Ata no meio da queda de braço

Se o juro for a esferas siderais vai desencadear recessão, alargar e baratear o mercado de trabalho, reduzir só alguns pontinhos o IPCA e aumentar exponencialmente o lucro dos financistas

Por O Dia

A queda de braço entre o mercado de juros e o Banco Central, deflagrada há uma semana pela intenção do Copom de conduzir a política monetária com parcimônia, não tende a ser atenuada pela ata da reunião a ser publicada hoje cedo o site da autoridade. O pregão de juros futuros da BM&F — recinto onde tesoureiros de bancos e gestores de fundos fazem suas apostas para a Selic — se recusa a adequar a curva ascendente dos contratos de prazo mais curto às sinalizações de moderação emitidas pelo BC.

Os executivos sabem que a ata não será escrita num tom diferente do empregado por Alexandre Tombini em seu depoimento de terça-feira ao Congresso. Mesmo assim, a curva embute um “esforço adicional” de política monetária de mais um ponto percentual. Uma elevação suplementar desta magnitude não tem um mínimo de amparo nos textos e nas falas do BC. Mas o mercado insiste, por pura vontade de brigar.

Já embutindo uma irrealista Selic de 12,75% ao término do atual ciclo de alta, os DIs futuros preservaram as suas trincheiras ontem. Enquanto os contratos de prazo mais curto permaneceram estáveis, os longos subiram. As taxas para janeiro de 2015 e janeiro de 2016 não saíram do lugar: 11,60% e 12,48%, respectivamente. E os contratos para janeiro de 2017 e janeiro de 2021 subiram de 12,40% para 12,41%, no primeiro vencimento, e de 12,07% para 12,18%, no segundo.

A guerra é declarada e aberta. Depois que o Copom, no seu statement do dia 3, restringiu a ampliação da velocidade de alta da Selic, de 0,25 para 0,50 ponto, às circunstâncias do momento — por meio da expressão “neste momento” — e depois que voltou a manifestar a certeza de que os “efeitos cumulativos e defasados” do ciclo de alta já realizado, além de “outros fatores” (política fiscal contracionista) dispensariam uma radicalização, retornaram ferozes as críticas, ora veladas ora escancaradas, de que o BC de Tombini, como permanece “atrás da curva de juros”, não irá conseguir resgatar a sua credibilidade. O raciocínio é enviesado assim mesmo: o BC só teria a confiança das instituições e dos investidores se se posicionasse na curva ou à frente dela. Ou seja, se aceitasse a orientação do mercado ou fosse mais circunspecto que ele. Na raiz dessa argumentação subsiste a crença de que o mercado é um deus infalível, que está sempre certo. Restaria ao BC, para desfrutar de credibilidade, submeter-se aos seus caprichos. O Federal Reserve de Alan Greenspan irmanou-se por anos às exigências de desregulamentação imposta pelas grandes firmas. O velho bruxo chocou o ovo da serpente de 2008.

Embora alguns críticos da ala xiita neoliberal afirmem com escassos subterfúgios que o BC é incompetente, a maioria dos analistas escamoteia a sua revolta por meio do uso do gasto argumento que, como a inflação é o flagelo dos pobres, uma política monetária dura, que traga rapidamente a inflação à meta central de 4,5%, ao invés de prometê-la para o horizonte da política monetária, mesmo que provoque recessão e desemprego de curto prazo, no longo (aquele no qual, segundo Keynes, todos estaremos mortos) estará assegurando o bem-estar geral. A mofada receita não cola mais. Na verdade, se o juro for a esferas siderais vai desencadear recessão, alargar e baratear o mercado de trabalho, reduzir só alguns pontinhos o IPCA e aumentar exponencialmente o lucro dos financistas. Qualquer proposta, independentemente de sua colocação no espectro ideológico, que não passe pelo choque de juros é destituída de “credibilidade”.

Quando o afável professor da FGV-SP Yoshiaki Nakano, um economista que de esquerda não tem nada, propõe um superávit fiscal de 3% do PIB sem aumento de tributos, conjugado à uma política cambial de depreciação acelerada do real e à uma nova política monetária, sem Selic, que introduza uma rota cadente acentuada dos juros, é esconjurado como um demônio. Não há nenhuma preocupação genuína com a recomposição do poder real de compra dos salários, o que vem sendo feito continuamente segundo as PME do IBGE a despeito da inflação no teto: a obsessão inflacionista do mercado não encobre mais o interesse verdadeiro pela ampliação do ganho nominal e real dos investimentos financeiros. Quando alguém vem a público e diz que o superávit fiscal de 1,2% de Joaquim Levy será feito exclusivamente à base de elevação da carga tributária, já que é impossível cortar o gasto corrente, e que esse superávit não evitará o rebaixamento do rating brasileiro, não é porque esteja preocupado com o “bem-estar da população”, é porque está megacomprado em dólar e DI futuro.

O dólar operou ontem contra o real em sintonia com a intensificação da aversão global a risco gerada pela nova queda do petróleo e das commodities metálicas. O barril WTI fechou cotado em Nova York a US$ 61,00, em baixa de 4,4%. Dados de inflação na China pesaram negativamente no ânimo dos investidores. O índice que mede a alta de preços ao consumidor recuou de 1,6% anual em outubro para 1,4% em novembro. No atacado, a deflação é crônica, perdura há 33 meses consecutivos. No mês passado, o índice ao produtor caiu 2,7%, acima da expectativa de -2,4%. Não serve de alento a perspectiva de que o Banco do Povo chinês venha a afrouxar ainda mais a política monetária. Se fizer isso, aumentará o risco sistêmico. E o dólar fechou em alta de 0,55%, cotado a R$ 2,6125, maior preço desde 15 de abril de 2005.

O preço do dólar oscila em relação exclusivamente às “expectativas” do mercado. A moeda fechou 2013 em R$ 2,3570 e ontem foi a R$ 2,6125, o que dá uma valorização de 10,84% no acumulado de 2014. No entanto, a balança cambial do ano corre o risco de fechar positiva. Segundo dados divulgados ontem pelo BC, no acumulado de 2014 até o dia 5, o fluxo de entrada e saída de capital é superavitário em US$ 4,396 bilhões, quando, no mesmo período de 2013, houve um déficit de US$ 6,132 bilhões. Não só há uma sobra líquida de US$ 4,4 bilhões no sistema como o BC injetou no mercado futuro US$ 107 bilhões para quem precisava de proteção contra a alta do dólar. Talvez os “comprados” possam explicar essa discrepância.

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