Tensão global puxa juros

Apesar das manifestações formais de apoio dadas por lideranças do setor financeiro à nova equipe econômica do governo, os economistas das instituições estão reticentes e cautelosos

Por O Dia

A intenção da nova equipe econômica do governo de desmontar as medidas anticíclicas criadas para amortecer o impacto da apatia econômica mundial sobre os empregos brasileiros, cujo efeito mais criticado foi a deterioração das finanças públicas, foi posta na berlinda ontem por uma série de indicadores ruins sobre os EUA, a Europa e a China. Se as regalias fiscais a setores produtivos forem diminuídas, se os orçamentos dos bancos públicos passarem por enxugamento, se impostos forem aumentados, se as tarifas públicas forem corrigidas e se o gasto corrente for limado, o impacto da anorexia externa sobre o PIB exigirá sacrifícios adicionais. O pessimismo foi espelhado integralmente pela queda de 4,47% sofrida pela Bovespa e pelas altas dos juros futuros. O dólar só não subiu frente ao real porque o Banco Central anunciou a intenção de rolar este mês quase a totalidade dos swaps cambiais que irão vencer em 2 de janeiro.

A segunda-feira começou sombria já do outro lado do mundo. Os PMIs da indústria chinesa, tanto o oficial quanto o privado, decepcionaram. O oficial, aferido pelo NBS, departamento de estatística do governo, caiu de 50,8 em outubro para 50,3 em novembro. E o privado, o PMI da Markit/HSBC, foi de 50 ponto no mês passado, ante 50,4 em outubro. A onda negativa persistiu depois na Europa. O PMI do conjunto dos países da zona do euro recuou de 50,6 para 50,1 pontos, uma queda mais acentuada que os 50,4 pontos previstos pelos especialistas. Na maior economia da região, a Alemanha, o indicador cedeu de 51,4 para 49,5 pontos, o patamar mais baixo dos últimos 17 meses. O mercado esperava queda para 50 pontos. Um pouco mais tarde saiu o PMI industrial dos EUA. Depois de marcar 55,9 pontos em outubro, ele recuou para 54,8 em novembro, a menor taxa de expansão desde janeiro.

O quadro de baixo crescimento global consolida o viés de queda das commodities e do petróleo. Trata-se de um sinal pesadamente negativo para a balança comercial brasileira, cujo déficit do mês passado, de US$ 2,35 bilhões, foi o pior da série histórica para os meses de novembro, e, por extensão, para o balanço de pagamentos. A sua correção exige mais desvalorizações cambiais, o que é péssimo para o combate à inflação. O dólar só não se comportou em harmonia com esse fundamento básico por causa da atuação do BC. A autoridade iniciou ontem a renovação do lote de US$ 9,827 bilhões em swaps cambiais antigos que vencerão em janeiro. Para tanto, venderá 10 mil contratos em todos os dias úteis de dezembro, rolando 96,7% do lote.

Quem já está com suas posições em dólar cobertas pelo hedge oficial não precisa se preocupar. E, pelo menos até o fim do mês, as novas posições serão atendidas pela ração diária de swaps, no valor de US$ 200 milhões. Como o BC desmentiu que esteja pensando em acabar com a oferta diária, os investidores tranquilizaram-se e o dólar fechou em queda de 0,51%, a R$ 2,5586, sem se importar com o dia caracterizado por aversão global a risco. Mas o mercado futuro de juros da BM&F deu ouvidos às vozes inquietas vindas de fora. As taxas subiram em bloco, consolidando a aposta de uma alta de 0,50 ponto na taxa Selic na reunião de amanhã do Copom. Os dois contratos mais líquidos, para janeiro de 2017 e 2021, avançaram de 12,19% para 12,35% e de 11,63% para 11,82%, respectivamente.

Apesar das manifestações formais de apoio dadas por lideranças do setor financeiro à nova equipe econômica do governo, os economistas das instituições estão reticentes e cautelosos. Anunciados na quinta-feira os novos ministros da Fazenda e do Planejamento e já reveladas as metas de superávit primário que perseguirão nos próximos três anos, haveria tempo hábil para os analistas alterarem pelo menos o viés das projeções encaminhadas na sexta-feira para o Banco Central para o fechamento do Boletim Focus. Mas as expectativas que sofreram modificações foram para pior, levemente, mas para pior. Nem um tímido voto de confiança foi dado a Joaquim Levy e Nelson Barbosa.

Alguns exemplos: a projeção de acumulado do IPCA no ano que vem subiu de 6,45% para 6,49%; a estimativa de taxa de câmbio para o encerramento de 2015 avançou de R$ 2,65 para R$ 2,67; o prognóstico para o crescimento do PIB recuou de 0,88% para 0,77%; e a expectativa para o superávit primário das contas públicas foi mantida no 1% da semana anterior, mesmo depois de Levy e Barbosa terem colocado o peso de suas sólidas reputações no cumprimento da meta de 1,2%, tida por todos como perfeitamente factível.

O Focus continua trafegando na mão oposta da seguida pela nova Dilma. Enquanto a presidente se esforça para nomear uma equipe palatável aos mercados, amplamente capacitada a corrigir as distorções apontadas por 11 de cada 10 analistas, enquanto volta pessoalmente a conversar com lideranças políticas em busca de acordos que assegurem a governabilidade, enquanto se dispõe a dialogar diretamente com investidores, as cem instituições que alimentam o Focus (uma das peças essenciais do arcabouço legal do sistema de metas de inflação) de informações torcem o nariz. É claro que os analistas podem alegar que só poderão alterar as suas projeções depois de conhecerem em detalhes as medidas específicas — condição necessária para avaliarem a sua eficácia —, mas ampliar o viés pessimista anterior parece caturrice infantil.

Para quebrar a birra dos mercados, será importante os novos ministros da área econômica assumirem logo as suas pastas. Se o governo conseguir aprovar hoje no Congresso o projeto de lei que altera a LDO e autoriza o desconto dos investimentos do PAC e das desonerações tributárias do cálculo do superávit primário, marcando o fim da política fiscal expansionista, Dilma deveria empossar Levy e Barbosa com todas as pompas e medidas já esta semana. A virada do jogo das expectativas precisa acontecer rapidamente.


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