Brasil exporta pragmatismo

O mercado futuro de juros da BM&F sabe que o Copom não vai radicalizar em sua política monetária para evitar o constrangimento trazido pelo furo da meta inflacionária

Por O Dia

Os mercados financeiros globais reagiram ontem de forma tranquila à vitória do partido de esquerda Syriza nas eleições gregas. Nem a aliança firmada por ele com uma agremiação menor, de direita, que lhe assegura a maioria parlamentar e a governabilidade, insuflou tensão às mesas de operações. Mesmo a junção dos dois extremos do espectro político grego, irmanados na sua postura eurocética e no repúdio ao programa de austeridade impingindo pela Troika (Comissão Europeia, BCE e FMI), pareceu inquietante aos investidores. O motivo é simples: ganhar uma eleição com um discurso antiortodoxia é fácil, o difícil é baixar medidas condizentes com ele quando a Grécia contraiu junto à Troika nos dois últimos anos dívida de € 321,7 bilhões. Os mercados apostam que lá, como aqui, prevalecerá o “pragmatismo”, palavra edulcorada usada pelos analistas para substituir outras mais ultrajantes, como rendição, submissão, capitulação e traição.

As bolsas de valores da Europa praticamente ignoraram a possibilidade de contágio grego sobre outras economias da zona do euro. Com exceção do pregão de Atenas, que caiu 3,2%, os demais mostraram comportamento otimista. O índice geral FTSEurofirst 300 subiu 0,58%, mesma direção assumida pelos três maiores pregões: Londres valorizou-se 0,29%, Frankfurt avançou 1,4% e Paris, 0,74%. A grande dúvida consistia no desempenho dos mercados teoricamente mais suscetíveis a uma crise de confiança do euro com epicentro na Grécia, mas a bolsa de Lisboa subiu 1,12%, a de Madri, 1,08% e a de Milão, 1,15%. O euro abriu em pesada desvalorização, mas recuperou-se à tarde. O fato é que a situação atual da zona do euro é bem diferente da crise de 2012, quando estava em jogo a fragmentação da moeda única. E também porque a região está às vésperas do início do programa de afrouxamento quantitativo do BCE. A irrigação da economia com os € 60 bilhões mensais do programa também fluirá pelos canais gregos, lubrificando uma renegociação da dívida que permitirá ao Syriza salvaguardar as aparências eleitorais.

Isso é mais complicado no caso brasileiro. Os mercados domésticos, por sua sofisticação e vasta liquidez, são incontentáveis. Pedem sempre mais. Os índices pioraram ontem levemente menos por receio de que o novo gabinete grego possa reeditar o risco de ruptura do euro e mais como pressão para que a presidente Dilma Rousseff assuma como sua, na reunião ministerial de hoje, a nova política econômica. O mercado quer ter certeza de que: 1) Joaquim Levy ficará até 2018; 2) a carta de que aparenta dispor para efetuar as correções que se fizerem necessárias permanecerá imaculadamente branca pelos próximos quatro anos; 3) Dilma estará com ele em todos os momentos, mesmo nos mais críticos, quando for alvo da artilharia amiga. Ainda bem que não prosperou a crise aberta por declaração atribuída ao ministro por reportagem do Financial Times, em que supostamente teria anunciado a intenção de reduzir benefícios sociais, notadamente o seguro-desemprego. O próprio Levy desmentiu a frase que lhe foi creditada. Prevaleceu a versão de que o jornal errou.

As novas projeções inflacionárias do Boletim Focus não devem ser entendidas do ponto de vista negativo, como uma deterioração das expectativas. Pelo contrário, elas melhoraram. O ajuste de uma vez no prognóstico de IPCA acumulado este ano, de 6,67% para 6,99%, resulta de uma constatação meramente realista: as tarifas públicas, sobretudo a de energia elétrica, terão de ser corrigidas inevitavelmente e nem a austeridade fiscal, nem o aperto monetário conseguirão impedir que a inflação supere este ano o teto da meta inflacionária, de 6,5%. O único jeito para evitar o dissabor da carta formal do Copom explicando as razões do não cumprindo do seu mandato legal é a mudança de alvo, criando-se uma meta ajustada mais alta. Esse é um fato da vida. A expectativa começa mesmo em 2016 e, para o ano que vem, os economistas já se mostram um pouco mais risonhos, tanto é que a previsão de IPCA recuou de 5,70% para 5,60%. Ainda não são os 4,5% prometidos pelo BC, mas já é um começo.

O mercado futuro de juros da BM&F sabe que o Copom não vai radicalizar em sua política monetária para evitar o constrangimento trazido pelo furo da meta inflacionária. O “pedido de desculpas” já está no preço e não arranha a credibilidade da autoridade monetária. Seria uma irresponsabilidade elevar a taxa para algo entre 14% e 15% no momento em que a economia, já de cama, escava o colchão. Pode ser considerada até francamente otimista a nova projeção de alta do PIB para este ano do Focus, de 0,13%, ante 0,38% na semana anterior. O exagero na dose monetária em meio a um ajuste recessivo de curto e médio prazo das extravagâncias do passado não combina com o tom confiante do BC para o cenário de 2016.

As taxas dos DIs subiram ligeiramente ontem, para manter a sintonia com a valorização do dólar. O contrato para a virada do ano avançou de 12,68% para 12,70%, enquanto a taxa para janeiro de 2021 passou de 11,67% para 11,69%. O importante é que a curva futura de juros mantém-se negativamente inclinada. Nos últimos negócios de ontem, o pregão já ensaiou um movimento de queda para o caso de a presidente Dilma endossar publicamente hoje a política conservadora de Levy – hipótese tida como provável nos meios políticos de Brasília. Foi por esta mesma razão que o dólar perdeu ímpeto no fim do dia. De manhã, subiu até 0,80%, com a cotação superando o ponto mágico dos R$ 2,60. Mas encerrou a R$ 2,5905, com valorização mínima de 0,06%.


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