Voo lotado para a qualidade

Os investidores desconfiam que o BCE não terá coragem para utilizar a arma final contra a estagnação: a recompra de títulos soberanos emitidospor países da periferia do euro

Por O Dia

O dólar valorizou-se ontem acentuadamente nos quatro cantos do planeta, não porque a economia americana exiba uma recuperação espetacular. O motivo é o inverso: o restante do mundo é que se mostra debilitado e, portanto, arriscado. O voo para a qualidade, cada vez mais lotado, marca os mercados globais nesse início de ano. A moeda dos EUA sobe porque só existe um caminho para os investidores adquirirem títulos do Tesouro americano: precisam, primeiro, vender as moedas onde estão alocados para depois comprar dólares e aplica-los nas “treasuries”. Esse movimento aprofundou o declínio dos juros de 10 anos. A T-Note recuou ontem de 1,97% para 1,91%. As duas faces da crise externa atual mostraram caretas ainda mais agônicas: na Nymex, o barril rolou mais 4%, cotado aquém dos US$ 46,5; e o euro baixou a US$ 1,18, menor cotação desde dezembro de 2005.

Os investidores desconfiam que o Banco Central Europeu (BCE) não terá, na sua reunião marcada para a semana que vem, coragem para utilizar a arma final contra a estagnação: a recompra de títulos soberanos emitidos por países da periferia do euro. A medida deveria vir antes das eleições gregas do dia 25, até como forma de dissuadir o voto à esquerda, essencialmente contra o euro. Em três fases sucessivas, o afrouxamento quantitativo envolvendo títulos do Tesouro foi empregado com sucesso pelo Federal Reserve (Fed). Mas era mais fácil, pois os papéis tinham emissores domésticos conhecidos, o próprio Tesouro e os bancos locais. No caso da eurozona, a qualidade do país emissor varia, com as economias da Alemanha e da França tendo de assumir o risco dos países menos ricos.

Depois de ter acumulado baixa de 2,39% nos dois pregões finais da semana passada, o dólar fechou ontem em alta de 1,11%, cotado a R$ 2,6682. O forte ingresso de capital externo de renda fixa ocorrido na semana passada sofreu uma diminuição ontem por culpa do aumento da aversão global a risco. Nada a ver especificamente com o risco Brasil.

A piora de projeções fundamentais como as de crescimento do PIB e comportamento da inflação, colhidas pelo Banco Central para confecção do seu boletim Focus junto a uma centena de instituições, não deve ser interpretada como uma falta de fé na nova política econômica, fundamentada no disciplinamento fiscal. Trata-se ainda de resquícios da herança da gestão anterior, calcada em políticas anticíclicas destinadas a amortecer choques externos, mas que resultaram na desorganização das finanças públicas. Apesar das estimativas algo deterioradas, perdura certo otimismo entre os analistas. Para eles, as políticas corretivas podem fazer com que os indicadores piorem, um efeito inevitável da limpeza da casa fiscal, antes de a economia começar a melhorar como resultado final delas.

As três principais estimativas de IPCA do Focus vieram mais altas no boletim divulgado ontem pelo BC. Este mês o índice oficial de inflação deverá subir 1,05%, ante 0,97% na edição passada da pesquisa. Para os próximos 12 meses, a estimativa avançou de 6,60% para 6,66%. E, para o acumulado de 2015, de 6,56% para 6,60%. Esse ajuste não traz em si o recado de que, na visão dos economistas, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não conseguirá entregar o objetivo de superávit primário equivalente a 1,2% do PIB. Significa que, por enquanto, as instituições não estão completamente seguras de que a equipe econômica terá respaldo total do Palácio do Planalto para fazer as mudanças necessárias. Por isso, a cautela.

Por enquanto, não acreditam que o equilíbrio das contas públicas será suficientemente extenso e rápido a ponto de desencadear a retomada da confiança empresarial ainda este ano. Por esta razão, a projeção de expansão do PIB foi revista de 0,50% para 0,40%. De uma coisa o mercado tem certeza: se a economia não se recuperar, não será por culpa do Banco Central. Os economistas mantêm há cinco semanas estabilizada em 12,50% a expectativa de taxa Selic para o fim do ano. E haveria folga inflacionária suficiente para o Copom reduzir o juro básico a 11,50% ao término de 2016.

O pregão de juros futuros da BM&F não está ainda inteiramente convencido disso. Embora a curva a termo dos DIs futuros tenha desistido de precificar uma Selic acima de 13%, como estava fazendo em meados do mês passado, suporta ainda uma taxa na casa dos 12,75%. Por esse prognóstico, o Copom manteria o ritmo de alta de 0,50 ponto, elevando a Selic de 11,75% para 12,25% em sua reunião da semana que vem. E depois diminuiria a intensidade da alta para 0,25 ponto nas duas reuniões seguintes, as de 4 de março e 29 de abril. O pregão da BM&F equilibra-se entre variáveis assimétricas: precisa incorporar aos preços os momentos de valorização do dólar frente ao real — cujos efeitos são deletérios à inflação, mas, ao mesmo, suavizá-los quando há simultaneamente, como ontem, uma queda nas taxas longas americanas. Se os juros de longo prazo caem nos EUA por força de uma ampliação da liquidez, deslocamento acompanhado por um declínio nos preços do petróleo, o risco de um aperto monetário torna-se remoto e mais distante. E são as decisões do Federal Reserve (Fed) que terão o poder de afastar com maior intensidade os investidores globais dos mercados emergentes.

Os contratos futuros de juros não conseguiram ontem evitar o contágio da aversão mundial a ativos de risco. Passaram toda a semana passada ignorando os temores suscitados pela baixa do petróleo e das commodities metálicas, mas ontem não teve jeito. A taxa para a virada do ano subiu de 12,68% para 12,75%, enquanto que a do contrato com vencimento em janeiro de 2017 avançou de 12,47% para 12,58%. O contrato longo preferido dos fundos globais, para janeiro de 2021, fechou a 12,17%, de 12,05% na sexta-feira.

Últimas de _legado_Notícia