Investidor busca segurança

Os mercados começaram a se preocupar com a possibilidade de o Federal Reserve (Fed) antecipar o movimento de alta da “fed fund rate”, congelada em zero desde 2008

Por O Dia

O mercado financeiro global repetiu ontem, num tom mais grave e soturno, as tensões da véspera. As bolsas de valores caíram nos quatro cantos do planeta, sendo a queda mais preocupante o tombo de 5,31% sofrido pelo índice Shangai. O pregão de Londres cedeu 2,14% e o de Frankfurt, 2,21%. A bolsa da Grécia desmoronou 12,8% por causa da antecipação das eleições presidenciais. Os megafundos globais, montados em montanhas de recursos de investidores institucionais e milionários aflitos, começam a sacrificar a perspectiva de lucro em nome da segurança (o ouro subiu ontem 3,10% na Nymex). O pano de fundo são demonstrações renitentes de fragilidade de uma economia mundial em crise já há seis anos. Os EUA não são exceção, apesar das exibições internas de robustez. Os americanos querem exorcizar de vez o fantasma de 2008, mas não conseguirão crescer se o mundo não vier junto. Wall Street, onde há uma bolha, sabe disso.

A terça-feira começou carregada de maus presságios. Os operadores da Europa acordaram com a notícia de que o governo chinês havia proibido a utilização de bônus emitidos por empresas de rating que não seja AAA como colateral na tomada de empréstimos de curto prazo por parte de investidores. A medida visava atenuar o risco implícito nas dívidas contraídas por empresas e governos locais. Em meio à tarefa de controlar um pouso suave da economia, os dirigentes enfrentam a ameaça de risco sistêmico. Como a economia não pode voltar a crescer como antigamente, o jeito é evitar uma quebradeira em cascata. Trata-se de um trabalho delicado. Enganos podem precipitar uma desaceleração mais intensa do produto. Na manhã europeia, novos dados ampliaram a pilha de documentos que relatam a estagnação. A produção industrial do Reino Unido recuou 0,1% em outubro, quando os analistas previam avanço de 0,2%. E as exportações alemãs caíram 0,5% em outubro, enquanto as importações cederam 3,1%, desempenhos abaixo da expectativa.

Enquanto isso, nos EUA, esquizofrenicamente, os mercados começaram a se preocupar com a possibilidade de o Federal Reserve (Fed) vir a antecipar o movimento de alta da “fed fund rate”, a Selic dele, congelada em zero desde o fim de 2008. Considerado o principal “fed watcher” da imprensa americana, Jon Hilsenrath, do Wall Street Journal, informa que, em sua reunião marcada para quarta-feira que vem, o comitê de política monetária da autoridade poderá retirar do statement a locução adverbial “tempo considerável” (no caso, entre o fim do afrouxamento quantitativo, ocorrido em outubro, e o início da alta do juro) que impede o mercado de precificar um novo patamar para o juro. Diante dessa informação, era para a taxa de 10 anos do Tesouro ter dado um salto. Mas o mundo combalido não deixou, e a T-Note de 10 anos caiu de 2,26% para perto de 2,20%. Um juro de 10 anos mais condizente com o descongelamento da “fed fund rate” estaria num degrau acima de 2,70%. Se o jornalista do Journal acertar – e ele não costuma errar – o mundo ficará cindido entre uma política monetária mais apertada nos EUA e outras desesperadamente frouxas na Europa e na Ásia. Ou seja, os EUA estarão preocupados com a inflação e o restante com a deflação. Essa assimetria tem tudo para acabar mal.

Como não houve grande saída de capital externo, os mercados domésticos tentaram se restringir aos acontecimentos locais. O depoimento do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, à Comissão Mista de Orçamento do Congresso desarmou especulações altistas no mercado de câmbio e promoveu uma rodada de baixa nos contratos futuros de juros negociados na BM&F. Tombini transmitiu algumas mensagens ao mercado: 1) a futura política fiscal será “ligeiramente contracionista”, ajudando a política monetária a controlar a inflação; 2) após alguns meses ainda em torno do teto da meta inflacionária, o IPCA recuará de forma consistente e duradoura até convergir para o centro de 4,5% no final de 2016; 3) o BC está confortável com o atual estoque de US$ 307 bilhões em swaps cambiais e irá renová-lo ao longo de 2015 se a demanda o requerer; 4) o prosseguimento no ano que vem da oferta diária de novos swaps dependerá do comportamento do mercado de câmbio até o fim do ano, ou seja, se houver pressão de demanda o BC prosseguirá com o programa de oferta primária de hedge, talvez num esquema mais flexível. Deixaria de oferecer a ração diária, mas entraria a qualquer momento para suprir procura por hedge decorrente da volatilidade internacional.

Tombini se mostrou convencido de que a inflação irá se encaminhar à meta central, passados os primeiros meses de 2015, para os quais estão previstas pressões derivadas das correções das tarifas públicas e do realinhamento de preços relativos internacionais, mesmo que a postura do Copom seja de “parcimônia”. Mais detalhes sobre essa orientação os analistas irão encontrar amanhã na ata da reunião da semana passada do Comitê.

O mercado de câmbio tentou, durante a manhã, ler na fala de Tombini insinuações de que o programa de intervenção cambial irá acabar com o ano. Mas o movimento de alta em sintonia com essa interpretação não prosperou e a moeda fechou em baixa de 0,513%, cotada a R$ 2,5981. Os investidores “comprados” não conseguem manter o preço acima do teto de R$ 2,60 definido informalmente pelo BC. No pregão de juros futuros da BM&F, a ênfase dos investidores foi posta na substituição pelo presidente do BC da postura monetária “especialmente vigilante” por simplesmente “ativa”. O contrato para janeiro de 2017, que vence no final do “horizonte da política monetária”, para o qual se espera inflação na meta de 4,5%, recuou de 12,41% para 12,40%.

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