Sob o domínio do medo

Nenhum ajuste fiscal seria suficiente, por mais robusto e confiável que fosse, diante de um quadro de correria para rearrumação de portfólios globais exigida por alterações “hawkish” na política monetária americana

Por O Dia

Nesta semana dominada por incertezas e medos globais, os mercados conseguiram piorar um pouco mais ontem. Petróleo e commodities metálicas voltaram a cair, afugentando investidores dos títulos e moedas de países emergentes. A fuga recebeu um impulso adicional de dados americanos que reforçaram a expectativa de mudança pró-aperto da política monetária do Federal Reserve (Fed). Pelas duas influências conjugadas, o dólar se fortaleceu no mundo inteiro. Contra o real, subiu 1,34%, para R$ 2,6476, maior cotação desde 1° de abril de 2005. Os juros subiram no mercado futuro da BM&F para promoverem a sintonia com o dólar e também para persuadir o Banco Central a continuar avançando a Selic ao ritmo de 0,50 ponto por reunião, velocidade à qual ele não se mostra plenamente convencido a aderir.

O êxodo do capital em direção ao paraíso do mercado secundário de treasuries fez a taxa do bônus americano de 10 anos tombar de 2,28% para 2,17% apenas nos três primeiros dias da semana. Ontem subiu a 2,19%, com o mercado tentando equilibrar-se entre o excesso de demanda e indicadores americanos pedindo um juro mais elevado. Os dois de ontem surpreenderam positivamente. Os pedidos de seguro-desemprego caíram em três mil na semana passada, para 294 mil, quando os especialistas previam alta para 300 mil. E as vendas varejistas subiram 0,7% no mês passado, para uma expectativa consensual de 0,4%.

Em resposta a uma ata do Copom tida como vacilante e contraditória, os DIs futuros avançaram em bloco na BM&F. Como os contratos com vencimento distante subiram mais que os de prazo mais curto, a inclinação negativa da curva atenuou-se. Traduzindo: aumentou a desconfiança do mercado em relação à política monetária. Enquanto a taxa para janeiro de 2016 subiu 0,04 ponto, para 12,52%, o contrato para janeiro de 2017 teve alta de 0,07 ponto, para 12,48%, e o para janeiro de 2021 pulou 0,17 ponto, para 12,35%.

Os analistas consideraram antagônicos entre si os sinais contidos no parágrafo 31 da ata. Nele, ao mesmo tempo em que o Comitê sustenta a manutenção de sua postura “especialmente vigilante” no combate à inflação — o que é uma predisposição a comprar uma boa briga contra surtos altistas do IPCA — repisa a visão já consignada no statement da reunião da semana passada segundo o qual por causa dos efeitos cumulativos e defasados do aperto já realizado e de outros fatores, os esforços adicionais poderão ser conduzidos com parcimônia. Não há nenhuma discrepância aqui. Embora decidindo cada passo específico na conjuntura momentânea de cada reunião — o objetivo da repetição do “neste momento” — o Copom gostaria de caminhar no ritmo de 0,25 ponto. Gostaria de ir nesse passo comedido, mas pode não ser possível. Se o dólar disparar, se a equipe econômica encontrar dificuldades na implementação do ajuste fiscal e se os preços públicos forem forçados a subir mais vigorosamente, não haverá outra alternativa a não ser manter o compasso de 0,50 ponto. O futuro decidirá, e o Comitê, ao contrário de certos gênios do mercado, não tem a pretensão de adivinhá-lo.

Até 21 de janeiro, data da primeira reunião de 2015, o Copom terá condições de avaliar melhor os cenários interno e externo e optar por 0,25 ou por 0,50 ponto. Até lá, será possível conhecer as reações dos mercados às medidas de ajustamento fiscal que serão divulgadas quando finalmente Joaquim Levy e Nelson Barbosa puderam assumir seus cargos. Se os analistas julgarem crível e factível o conjunto de medidas, cujo esboço inicial inclui corte de gastos, aumento de impostos, redução de crédito subsidiado e elevação da TJLP, a credibilidade despertada pela nova gestão pode aguçar a gula dos investidores estrangeiros pela remuneração avantajada oferecida pela Selic em rota ascendente. Desde que tudo esteja relativamente calmo lá fora. Esse, na verdade, é o grande problema.

Nenhum ajuste fiscal seria suficiente, por mais robusto e confiável que fosse, diante de um quadro de correria para rearrumação de portfólios globais exigida por alterações “hawkish” na política monetária americana. Na quarta-feira, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve fará a sua última reunião de 2014. Se for confirmado o vazamento acerca da retirada da expressão “tempo considerável”, que exerce a função de indicar aos mercados a manutenção de uma política monetária acomodatícia, os fundos globais já podem iniciar a realocação das carteiras. Esta movimentação será um novo e forte estímulo para o dólar buscar um patamar mais alto. A sorte é que a plataforma de lançamento não serão os R$ 2,25 pré-eleitorais. No preço atual, o foguete já está no segundo estágio, limitando a força do empuxo.

<CW-7>Também no dia 17, a Grécia realiza as suas antecipadas eleições. A população dirá se quer continuar submetida ao arrocho draconiano imposto para o refinanciamento da altíssima dívida equivalente a mais de 150% do PIB. Em meio aos sinais de que economia global conseguiu fragilizar-se ainda mais nos últimos meses, cujo sintoma mais gritante é o afundamento do petróleo, ninguém poderá descartar a volta do fantasma da ruptura do euro. A zona do euro não está tão ruim que não possa piorar mais um pouco. A confusão será tremenda se à fuga do risco ditada pela debilidade da Europa (sob ameaça de uma nova crise de dívida) e da Ásia for agregada uma realocação de portfólios derivada da perspectiva de alta do juro americano. Nesse caso, provavelmente o Fed não terá condições de subir a taxa. Mas o primeiro semestre será de fortes emoções.

Faz bem o Copom em não cultivar certezas definitivas sobre quase nada. O panorama que vê hoje é o seguinte: a inflação acumulada em doze meses permanecerá alta no primeiro trimestre de 2015, depois assume trilha longa de queda, até o encontro com o centro da meta, marcado para o final de 2016. Dia 21 de janeiro ele decide, de forma “ativa” ou “especialmente vigilante”, se a alta será de 0,25 ponto ou de 0,50, e se o ciclo estará terminado ou prestes a se encerrar, mas ninguém está autorizado a supor um curso até uma Selic de 13%. Pelo menos não por enquanto.

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