O conto de Levy

Se Dilma colocou Levy na Fazenda com o fim específico de acalmar o mercado, o comportamento recente dos pregões informa que deveria ter posto um autêntico liberal mercadista no BC. Tarde demais.

Por O Dia

Em sua quarta alta consecutiva, o dólar valorizou-se ontem 1,29%, cotado a R$ 2,6853, maior preço desde 29 de março de 2005. Na máxima do dia, bateu em R$ 2,7019. O Banco Central não tem muito o que fazer contra esse movimento ascendente da moeda americana. Ele é global, resultado da migração de investidores de todas as partes para a única economia que exibe solidez em seu crescimento, a americana. O real não foi a única moeda de emergente a exibir pesada depreciação ontem, e sua baixa nem foi das mais expressivas. Até onde vai essa onda de queda do petróleo e das commodities e o fortalecimento do dólar? Em sua reunião de política monetária de amanhã, o Federal Reserve (Fed) terá o poder de estabelecer uma trégua, se retirar qualquer urgência de alta de seu juro básico, ou de dar prosseguimento à viagem do capital ao éden americano.

O BC tende a esperar o resultado da última reunião do ano do Fed para só então definir se irá manter o atual programa de oferta de hedge cambial ao mercado ou se irá modificá-lo. A tendência é que prolongue a oferta diária de 4 mil novos contratos de swap, que equivalem à venda de US$ 200 milhões por dia no mercado futuro. Enquanto isso, trata de irrigar o mercado de moeda sacada das reservas para abastecer quem precisa de dólares físicos, não proteção contra oscilações. A autoridade fez ontem mais um leilão de linhas de crédito com compromisso de recompra (ou seja, a moeda não sai em definitivo das reservas), no valor de US$ 1 bilhão. Foi a quarta operação do gênero somente este mês. Se não fossem por esses leilões, o dólar já estaria acima de R$ 2,70. Há este mês muita demanda por parte de empresas interessadas em remeter lucros e dividendos e de investidores estrangeiros ressabiados com o declínio do petróleo.

A fuga para os EUA foi intensificada ontem pela divulgação pelo Fed de um ótimo dado sobre produção industrial. No mês passado, ela cresceu 1,3%, acima da previsão de 0,8% formulada pelos analistas. O indicador geral foi considerado mais confiável e relevante do que o índice Empire State de atividade industrial da região de Nova York. Os especialistas apostavam em alta para 14 pontos em dezembro, depois de o indicador marcar 10,16 pontos em novembro, mas surpreendentemente caiu para -3,58. Um dado ruim sobre o setor imobiliário foi ignorado. O índice NAHB, de confiança dos construtores, cedeu de 58 pontos em novembro para 57 em dezembro.

Os juros subiram no mercado futuro da BM&F não apenas para acompanhar a arrancada do dólar. A taxa para janeiro de 2017 passou de 12,53% para 12,69%. Os contratos avançaram no mesmo dia em que o BC divulgou um IBC-Br (o seu índice mensal de atividade, que aspira à pretensão de ser um proxy do desempenho do PIB) muito decepcionante. Referente a outubro, ele acusou retração de 0,26%, na contramão das previsões de expansão de 0,25%. Os especialistas não acertaram nem a direção, quanto mais a dimensão do tombo. O mais pessimista deles esperava uma queda de 0,10%. As más notícias não pararam aí: o dado de setembro, avanço de 0,40%, foi revisado para baixo, indicando agora alta de 0,26%; na comparação interanual, a contração da economia chega a 1,18%; o acumulado de 12 meses desacelerou de 0,60% para 0,22%; e nos dez primeiros meses do ano há queda de 0,12%. Resultado: se o PIB encerrar 2014 com crescimento de 0,16%, como prevê o Focus, já será motivo para comemorações. Diante desse IBC-Br era para os juros futuros terem caído. Ou não?

Pelo breviário novoclássico rezado pela maioria dos analistas, não há contradição alguma entre o comportamento dos juros e a estagnação relatada pelo índice do BC. O diagnóstico é de que a economia entrou no atual canal de baixa por causa de duas distorções. A maior é produzida pelo mercado de trabalho estreitíssimo. O custo unitário do trabalho cresce em termos reais bem acima da produtividade real. O custo da mão-de-obra reduz os lucros e a capacidade de investimento das empresas. A segunda distorção também comprime os lucros e a poupança empresarial: a competição desvantajosa com os importados, fruto do câmbio apreciado. A taxa de câmbio já subiu este ano cerca de 14% nominais, mas esta alta ainda não é suficiente para neutralizar a concorrência externa. Quais as providências que deveriam ser tomadas pelo governo para restaurar o potencial de investimento privado? O governo deveria inverter a sua prioridade em relação aos empregos. Deveria provocar uma recessão e permitir a elevação da taxa de desemprego. Só assim o custo unitário do trabalho cairia em termos reais.

O raciocínio do mercado é este mesmo: para voltar a crescer de forma sustentável e equilibrada no futuro, o governo deveria fazer uma recessão saneadora. Como? Alçando a Selic até o patamar que fosse necessário. A paulada na taxa básica seria indispensável também como remédio contra os efeitos colaterais inflacionários das medidas destinadas a consertar a segunda distorção: o BC afrouxaria suas intervenções cambiais e autorizaria o dólar a buscar o preço justo de mercado, aquele capaz de financiar o déficit em transações correntes e, ao mesmo tempo, restaurar a lucratividade das empresas brasileiras. Se o mercado acredita que é o juro estratosférico a solução para o baixo crescimento da economia, o IBC-Br só reforça a prescrição de sua receita. E o ajuste fiscal de Levy? Não resolve nada sozinho.

O desafio do novo ministro da Fazenda é hercúleo, mas o seu resultado prático será insuficiente. O 1,2% de superávit primário em 2015 será um feito fantástico, considerando-se o atual déficit primário, mas não ataca o pleno emprego (visto como o mal supremo) e a crônica apreciação cambial. O mercado se deu conta nas duas primeiras semanas de dezembro que não ganhou o terceiro turno das eleições. A nomeação à Fazenda de um ortodoxo como Joaquim Levy foi interpretada açodadamente como uma conversão de Dilma Rousseff ao catecismo dos mercados. A “parcimônia” monetária do BC e a garantia de que no ano que vem não vai desmontar o estoque de swaps cambiais mostraram que não houve rendição alguma. Se Dilma colocou Levy na Fazenda com o fim específico de acalmar o mercado, o comportamento recente dos pregões informa que deveria ter posto um autêntico liberal mercadista no BC. Tarde demais. O mercado caiu no conto do Levy.

Como as projeções de Selic do boletim Focus traduzem a impressão dos analistas sobre as decisões que o Copom dilmista irá tomar, e não as que adotaria, não há nenhum susto à vista. A mediana das cem instituições pesquisadas aponta para uma nova alta de 0,50 ponto em janeiro, com o BC mantendo a velocidade imprimida na reunião de dezembro, e encerraria o ciclo de alta com um ajuste simbólico de 0,25 ponto no encontro de março. A Selic chegaria em 12,50% e seria estacionada nessa vaga até o fim de 2015. E em 2016? O mercado acredita que, quando voltar a se locomover, será em direção a uma pequena ladeira. Após três cortes sucessivos de 0,25 ponto a taxa voltaria aos atuais 11,75%. Com esse plano de voo, a política monetária conseguiria reduzir o IPCA de 6,5% no ano que vem para 5,7% no seguinte e 5,5% em 2017. Ou seja, a inflação ainda não estaria no centro da meta nem no penúltimo ano do segundo mandato.


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