Por diana.dantas
A segunda reunião do ano do Copom do Banco Central, agendada para 4 de março, na prática já aconteceu ontem. A ata da primeira reunião de 2015, realizada na semana passada, indicou claramente que na seguinte o ciclo de alta da Selic deverá ser encerrado com um ajuste de 0,25 ponto. A taxa seria congelada em 12,50% por alguns meses e começaria a cair no fim do ano. Para sinalizar o fim do ciclo, o BC suprimiu os dois “guidances” que asseguravam o prosseguimento do aperto. Desapareceram tanto o “especialmente vigilante” quanto o “tudo o que for necessário”. A ata evidencia que o cenário (inflação, atividade, política fiscal e crise externa) já está bem mais nítido para o Copom. Mas toda a argumentação exposta agora poderia muito bem ter sido utilizada para justificar uma decisão de interromper o ciclo quando a Selic estava em 11,75%.
O BC está vendo o seguinte: 1) Globalmente, a conjuntura é de desinflação. O mundo está exportando desinflação para o Brasil. Mesmo que a Petrobras não reduza os preços os combustíveis (e não vai baixar porque a estatal atravessa a maior crise de sua história), a economia receberá os reflexos do desabamento do petróleo e das commodities; 2) A política fiscal contracionista ampliará a potência da política monetária. Um juro alto se torna devastadoramente elevado em presença do torniquete nas finanças públicas; 3) O PIB já está evoluindo (melhor seria dizer, involuindo) bem abaixo do seu potencial; 4) O crédito, já moderado, sofrerá com as restrições às linhas subsidiadas.

A inflação de 2015 — que explodirá este mês (IPCA previsto em 1,2%) e no próximo (1%), com o acumulado de 12 meses rondando os 7% por alguns meses — é claramente de oferta. A política monetária austera só consegue ter eficácia no combate a uma inflação de demanda. Quando sua natureza é de oferta, não há o que fazer. Ou melhor, há assim: puxar violentamente a Selic, instalar recessão e desemprego brutais, até que a demanda se reduza ao nível diminuto da oferta. Um cenário de terra arrasada.

O Copom precisa encerrar logo o ciclo de alta em face também da defasagem da política monetária. Uma alta feita hoje irá começar a surtir efeito em no mínimo seis meses, lá no meio do ano. Ou seja, a elevação de 11,75% para 12,25% realizada na semana passada só irá atingir a economia em julho, quando ela já estará com a língua de fora por causa das restrições fiscais e do aumento das tarifas públicas. É também por causa desse retardo que o Copom não deveria ter subido a Selic no dia 21.
Ele não vai estancar imediatamente o movimento de alta por causa dos IPCAs acima de 1% de janeiro e fevereiro, e porque viu “sinais benignos vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo”. Ou seja, parte da sociedade ainda não percebeu que a situação é gravíssima. Mas a ficha vai cair. Pelo fato de que “os avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes”, vai fazer mais uma alta em março.
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Alguns analistas enxergaram uma contradição entre esta frase e outra na qual assegura “que o cenário de convergência da inflação para 4,5% em 2016 tem se fortalecido”. Não há contrassenso, apenas excesso de pruridos monetários. Houve nesta ata uma notável alteração comparativamente à anterior. Na de dezembro, havia vago compromisso de fazer convergir o IPCA para o centro da meta em algum momento do “horizonte da política monetária”. Era tudo meio incerto e nebuloso. Agora, o BC mostra certeza de que a inflação, ainda este ano, entrará “em longo período de declínio”.

Quem viu nesta ata indícios de que o BC voltou a ser leniente no combate à inflação, por isso não merecedor de credibilidade, uma vez que aparentemente já jogou a toalha, desistindo de tentar evitar que o IPCA rompa no acumulado do ano o teto de 6,5% da banda inflacionária, está agindo especulativamente de má-fé. Foi o que fizeram ontem players posicionados em contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2021. Enquanto as taxas mais curtas se mantiveram estáveis (em 12,67% para a virada do ano e em 12,34% para janeiro de 2017), o DI para janeiro de 2021 avançou de 11,74% para 11,78%, diminuindo a inclinação negativa da curva de juros.

O dólar disparou ontem 1,37%, cotado no fechamento a R$ 2,6121. Por uma série de razões, a começar pela valorização internacional da moeda. Os analistas teimam na tese de que o Federal Reserve (Fed) encontrará motivos para subir a taxa básica de juros lá pelo meio do ano. Essa expectativa retórica não se materializa no mercado secundário de títulos do Tesouro americano. Os rendimentos persistem muito baixos, embora o juro da T-Note de 10 anos tenha subido ontem de 1,73% para 1,76%. Para o avanço do dólar contribuiu o comentário de que os investidores estrangeiros irão se revoltar com a intenção do BC de acabar logo com o ciclo de alta da Selic. Esse argumento se esquece do fato de que, enquanto o Brasil ainda não parou de subir juro, em outros emergentes ensaiam um ciclo de baixa. Comparativamente, se sobressaem cada vez mais as vantagens brasileiras.

Para sustentar a elevação de ontem, muito escorada na teia especulativa tecida nos pregões de derivativos cambiais da BM&F visando ao fechamento, hoje, dos contratos de janeiro, corretores se socorreram na tese de que o BC pode reduzir em fevereiro a quantidade de swaps cambiais ofertada para a rolagem dos US$ 10,44 bilhões em contratos antigos que vencerão no dia 2 de março. Ainda é cedo para fazer tal suposição.
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