica. A presidente queria conduzir um homem de mercado ao posto principal de ministro da Fazenda e, no Planejamento e no Banco Central, acomodar dois dilmistas. O arranjo agrada investidores e instituições. Cartão de visita ortodoxo junto à comunidade financeira internacional e às classificadoras de risco, Joaquim Levy não é apenas um liberal acima de qualquer suspeita. É um fiscalista linha-dura, especialista em finanças públicas. Nelson Barbosa é um perito na elaboração e execução de intrincadas políticas públicas, amarradas e coesas nos mínimos detalhes. Ambos têm a visão estratégia de longo prazo e a competência técnica de curto prazo para reorganizar a economia. E Alexandre Tombini, agora com o auxílio da política fiscal, conseguirá cumprir o seu mandato de trazer a inflação à meta de 4,5%.

O dólar caiu 2,05%, para R$ 2,5216. Os juros desabaram no mercado futuro da BM&F, o primeiro sinal de que a nova equipe, se confirmada, começará o governo com alta credibilidade. A curva futura acentuou expressivamente sua inclinação negativa, outra evidência de que a fórmula encontrada por Dilma, se mantida, poderá dar certo. Quanto mais distante o vencimento do contrato, maior foi a queda. A taxa para janeiro de 2016 recuou 0,12 ponto, de 12,43% para 12,31%. O contrato com vencimento em janeiro de 2017 cedeu 0,29 ponto, de 12,52% para 12,23%, enquanto a taxa para o primeiro mês de 2021 despencou 0,43%, de 12,37% para 11,94%.

Como o caminho ortodoxo é o único disponível no momento, a discussão sobre o grau de sinceridade da conversão de Dilma é inútil. Embora a economia brasileira não seja das mais abertas do mundo, está solidamente inserida na globalização financeira. O mercado financeiro do país é um dos mais líquidos e sofisticados dentre as maiores praças. As barreiras ao livre ingresso de capitais financeiros, criadas em 2011 para depreciar o real — uma das medidas mais polêmicas da estratégia malfadada conhecida como Nova Matriz Econômica — foram todas eliminadas. Não é possível a qualquer partido no poder — nem a versão particular do PT de Dilma, que defende a inclusão social, a manutenção da renda do trabalhador e o pleno emprego — governar sem dar atenção ao mercado. Isso não significa rendição. Capitulação irrestrita significa cortar despesas na carne, fazer um superávit primário de 3% do PIB, controlar o câmbio e ao mesmo tempo oferecer um juro real de 6% aos investidores de fora. É possível manejar com competência as variáveis do tripé econômico, serenando a propensão nata dos mercados à chantagem e, simultaneamente, preservar a soberania.

Das três variáveis, a peça-chave é a política fiscal. Contas públicas equilibradas são a terraplanagem básica capaz de sustentar incursões mais audaciosas nas políticas monetária e cambial. Se o plano fiscal for sólido a ponto de desfrutar de credibilidade perdurável, será possível a correção gradual das outras duas variáveis: a redução do custo de rolagem da dívida pública — de longe o maior buraco do resultado público nominal — e a persistência de uma taxa de câmbio real permanentemente depreciada. Os três homens que irão compor o Conselho Monetário Nacional (CMN) a partir de 1° de janeiro têm competência para fazer isso. Se a presidente deixar. Tudo leva a crer que deixará.

Nelson Barbosa é um expert nas micromedidas destinadas a conter o vazamento de recursos públicos pelos programas de redistribuição de renda mal geridos. Pode mexer no seguro-desemprego, na pensão por morte e no abono salarial, mas o cerne do esforço fiscal depende de uma decisão política. A presidente precisa atenuar, pelo menos nos próximos dois anos, a crença keynesiana de que é o investimento público quem puxará a fila dos investimentos privados. Os dois últimos anos mostraram que, sem liberdade de fixação de preços e garantia de regras perenes, a salvo de intervenções setoriais, os empresários preferem mandar o seu dinheiro para fora do que investir no país. Precisa também atenuar os mecanismos de proteção à indústria por meio de desonerações. Os empresários preferem preços e taxa de câmbio competitivos. Dos componentes da demanda agregada, o item que pode fazer a diferença no segundo mandato são os investimentos em infraestrutura. E é um item que precisa ser liderado pelo investimento privado.

Seria interessante que um esboço dos planos de Levy e Barbosa já fosse divulgado esta semana. Até para se sobrepor às más notícias que serão dadas na quinta e na sexta-feira. Na quinta, o Tesouro divulga o resultado primário do governo central em outubro. Os analistas preveem déficit ao redor de R$ 25 bilhões. E, na sexta, o IBGE divulga o crescimento do PIB no terceiro trimestre. A expansão deve ser modesta, levemente acima do zero.

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