Por monica.lima
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve vai começar a partir de quarta-feira, dia de sua última reunião do ano, a decidir a política monetária que será praticada no mundo inteiro em 2015. O Fomc vai dar um sinal de aperto das condições monetárias. A decisão já foi vazada pelos canais regulares para que os mercados não sejam pegos de surpresa. A indicação é de que vai retirar a expressão “tempo considerável” do seu comunicado. A locução adverbial de tempo cumpria a função de informar ao mercado que o Fomc não enxergava no horizonte visível a necessidade de subir a taxa básica de juros, congelada entre zero e 0,25% desde dezembro de 2008. Ao retirá-la, esticará o dedo para o primeiro ou o segundo trimestre do ano que vem. O fim está próximo.
O que se deve entender é que o Fomc não decide apenas os rumos da política monetária dos EUA. Os 12 votantes do Comitê decidem a política de juros do mundo todo. Em qualquer parte, o que vale é a taxa de juros em dólar. Se os EUA sobem o juro, definem um novo patamar global de custo do dinheiro. Será estabelecida uma nova competição pela astronômica massa de dinheiro apátrida que circula de um canto a outro em busca das melhores condições (o perfeito equilíbrio entre rentabilidade, segurança e liquidez). Os juros internacionais precisarão ser realinhados para o enfrentamento da nova situação. Diante do aperto monetário nos EUA, todos os países não poderão cruzar os braços e permitir uma fuga de capital de suas economias. Vão ter de subir as suas taxas e convencer os investidores a permanecerem em suas praças. O grande problema é que, com exceção dos EUA, as economias estão fragilizadas, com alarmantes inquietações sobre produção apática, deflação, déficit fiscal, dívida e balanço de pagamentos. Subir os juros nessas condições significaria agravar as dificuldades, aumentando o risco e afetando a perna da segurança do tripé dos investimentos. Mas não há opção. Os juros globais terão de seguir o que o Fomc determinar.
Publicidade
O Fomc está com uma tremenda vontade de normalizar as condições monetárias americanas. O afrouxamento quantitativo acabou em outubro, o PIB crescerá este ano ao redor de 3%, o mercado de trabalho melhora continuamente, mas a inflação continua morta, cerca de meio ponto abaixo da meta de 2%. O Comitê sabe que uma mera sinalização de aperto futuro irá afundar ainda mais a economia global no atoleiro da estagnação. Se os EUA cresceram 3% em 2014 e o mundo patinou, carece de racionalidade a conversinha de agências de rating de que em 2015 o império americano irá comandar uma nova onda de prosperidade mundo afora. Tal esperança até poderia se concretizar se a China continuasse a reduzir suas taxas e alargasse a liquidez e se o BCE fizesse o mesmo. Não poderão fazer isso se os EUA subirem os juros.
Já uma semana antes da reunião do Fomc assistiu-se a uma impressionante migração de recursos aplicados em emergentes, na Europa e na China para o mercado secundário de títulos do Tesouro americano. A procura foi tão intensa que a taxa da treasury de 10 anos tombou de 2,28% no dia 5 para 2,11% na sexta-feira. O motivo é elementar: as economias que sustentam o seu balanço de pagamentos por meio da exportação de commodities irão se debilitar e podem não conseguir honrar suas dívidas. Para evitar a fuga, os países terão de compensar a perda de segurança com o aumento da atratividade.
Publicidade
O Brasil está nesse jogo? Quando o Banco Central informa que está subindo a Selic por causa do realinhamento dos preços relativos internacionais aos domésticos, está na verdade usando a política monetária não para atacar diretamente a inflação, mas para convencer os megafundos estrangeiros a continuar comprando títulos do Tesouro Nacional. Quem vai determinar o grau de parcimônia da política monetária não será o IPCA, mas as estatísticas de entrada e saída de capitais de portfólio. São estes os atuais responsáveis pelo fechamento da conta corrente do balanço de pagamentos, já que o investimento estrangeiro direto não cobre integralmente o rombo.
E não basta para persuadi-los a ficar aqui pagar a maior taxa de juros do mundo. O BC precisa garantir taxa de câmbio estável ou em apreciação. Tem de evitar a todo custo que o dólar se valorize perante do real. A conta é simples: se o investidor traz US$ 1 milhão e o converte em reais pela cotação de R$ 2,65 obterá R$ 2,65 milhões que, aplicados a Selic de 11,75%, crescerão para R$ 2,961 milhões ao final de um ano. Mantido o dólar a R$ 2,65, o investidor remeterá US$ 1,1175 milhão, ou seja, vai embolsar os 11,75% limpinhos. Mas se o dólar subir para R$ 2,80, vai remeter apenas US$ 1,0576 milhões, ou seja, seu ganho será de 5,76%. Se o dólar cair para R$ 2,30, estará no melhor dos mundos: mandará US$ 1,2876 milhões, seu lucro terá sido de extravagantes 28,76%. Foi essa brincadeira do ganho fácil, advindo da conjugação de juro alto e câmbio em permanente apreciação, a principal responsável pelo BC ter acumulado as reservas cambiais de US$ 380 bilhões.
Publicidade
Para que o investidor estrangeiro não desista de vir para cá por causa do risco cambial, o BC assume esse risco para ele, por meio da venda dos swaps cambiais. É por isso que toda a polêmica em torno da continuidade ou não das intervenções cambiais em 2015 não tem sentido. O BC será obrigado a continuar oferecendo sua ração diária de US$ 200 milhões. Como se trata do hedge mais barato e líquido do mercado, sem ele as entradas se reduzirão. O hedge só não faria falta se o BC elevasse absurdamente a Selic. Se o ganho fosse elevadíssimo, capaz de magnetizar montanhas de dólares, o próprio gigantesco volume de ingresso provocaria uma apreciação cambial, neutralizando o risco. Qual seria o tamanho da Selic necessário para isso? Não menor que 20%?
Na sexta-feira, o BC dobrou a oferta de linhas de crédito em dólar com compromisso de recompra. Ao invés do US$ 1 bilhão semanal, vendeu US$ 2 bilhões. Deu certo: o dólar, subia 1,2% antes dos leilões, cotado a R$ 2,6785, depois deles perdeu força e encerrou o dia a R$ 2,6512, valorização de apenas 0,14%. Mas o mercado quer mais. Executivos já começam a pressionar pelo aumento da oferta de novos swaps. O mercado já está achando a ração diária de 4 mil contratos um petisco que só aumenta a fome. E o Fomc ainda nem deu a sua decisão.
Publicidade
Domesticamente, o fato da semana é a reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) de quinta-feira. Em pauta, a alta da TJLP. Enquanto a Selic saltou de 7,25% em abril de 2013 para os atuais 11,25%, a taxa usada pelo BNDES em seus empréstimos permanece congelada em 5%. Mantida a correlação anterior com a Selic, a TJLP terá de subir para 9%. A decisão, destinada a reforçar o comprometimento do governo com o ajuste fiscal, será tomada pelo CMN antigo, formado pelos ministros Guido Mantega, Miriam Belchior e Alexandre Tombini. Nada justifica o retardamento da posse dos ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa. A magnitude do reajuste da TJLP deveria ser decidida e assinada pelos novos ministros. Como a medida terá a assinatura de Mantega, qualquer elevação que não seja para o patamar de 9% será recebida com irritação pelo mercado, já desgostoso com o duplo comando da economia. E o atual CMN não deve avalizar uma taxa maior do que 6%.