As águas austeras de março

As mesmas estratégias ortodoxas boas para épocas de expansão global podem ser desastrosas em épocas de estagnação e deflação. A política só é boa quando aplicada no momento certo e na dose correta

Por O Dia

O mercado financeiro conta os dias para a chegada das águas de março. Janeiro termina esta semana e se não chover nos próximos dois meses o suficiente para recompor o nível dos reservatórios, pode se concretizar a ameaça de um racionamento de energia elétrica. Se a capacidade dos reservatórios, hoje entre 17,2% e 17,4%, cair abaixo de 10%, o racionamento será inevitável. O corte planejado de energia atende por um outro nome: recessão econômica. Entre as palavras que mais assustam o investidor estrangeiro — crise cambial, déficit fiscal, inflação — a recessão ocupa o topo. O país está em vias de mergulhar numa grave crise econômica, não é hora de a equipe econômica brincar de austeridade econômica.

Os ministros Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini parecem querer resolver em dois trimestres todo o estrago do desenvolvimentismo inconsequente executado de 2012 a 2014. Seria possível se existisse um modelo energético estruturalmente eficiente e se as forças da natureza não conspirassem contra. Seria possível se o mundo estivesse vivendo um período de prosperidade, disposto a comprar as commodities brasileiras e a investir aqui produtivamente. Seria possível se a política de ajuste liberal-conservadora fosse inteligente e inovadora, distribuindo proporcionalmente por todos os setores da sociedade, conforme à força de cada um, o ônus da arrumação.

Os defensores ideológicos das políticas austeras nutrem o dogma de que toda política desenvolvimentista é ruim, errada intrinsecamente. Não é assim. Nos últimos dois anos, houve um persistente e insensato incentivo à demanda. Já em 2013 estava claro que a estratégia não estava funcionando. Mas o governo dobrou a aposta. O resultado está sendo conhecido agora: todo indicador macroeconômico relevante mostra um desconcertante recorde negativo histórico. Na sexta-feira, saiu o déficit em transações correntes de 2014 — 4,17% do PIB, o pior desde 2001. Na próxima sexta, será divulgado o déficit primário das contas públicas — pode chegar a US$ 20 bilhões, aumentando a necessidade de esforço fiscal em 2015. Não se entende até agora como o professor da FGV-SP, Guido Mantega, caiu nessa esparrela. O economista tem capacidade e condições de executar qualquer política econômica, da mais austera à mais frouxa, mas sempre com responsabilidade e astúcia. Mantega é um profissional tarimbado, mas a política de 2013 e 2014 foi um estranho experimento amadorista.

Da mesma forma, há políticas austeras profissionais ou amadoras. As mesmas estratégias ortodoxas boas para épocas de expansão global podem ser desastrosas em épocas de estagnação e deflação. A política só é boa quando aplicada no momento certo e na dose correta. Exagerar no conservadorismo quando o PIB, ainda sem precificar a ameaça de racionamento, já deverá mostrar dois trimestres sucessivos de contração é a outra face do amadorismo.

A “chair” do Federal Reserve (Fed), Janet Yellen, de amadora não tem nada. Havia uma enorme pressão dos mercados para que os 12 integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) mudassem o “forward guidance” da política monetária americana na última reunião de 2014, em 17 de dezembro. O mercado queria que o “guidance” vigente — “tempo considerável” entre o fim do afrouxamento quantitativo, em outubro, e o início da alta do juro básico — fosse substituído por outro que sinalizasse uma urgência maior na normalização das condições monetárias. Pois o Fed fez isso, introduzindo um novo “guindance” — “ser paciente” na definição do momento exato para a alta —, mas sem retirar do comunicado o “tempo considerável”. Satisfez o mercado, acalmando-o, mas sem alterar em nada o tom “dovish” da maioria do Fomc. O tempo lhe deu razão, o mundo piorou, os EUA continuam crescendo sem gerar inflação e o instante crítico do descongelamento da “fed funds rate” foi empurrado sutilmente para mais perto do fim do ano. Nesta quarta-feira, o Fomc terá a sua primeira reunião de 2015. E não há nenhuma expectativa de mudança de orientação monetária.

O comunicado emitido pelo Copom às 19h25 de quarta-feira para dar conhecimento público de sua decisão de subir a Selic de 11,75% para 12,25% mostra que o Banco Central não é nenhum curioso. O redator escreveu somente isto: “Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 12,25% a.a., sem viés”. Não sugeriu absolutamente nada sobre o próximo passo, o que vai dar em 4 de março, quando as previsões pluviométricas para o mês já forem um pouco mais consistentes. O seu problema é que a ata desse encontro, que será divulgada na próxima quinta-feira, não poderá ficar tão em cima do muro quanto o “statement”. O BC vai ter de ser mais enfático sobre o que está achando dos impactos de curto e médio prazos sobre o IPCA das medidas fiscais de Levy, vai ter de avaliar o efeito sobre o câmbio do afrouxamento quantitativo do BCE (de uma forma subliminar, já que o pacotão foi baixado depois da reunião do Copom e, teoricamente, a ata não sabe que ele foi feito) e vai ter de sopesar (também de maneira subentendida nas entrelinhas) as consequências das decisões do Fomc tomadas na véspera. Mas, também para a ata, há de se evitar o entusiasmo dos neófitos.

O pregão de juros futuros da BM&F também não parece ter percebido a gravidade da situação. E opera o trivial baseado na crença de que a austeridade presente vai trazer a prosperidade no futuro. Na sexta-feira, as taxas curtas ou subiram ou permaneceram estáveis, enquanto recuavam as longas. Para a virada do ano, o DI foi mantido em 12,68%. Já para janeiro de 2021 cedeu de 11,82% para 11,67%. O câmbio mostra-se meio perdido entre a crise interna e o afrouxamento do BCE. Após desvalorizar-se 3,07% no acumulado das três sessões anteriores, o dólar amenizou o seu otimismo e subiu 0,56% na sexta-feira, cotado a R$ 2,5889.

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