Dólar já foca na posse de Levy

Um programa confiável estabiliza a dívida pública em relação ao PIB, afasta o rebaixamento do rating e retira os estímulos inflacionários pelo lado da demanda sem instalar uma recessão

Por O Dia

Ao cair ontem apenas 0,47%, cotado a R$ 2,5367, o dólar já “realizou no fato” a nomeação de Joaquim Levy para o posto de ministro da Fazenda. A presidente Dilma Rousseff retirou da frente os dois obstáculos que a impediram de oficializar Levy na sexta-feira: foi aprovado por comissão do Congresso o projeto de lei que limpa o passado fiscal e uma impressionante legião de próceres petistas endossou publicamente a indicação do executivo, neutralizando as pressões contrárias exercidas por alas mais à esquerda do partido. Levy será anunciado amanhã e já toma posse na sexta-feira ou na segunda. Com exceção de Nelson Barbosa, confirmado no Planejamento, o primeiro escalão da equipe econômica tem viés conservador. A presidente também anunciará amanhã Armando Monteiro no Desenvolvimento e Kátia Abreu na Agricultura.

O dólar poderia ter caído muito mais do que esse modesto 0,47%. Mas a moeda só recuará mais para perto de R$ 2,50 quando o mercado puder avaliar o tamanho do ajuste que a dupla Levy e Barbosa se proporá a fazer. Só a partir do anúncio das medidas concretas que os analistas poderão conhecer o grau de independência que os dois ministros desfrutarão. Mesmo que o esforço fiscal passe a impressão de um gradualismo cauteloso, destinado a preservar empregos e programas sociais, se for crível e executável sem malabarismos contábeis já será suficiente para atrair o investimento estrangeiro de portfólio. O capital especulativo tem condições de derrubar o dólar, pois uma tendência de apreciação cambial aumenta a rentabilidade primariamente fornecida pela Selic.

A hora de entrar é agora. Se o plano fiscal estabelecer metas crescentes de superávit e for capaz de granjear credibilidade, quanto mais o investidor externo se atrasar mais baixo será o dólar de ingresso, diminuindo o potencial de ganho com a apreciação cambial subsequente. E quanto mais demorar, menor será a taxa de juros de longo prazo. Se ao gradualismo fiscal corresponder uma política monetária igualmente comedida, o ciclo de alta da Selic iniciado no dia 29 de outubro, quando a Selic subiu inesperadamente de 11% para 11,25%, e que deve prosseguir na próxima quarta-feira, data da última reunião do ano do Copom, não deverá ir muito longe. Quanto mais confiável o ajuste fiscal, menor será a alta do juro básico. Como todo fiscalista puro-sangue, Levy não gosta de juro exageradamente elevado. Quando estava no Tesouro nos primeiros anos do governo Lula, reclamava da mão pesada de Henrique Meirelles no Banco Central.

Se revelado em detalhes antes do Copom do dia 3, o plano fiscal será a variável nova que definirá os rumos da política monetária. Antes de conhecê-lo, serão açodadas as estimativas de que o BC tende a acelerar o ritmo de alta da Selic para 0,50 ponto e a perseguir uma taxa final entre 12,5% e 13%. Prudentemente, o mercado futuro de juros da BM&F não trabalha com a expectativa de um arrocho monetário. A taxa para o final do ano que vem ficou estável ontem em 12,30%, enquanto recuavam os contratos de mais longo prazo, com vencimento em janeiro de 2017 (de 12,21% para 12,17%) e janeiro de 2021 (de 11,84% para 11,79%).

Se o novo programa fiscal a ser anunciado a partir de amanhã, imediatamente após a posse de Levy, parecer demasiadamente severo o mercado poderá desconfiar. A primeira suspeita será de que o cumprimento das metas será tecnicamente difícil, politicamente improvável e socialmente inegociável. Se forem perseguidas a ferro e fogo, o país poderá entrar em grave recessão, sabotando o objetivo maior de retirar os empresários das casamatas em que refugiam desde meados de 2013 e trazê-los para a luz dos investimentos. Um programa confiável será aquele que estabiliza a dívida pública em relação ao PIB, afasta o temor do rebaixamento do rating, retira os estímulos inflacionários pelo lado da demanda mas que, ao mesmo tempo, não instale uma recessão.

Acreditável ao ponto de estimular o aumento da presença estrangeira, o programa permitirá um desmonte suave da estratégia de intervenção cambial do BC. O momento global é propício à ampliação do apetite por ativos de risco. As notícias vindas ontem dos EUA agiram para retardar o início do movimento de realocação de portfólios que será deslanchado quando o Federal Reserve (Fed) estiver prestes a acionar a alta do juro básico. O balanço dos relevantes indicadores divulgados ontem mostrou que ainda não é a hora para isso. Os EUA estão perpetrando o milagre macroeconômico de crescer fortemente sem gerar inflação. Se a economia se encaminha para o pleno emprego com inflação ainda longe da meta de 2%, o Fed nada precisa fazer a respeito. Basta ficar sentado e colher os louros da vitória de sua política heterodoxa de relaxamento quantitativo. Encerrada no mês passado, ainda continua produzindo efeitos positivos.

O PIB americano cresceu 3,9% pela segunda estimativa referente ao terceiro trimestre. Os analistas esperavam que a primeira estimativa, de 3,5%, fosse revista para baixo, para 3,3%. Todos os grupos do PIB estão em alta, exceto os estoques. Apesar disso, a inflação cai. Principal indicador inflacionário utilizado pelo Fed para calibrar a política monetária, o PCE subiu 1,3% no terceiro trimestre, desacelerando em relação aos 2,3% registrados no trimestre anterior.
Os analistas já estão achando que a economia precisa crescer uns 5% ao ano para gerar inflação. Isso não seria factível considerando outros dois indicadores de peso divulgados ontem. O índice de confiança do consumidor, aferido pelo Conference Board, atingiu 88,7 em novembro, ante dado de outubro revisado de 94,5 para 94,1. O índice de avaliação da situação atual caiu de 94,4 para 91,3 e o de expectativas, de 93,8 para 87,0. E a sondagem do setor manufatureiro efetuada pela regional de Richmond do Fed recuou de 20 em outubro para 4 em novembro. Os especialistas previam uma baixa, mas somente para 16. O resultado foi que a taxa do título de 10 anos do Tesouro americano caiu de 2,31% para 2,30%.

Últimas de _legado_Notícia