Parcimônia e paciência

Os dois “guidances” de política monetária também servem de senha para o cerne da política econômica de 2015

Por O Dia

O Banco Central e o Federal Reserve já deram as palavras-chave para 2015: parcimônia e paciência. Os dois “guidances” de política monetária também servem de senha para o cerne da política econômica do ano que vem – as medidas concretas que comporão o ajuste fiscal em elaboração pelas equipes dos novos ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa. Parcimônia nos gastos públicos e paciência para esperar pelos efeitos positivos das providências. O desafio é reverter rapidamente o baixo-astral deste final de ano na área econômica. Os indicadores negativos se sucedem sem trégua. E os analistas pintam um cenário para o novo ano pior ainda. Levy e Barbosa precisam mudar os números da economia ao mesmo tempo em que revertem as expectativas sombrias dos economistas.

O pessimismo pré-natalino é acentuado. Um superávit primário equivalente a 1,2% do PIB não evitará que a inflação permaneça — ou mesmo supere — no teto de 6,5% da banda inflacionária ao longo do ano, pois as pressões externas devem empurrar o dólar para a faixa entre R$ 2,80 e R$ 3,00. E a atividade, já comprometida pelo escândalo das empreiteiras, sentirá a alta do juro — embora o BC não esteja disposto a ir além dos 12,5% — e a contração fiscal. Tudo poderá ser diferente se empresários, financistas e investidores “acreditarem” que as distorções estão sendo e continuarão a ser corrigidas.

Os analistas acham que o “guidance” de política monetária — a parcimônia — deveria valer apenas para a política fiscal. O Relatório Trimestral de Inflação (RTI) que será publicado amanhã pelo BC deve tentar desfazer o mal-estar criado nos mercados pelo tom considerado excessivamente otimista dos últimos textos oficiais do Copom. O RTI, como o statement, a ata e o boletim Focus, integra o conjunto de instrumentos utilizados pelo Comitê para gerir as expectativas dos agentes econômicos, conduzindo-as ao centro da meta de inflação. Nele, o BC pode explicar mais claramente os motivos da introdução da palavra “parcimônia” nos últimos documentos. Como “forward guidance”, a palavra falhou. Por mais que os dirigentes não percam oportunidade para alertar que a inflação conhecerá seu cume no início de 2015, entrando num canal de baixa depois, o Copom não poderá ser parcimonioso com o IPCA de 12 meses rondando os 7%.

Se a intenção foi apenas a de desarmar as operações com juros futuros que embutiam um passo de alta da Selic de 0,75 ponto, e não de desacelerar a velocidade para 0,25 ponto, o BC precisará dizer isso mais explicitamente. Uma linguagem mais direta também deveria ser empregada se o BC estiver convencido de que, mantido o ritmo de alta de 0,50 ponto na reunião do Copom de 21 de janeiro, o ciclo não se estenderá muito mais porque a economia caminha da estagnação dos últimos meses deste ano para uma recessão aberta em 2015 — e uma Selic final de 12,50% já seria suficiente para suavizar os efeitos negativos sobre o IPCA da alta do dólar e das tarifas públicas. A fonte de alimentação do indicador seria cortada desde a raiz pela recessão. O pregão de juros futuros da BM&F persiste cético. A alta dos contratos na semana passada foi expressiva. A taxa para janeiro de 2016, por exemplo, pulou de 12,54% no dia 12 para 12,93% na sexta-feira.

Esta semana natalina não será vazia de indicadores econômicos relevantes. Além do RTI referente ao quarto trimestre do ano, o BC divulga hoje a nota de crédito relativa a novembro. Na sexta-feira, o Tesouro Nacional informará o resultado primário do governo central no mês passado, para o qual o mercado espera um superávit perto de R$ 7 bilhões. Ainda sem data definida, quem sabe antes do relatório do Tesouro, a Receita Federal divulga os dados sobre a arrecadação de novembro.

Este mês, o governo enfileirou uma coleção de indicadores negativos. Na sexta-feira, saíram três, todos ruins. O primeiro: o IPCA-15 do mês subiu 0,79%, acima da expectativa consensual dos analistas de uma alta de 0,75%, e com forte aceleração comparativamente ao avanço de 0,38% registrado em novembro. O conjunto de preços livres, o único teoricamente afetado pela política monetária, ignorou o novo ciclo de alta da taxa Selic e dobrou a velocidade. Em doze meses, os preços livres sobem 6,72%, acima do teto da banda. O índice cheio, com variação em 2014 de 6,46%, raspou o teto. O seu irmão gêmeo tardio, o IPCA, índice de referência do sistema de metas, corre o risco de furar o limite máximo, o que trará complicações burocráticas ao BC, como a exigência de fornecimento de explicações formais ao ministro da Fazenda.

O segundo: os analistas esperavam que a taxa de desemprego calculada pelo IBGE iria cair para 4,5% em novembro, vinda de 4,7% em outubro. Ao contrário, ela subiu para 4,8%. Trabalhadores que tinham escolhido ficar em casa estão voltando a procurar emprego, sinal de aperto na renda familiar. O mercado de trabalho tende a piorar em 2015 e a taxa deve subir para 5,5% até o fim do ano.

O terceiro: a conta corrente do balanço de pagamentos foi deficitária em US$ 9,3 bilhões em novembro, rombo superior ao imaginado pelos economistas, de US$ 8,5 bilhões. Como proporção do PIB, o déficit subiu de 3,7% para 4,05%. A pesada depreciação cambial do ano não foi suficiente para reduzir as dificuldades externas. O BC não vai poder usar a taxa de câmbio como linha auxiliar no combate à inflação. O que ele chama de “instrumento monetário” — a taxa Selic — terá de atacar sozinha. As prioridades macroeconômicas são, pela ordem de importância, o balanço de pagamentos, cujo remédio é o câmbio desvalorizado, e a inflação (juro alto). O emprego sofrerá as consequências.

Na agenda internacional, o destaque será a divulgação amanhã da terceira prévia do crescimento do PIB americano no terceiro trimestre. Tanto a primeira quanto a segunda surpreenderam positivamente com altas, respectivamente, de 3,5% e 3,9%. Se vier de novo muito forte, crescerão as pressões para o Fed abandonar a sua ambígua “paciência por tempo considerável”.

Últimas de _legado_Notícia