Por monica.lima
Publicado 08/12/2014 10:57

A posse de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda pode coincidir com a divulgação, na quinta-feira, da ata da reunião da semana passada do Copom do Banco Central, a que surpreendeu os analistas pelo tom moderado. A expectativa é de que não será uma cerimônia burocrática: a presidente deve endossar pessoalmente as medidas que o ministro apresentará para o ajustamento da economia. Tais medidas serão os “outros fatores” mencionados na nota pós-Copom. No comunicado, o comitê avalia que, por causa dos “efeitos cumulativos e defasados da política monetária, entre outros fatores”, o esforço adicional “tende a ser implementado com parcimônia”. A Selic, hoje em 11,75%, tem sua arremetida subsequente limitada não só pelo hiperbólico ciclo de aperto de 4,5 pontos já realizado mas também por “outros fatores”, isto é, por uma política fiscal crível.

A expectativa dos economistas é de que a ata do Copom vai “conversar” harmoniosamente com as medidas que serão anunciadas por Levy e pelo novo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Será esse diálogo que irá permitir uma calibragem mais refinada da curva futura de juros. Após ajustes à conduta futura parcimoniosa do Copom, o pregão de juros futuros da BM&F convergiu para um teto de 12,5% da Selic. Mas o consenso ainda é precário. Há instituições de renome apostando que o ciclo de alta será encerrado já em janeiro, mediante redução do ritmo de alta para 0,25 ponto. O BC se dará por satisfeito com a taxa em 12% se a política fiscal assumir uma feição contracionista. O ponto da ata do Copom normalmente destinado a uma avaliação do lado fiscal é um dos que mais concentram a ansiedade dos analistas. Esperam que o documento substitua o comentário sobre a “neutralidade estrutural” das contas públicas por uma visão indicativa do aperto prognosticado.

Os defensores de uma interrupção do movimento ascendente da taxa básica quando chegar, no mês que vem, a 12% argumentam que, com isso, o Copom deixaria claro que o atual ciclo foi independente do anterior, pois teve todas as características de um ciclo: começou com uma alta de 0,25 ponto, foi intensificado por outra de 0,50 ponto e em seguida encerrado com o mesmo 0,25 inicial. Não tem sentido subir a Selic em 0,25 ponto em 21 de janeiro e repetir a mesma dose em 4 de março. Melhor seria, para tornar a política monetária mais contundente e eficaz, aplicar logo um aumento único de 0,50 ponto, e parar por aí. A ala de tesoureiros que ainda vê a chance de a Selic avançar até 12,5%, traçam o seguinte plano de voo: mais uma alta de 0,50 em janeiro e 0,25 em março. Para ela, trata-se de um subciclo dentro de um ciclo maior de aperto monetário. Não há a percepção de que o argumento é uma contradição em termos: esta corrente supõe que o BC agirá com uma “parcimônia pródiga”. A ata tentará corrigir essa visão distorcida.

Outra missão inglória será desconstruir a “expectativa” de que o IPCA pode acumular, por causa da correção das tarifas públicas e da alta do dólar, algo próximo de 7% no ano que vem. Trata-se de um chute fenomenal. O statement pós-Copom já iniciou o trabalho de desmontagem desse catastrofismo nada desinteressado. A ata prosseguirá a lição. A única face que pode ser considerada de demanda nos itens componentes do IPCA é a de serviços. E estes são inflados pelo gasto público. Para Levy e Barbosa entregarem a meta de 1,2% de superávit primário, o enxugamento frente ao que é praticado hoje será draconiano. Não serão economizados “apenas” R$ 66,3 bilhões. À conta se agregará o passivo de pelo menos R$ 50 bilhões oriundo da fanfarra criativa de 2013 e 2014. A inflação, já em estágio de esmorecimento, ficará sem oxigênio.

Divulgado na sexta-feira, o IPCA de novembro já deu sinais de atenuação, não só porque a alta, de 0,51%, veio aquém das projeções de 0,54%. Segundo cálculos do Banco Fator, o índice de difusão cedeu de 64,88% para 61,39%; a média dos núcleos baixou de 6,49% para 6,33%; os preços livres, os mais afetados pela política monetária, rodam estáveis entre o 0,43% de outubro e o 0,44% de novembro; e os preços de serviços caíram em termos anuais de 8,49% para 8,29%.

Dificilmente, o acumulado de 2014 do IPCA irá furar o teto de 6,5% da banda inflacionária. O IPCA pode apresentar uma variação positiva de até 0,86% em dezembro que ainda assim o acumulado ficará abaixo daquele limite máximo. A mediana das cem instituições participantes do Focus é de 0,74%. Com isso, a presidente Dilma, no balanço que irá fazer do seu primeiro mandato no discurso de posse do segundo, pode garantir que a inflação ficou no “intervalo das metas”, expressão que vem usando agora em substituição ao “está na meta” empregado no período eleitoral.

Por isso, o objetivo da política monetária em 2015 não será um desambicioso “evitar que a inflação estoure a meta”. Na pior hipótese, o IPCA do ano que vem terá de ser inferior ao de 2014. E como o alvo confesso é encaminhar firmemente o indicador para o centro de 4,5% no horizonte da política monetária (fim de 2016), em 2015 já deveria ficar algo abaixo de 6%. Um superávit primário de 1,2% do PIB e uma Selic entre 12% e 12,5% podem ser suficientes para isso, sem imposição de sacrifícios demasiados ao PIB, desde que o dólar não vá muito além de R$ 2,60. É cedo para apostas definitivas sobre isso. Há um manto espesso de veludo negro sobre a taxa de câmbio de 2015. Só será retirado pelos procedimentos monetários que o Federal Reserve (Fed) julgar necessários para impossibilitar o rompimento de sua meta de 2%, um alvo único desprovido de piso e de teto.

Os indicadores americanos estão desalinhados. Há uma alternância exasperante entre dados ruins, neutros e positivos. A falta de convergência não autoriza ninguém a prever que a alta da taxa básica de juros será feita no começo ou no fim do segundo semestre de 2015. Nem o “payroll” (relatório oficial do mercado de trabalho) de novembro inequivocamente bom foi capaz de afunilar as expectativas. Foram gerados 321 mil empregos no mês passado, uma quantidade bem acima da imaginada pelos especialistas, de 230 mil. Mas a taxa de desemprego permaneceu nos mesmos 5,8% de outubro, após ter recuado de 6,1% para 5,9% na passagem de agosto para setembro. A taxa do título de 10 anos do Tesouro americano subiu de 2,24% para 2,32%, mas ainda está num patamar muito baixo. O problema, do ponto de vista dos altistas, é que a melhora do mercado de trabalho já carrega consigo o efeito que neutraliza possíveis consequências inflacionárias. O payroll valorizou o dólar mundo afora – em relação ao real, subiu 0,14%, cotado a R$ 2,5933 --, o mercado de consumo americano será inundado por importados baratos e a inflação, já meio ponto abaixo da meta de 2% do Fed, tende a permanecer amordaçada.

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