Em alta, o dólar contra-ataca

Alta do dólar é sinal de que investidores não querem somente nome de ortodoxo consagrado, querem conhecer as medidas efetivas que serão tomadas para corrigir os problemas

Por O Dia

A alta de ontem do dólar não se destinou apenas a enviar mensagem à presidente Dilma Rousseff de que não pode mais voltar atrás na indicação de Joaquim Levy ao Ministério da Fazenda. Oficialmente, ela ainda não foi feita, mas os sucessivos vazamentos não foram desmentidos. Antes do fato consumado, um recuo é sempre possível. O mercado não avisou apenas que as consequências de uma desistência podem ser desastrosas. Mais que isso, o movimento ascendente carregou o torpedo de que os investidores não querem somente nome de ortodoxo consagrado, querem conhecer as medidas efetivas que serão tomadas para corrigir os problemas. Só assim saberão se gozará ou não de plenos poderes.

A moeda americana fechou em baixa de 1,08%, a R$ 2,5488, depois de ter caído 2,05% na sexta-feira no aguardo da cerimônia oficial em que o trio da equipe econômica seria anunciado oficialmente. O evento foi cancelado, sem explicação. Praticamente estáveis, os juros futuros escolheram ficar em cima do muro. A taxa para janeiro de 2016 recuou de 12,31% para 12,30%. E o contrato para janeiro de 2017 desceu de 12,23% para 12,21%.

O comportamento exibido ontem pelo mercado de câmbio pode ser entendido como um contra-ataque às pressões de alas petistas a nomeações consideradas de “direita”, como as do próprio Levy e da senadora Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Um mês depois do segundo turno das eleições, o pesado climão ideológico, longe de se dissipar, transferiu-se agora para a composição da equipe econ<CW-11>ômica do segundo mandato. O economista Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp e ex-vice-presidente de Finanças da Caixa, diz que é equivocado e inoportuno, nesse momento de “tensão pré-governamental”, estigmatizar instrumentos de política econômica. Seus usos não são ideológicos, tipo de “direita” ou de “esquerda”. “Sempre elevar gastos públicos ou taxa de câmbio não é ser desenvolvimentista, assim como a receita única de cortar gastos públicos e elevar taxa de juros não é neoliberal, mas simplesmente autista”, escreve o economista no seu blog. Na sua visão, não se pode analisar a política econômica de curto prazo com “maniqueísmo ideológico”. Se a conjuntura se altera, o uso desses instrumentos tem de se alterar. “A arte da economia é discricionária e não baseada em regras únicas universais”, diz.

Enquanto a nomeação da equipe econômica não for resolvida, os mercados tendem a continuar pressionando. Denso material para isso não falta. A última semana do mês é a que concentra a divulgação de indicadores fundamentais da economia relativos ao mês anterior. Ontem foram divulgadas a nota do setor externo e a arrecadação federal. O resumo do setor externo em outubro divulgado pelo BC não foi inteiramente ruim. O déficit em transações correntes vem piorando, como já se esperava. Como proporção do PIB, avançou de 3,46% em agosto para 3,68% em setembro e 3,73% em outubro. Mas o rombo está sendo financiado com algum conforto pelo ingresso de capitais estrangeiros.

O investimento direto atingiu US$ 5 bilhões no mês passado, acima das expectativas, mas surpreendente mesmo foi a entrada de dólares para aplicações em portfólio. Em pleno turbulento processo eleitoral, o saldo líquido de ingressos para a renda fixa foi muito forte, de US$ 3,5 bilhões, e, para a compra de ações, de US$ 1,2 bilhão. O problema do setor externo está concentrado na balança comercial. Foi por isso que o BC deixou que o câmbio mudasse de patamar, saltando de R$ 2,25 no começo de setembro para o teto de R$ 2,60 no dia 14. Ou seja, se o BC não ceder à tentação de usar o câmbio como linha auxiliar do combate à inflação, a balança comercial tende a recobrar-se.

A nomeação de uma equipe econômica capaz de inspirar confiança aos investidores nacionais e externos está sendo feita em meio a uma reviravolta nas principais economias do mundo. Os grandes players globais se convenceram de que se inicia uma nova etapa de expansão da liquidez. Não há milagre: enquanto as rédeas fiscais persistirem retesadas demais, os bancos centrais precisam usar as políticas monetárias para impedir que as economias desabem. É uma estratégia de convivência com a crise, que apenas evita o pior, sem promover a cura.

Nos EUA, a ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed), divulgada na quarta-feira, propagou uma disposição bem mais “dovish” da autoridade. O mercado perdeu o medo do aperto monetário vislumbrado para 2015. Na Europa, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, reiterou na sexta-feira sua disposição de utilizar todas as ferramentas monetárias a sua disposição para forjar um ambiente inflacionário denunciador da recuperação econômica. E a China desistiu de suas medidas paliativas pró-retomada e decidiu reduzir as taxas de juros. O BC chinês pegou os investidores de surpresa ao baixar em 0,25 ponto a taxa de depósito de um ano, agora em 2,75%, e em 0,40 ponto a de empréstimos (5,6%). Foi a primeira distensão monetária desde 2012.

Essa nova fase global irá facilitar o financiamento do balanço de pagamentos brasileiro. A expectativa é de aumento das exportações e a ampliação dos ingressos de capitais no País. Será possível ao BC gerenciar a redução do estoque de swaps cambiais sem permitir a apreciação da taxa de câmbio real. E permitirá o abandono das políticas contracíclicas responsáveis pela zeragem do superávit primário. A conjugação de uma gestão pública mais confiável e um mercado mais líquido pode ser capaz de reverter o fluxo cambial negativo de novembro. Até o dia 20, a balança cambial exibe um déficit de US$ 2,124 bilhões, puxado por saída financeira de US$ 1,603 bilhão.


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