US$ 3,2 bi lubrificam tesoura

Espera-se que antes que a bola de neve da austeridade provoque uma crise social, a confiança demonstrada em Davos já se traduza em novos investimentos produtivos

Por O Dia

A promessa feita ontem pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy a executivos globais reunidos em almoço no fórum de Davos de que o ajuste fiscal será para valer derrubou os juros futuros de vencimentos mais distantes negociados na BM&F. Os DIs longos são os que aferem o grau de credibilidade e risco de uma política econômica. A taxa para janeiro de 2021 cedeu de 11,80% para 11,71%, aprofundando a negatividade da curva a termo de juros. Quando mais negativa a curva, mas crível é a política econômica, sinal de que o país não precisará no futuro praticar taxas básicas exageradamente elevadas. O dólar caiu pela mesma razão. O real foi ajudado ainda pela expectativa de expansão da liquidez global. A moeda americana fechou cotada a R$ 2,6066, em baixa de 0,32%.

Enquanto o ministro Levy saboreia lá fora os primeiros louros de sua política conservadora, o Copom está numa enrascada. Como o ajuste fiscal até agora anunciado se concentra no aumento de impostos e não no corte de gastos correntes e investimentos públicos, o seu primeiro efeito é a ampliação das pressões inflacionárias. Levy está empurrando o problema da inflação para o BC. Só no segundo tempo, quando a contração fiscal, ao deprimir a economia, vier a amordaçar o IPCA é que o ajuste de Levy passará a ter um impacto desinflacionário. Até lá, tome juro alto para impedir que a elevação dos impostos e o tarifaço sejam transmitidos em cascata para o conjunto de preços da economia.

Foi o que o Copom fez ontem à noite. Por meio de um comunicado lacônico, do qual extirpou as referências à “parcimônia” e aos efeitos cumulativos e defasados de todo o movimento de aperto já realizado, elevou a Selic em 0,50 ponto, de 11,75% para 12,25% — uma decisão já amplamente combinada com o mercado. Não disse nada sobre o futuro. Se o BC repetir na ata, a ser publicada na próxima quinta-feira, que fará “o que for necessário” para trazer o IPCA à meta central de 4,5% no final de 2016, os analistas podem entender que nova elevação de 0,50 ponto poderá estar sendo contratada.

O resultado é mais recessão. Esta reduzirá a arrecadação federal, exigindo mais aumentos de impostos (concomitantemente a mais cortes de gastos), o que adicionará pressão no IPCA e na Selic. Espera-se que antes que a bola de neve da austeridade provoque uma crise social, aquela confiança demonstrada em Davos já se traduza em novos investimentos produtivos capazes de elevar a demanda e encorajar a atividade.

O capital estrangeiro não apoia Levy apenas retoricamente. Na semana passada, azeitou as tesouras fiscais do ministro com US$ 3,2 bilhões. O expressivo ingresso de capital financeiro externo ocorrido na semana passada quase foi suficiente para zerar o déficit registrado no acumulado do ano até o dia 9. Na primeira semana cheia de 2015 parecia que os investidores estrangeiros tinham rompido relações com o Brasil. Tanto é que, nos primeiros seis dias úteis do mês, a balança cambial amargou pesado déficit de US$ 2,405 bilhões. Este cenário de crise dissipou-se completamente na semana passada. O BC divulgou ontem o fluxo referente ao período de 12 a 16, e o saldo foi bem melhor do que se imaginava. Os executivos esperavam um superávit, já que as mesas de câmbio contabilizavam significativas entradas diárias de investidores externos, mas nem tanto.

Na semana passada, a conta financeira — por onde transitam os dólares referentes a aplicações em carteira de ações e renda fixa, investimento estrangeiro direto (IED), remessas de lucros e pagamento de juros — exibiu uma entrada líquida (diferença do que saiu e do que entrou) de nada menos que US$ 3,224 bilhões. Esse aporte só não engoliu aquele déficit de US$ 2,405 registrado até o dia 9 porque a conta comercial foi negativa em US$ 914 milhões. Mesmo assim, o saldo líquido da semana passada foi bem vistoso, de US$ 2,31 bilhões.

Os investidores estrangeiros estão voltando por causa de dois fatores complementares. Na ausência de um deles, o outro não teria, sozinho, força de propulsão. O primeiro é a expectativa generalizada de que as políticas monetárias continuarão frouxas nos EUA, Europa e na Ásia. Há que se buscar rentabilidade em outros lugares. Por que não no Brasil, país que paga o segundo maior juro real do mundo e que não enfrenta tantos problemas quanto a campeã Rússia? O segundo é doméstico: o robusto ingresso líquido de capitais financeiros é um solene aval externo às primeiras medidas de austeridade fiscal tomadas pela nova equipe econômica de Dilma Rousseff. Por afastarem o temor de rebaixamento da nota de risco de crédito da dívida brasileira, são providências que asseguram a manutenção da liquidez e confiabilidade dos títulos públicos.

Esse tipo de investidor não está muito preocupado com crescimento ou inflação. Só tem duas ordens de inquietação: o nível nominal da taxa básica de juros e as perspectivas de oscilação da taxa de câmbio. O juro nominal – 12,50%, quando o BC parar de subir a Selic, em março — é excelente. O problema é a depreciação cambial. Se o dólar subir do atual patamar de R$ 2,60 para R$ 2,80 no fim do ano, essa alta de 7,69% será descontada do juro nominal de 12,5%, resultando num ganho líquido de 4,47%. Nada mal. Mas se o dólar for a R$ 2,95, toda a rentabilidade fornecida pela Selic será tragada.

É por isso que, se o Federal Reserve (Fed) resolver apressar seus planos de normalização monetária, a ponto de desencadear uma corrida de realocação global de portfólios, o nosso Copom terá de subir a Selic para convencer os investidores estrangeiros a permanecer aqui, ajudando a financiar o rombo em transações correntes do balanço de pagamentos. Terá de fazer isso mesmo se a contração fiscal já estiver puxando o IPCA para baixo. Irá agravar a recessão, mas garantirá o financiamento do balanço de pagamentos. Tem de fazer um choque de juros para atração de capitais externos porque o dólar teria de ir muito além desses R$ 2,95 para estimular as exportações e frear as importações a ponto de a balança comercial exibir um superávit capaz de dispensar a ajuda dos capitais de investimento.

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