Tudo pela credibilidade

Se o Copom resolver contrariar as expectativas e elevar a taxa em apenas 0,25 ponto será um indício de que a nova Fazenda prepara um plano para aumentar a oferta agregada, cujo anúncio coincidiria com a posse de Levy

Por O Dia

Se não fosse pela necessidade premente do governo de restaurar a confiança dos agentes econômicos nos rumos da economia, o Copom do Banco Central deveria hoje reduzir a Selic, e não aumentá-la, como vai fazer, dada a estagnação da indústria, que já afeta negativamente a balança comercial, a ausência de inflação de demanda e a prostração comatosa da economia mundial. Como prevalece no governo, na oposição e no mercado o diagnóstico de que a economia patina na estagflação porque foi perdida a fé nas ações governamentais, a primeira providência é resgatar a credibilidade. Como? Por meio de uma política econômica conservadora. Acontece que o mercado não tem paciência para esperar as medidas concretas. Age como se para o ministério da Fazenda tivesse sido nomeado um desenvolvimentista pós-keynesiano louco para estimular a demanda via gasto público.

Dólar e juros futuros subiram ontem como se o futuro permanecesse ensombreado pela persistência de políticas heterodoxas tidas como irresponsáveis. Os executivos alegam que há uma saída importante de capital estrangeiro assustado com os possíveis efeitos sobre o Brasil do prolongamento sem cura do estado vegetativo da economia global. Trata-se de uma meia verdade. Há de fato o receio de que o governo não tenha vontade política suficiente para fazer todas as maldades receitadas pelos mercados. Mas sempre às vésperas do Copom os juros futuros sobem como forma de tirar o ar dos oito votantes e minar qualquer propensão de última hora mais “dovish”.

As taxas avançaram no DI futuro da BM&F porque investidores de fora estariam saindo de posições prefixadas. A alta do juro, ao elevar o prêmio pelo carregamento da ponta que assume o risco inflacionário, visaria convencê-los a ficar. O avanço das taxas foi maciço. Para a virada do ano, o DI subiu de 11,52% para 11,57%. O contrato para janeiro de 2016 passou de 12,53% para 12,58%. E o juro para o primeiro mês de 2017 fechou a 12,44%, ante 12,35% na véspera. Mas as saídas de capital especulativo são normais em fim de ano.

Elas ocorrerem para a apropriação contábil dos ganhos. O lucro estatístico precisa ser transformado em dólares físicos para que os hedge funds cubram os saques de dezembro. Não se trata de uma realocação de portfólios porque se temeria um reaperto monetário global. Pelo contrário, se há uma coisa que dirigentes americanos, europeus e asiáticos não farão de jeito nenhum será elevar os juros. Não há inflação nessas regiões. Na Europa, há uma perigosa e assustadora deflação. Divulgado ontem, o índice de preços ao produtor da zona do euro acusou queda de 0,4% em novembro. Na comparação anual, o indicador atola-se numa deflação de 1,3%. E, nos EUA, enquanto o dólar estiver como agora se valorizando globalmente o problema do Federal Reserve (Fed) terá também viés deflacionista. A saída de capital externo do Brasil é sazonal. E também atinge o setor produtivo. Este é o período de mais acentuada remessa de lucros e dividendos. Para atender a essa demanda específica, o BC fez ontem um leilão de linha de crédito em dólar com compromisso de recompra no valor de US$ 1 bilhão. Mesmo assim, a moeda fechou em alta de 0,67%, a R$ 2,5757.

Os rumores de que o governo prepara uma série de aumentos de impostos — Cide, alíquotas maiores sobre supérfluos importados, volta da CPMF, criação de novas faixas de I.R. sobre rendimentos mais altos, taxação sobre dividendos — são interpretados como indício de que ele não está disposto a fazer um genuíno esforço fiscal de ajustamento das contas públicas. E os executivos informalmente já colocam em dúvida a disposição de cumprir a meta de 1,2%. Joaquim Levy e Nelson Barbosa nem assumiram ainda e o mercado já acha que não vão entregar a meta. Tudo é usado para promover as altas do dólar e dos juros. Aqui e ali, invoca-se a recusa do governo em nomear imediatamente os novos responsáveis pelo Tesouro e pelo BNDES.

O mercado reivindica tudo e mais um pouco: quer que Dilma Rousseff assuma publicamente, em pronunciamento ou coletiva, a sua conversão à política liberal-conservadora. Quer a assinatura de um termo explícito de rendição, do qual faça parte a descrição das reparações dos prejuízos pretéritos e a garantia de não reincidência no futuro. A argumentação é de que a presidente não falou nada ainda sobre o que será de fato a sua política econômica daqui para a frente. Os executivos não sabem se tudo o que foi comentado a respeito do que poderão fazer Levy e Barbosa não passa de delírios de mentes viciadas em ortodoxia.

Como essa capitulação estrepitosa não é possível, resta ao Copom aumentar a dose do remédio que apenas seda o vírus enquanto debilita o paciente. A curva futura de juros embute a certeza de que a Selic vai subir hoje à noite para 11,75%, ou seja, o passo de 0,25 ponto com o qual o BC iniciou no final de outubro este novo ciclo de aperto será dobrado. O mercado acredita que os três diretores do BC que, na reunião anterior, não concordaram com o aumento de 0,25 ponto, desta vez também vão escolher o 0,50. Alguns economistas devotados ao fundamento segundo o qual se a economia exibe zero de crescimento subir o juro é sinal de insanidade ou burrice, ainda esperam apenas uma alta “simbólica” de 0,25 ponto, apenas para agir no campo das expectativas, para mostrar que o BC está “especialmente vigilante”. Não tem sentido mexer no juro básico depois da performance da indústria em outubro. O IBGE divulgou ontem produção estável comparativamente a setembro, quando o mercado esperava 0,4% de alta. A estagnação pode significar que o PIB do quarto trimestre também não crescerá nada.

Se o Copom resolver contrariar as expectativas e elevar a taxa em apenas 0,25 ponto será um indício de que a nova Fazenda prepara um plano para aumentar a oferta agregada, cujo anúncio coincidiria com a posse de Levy. Trata-se de providência bem ao feitio do pensamento ortodoxo defendido pelo mercado. Em tal hipótese, o BC seria dispensado da tarefa de comprimir a demanda.

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