Por diana.dantas

Os mercados financeiros operaram ontem menos tensos aqui e no exterior. Os investidores globais se mostraram mais propensos a tomar riscos depois que o novo governo grego apresentou plano de renegociação da dívida externa pouco condizente com a autodefinição “esquerda radical” inscrita no nome do partido no poder.

Já predispostos a reverter o negativismo dos últimos dias por conta da alteração de humor nas praças globais, os mercados domésticos festejaram as informações segundo as quais finalmente a presidente Dilma Rousseff havia concordado em substituir o comando da Petrobras. Após quatro pregões seguidos de valorização, durante os quais acumulou alta de 5,63%, o dólar cedeu ontem 0,78%, vendido no fechamento a R$ 2,6940. Os juros futuros trilharam o mesmo caminho na BM&F, premidos também pelo desastroso resultado da produção industrial no ano passado.

No início da tarde, desmentido da Secretaria de Imprensa da Presidência da República à notícia de que Graça Foster já teria sido comunicada do seu afastamento, introduziu uma ponta de dúvida no câmbio e retirou força do movimento de baixa. A zeragem de posições compradas foi interrompida e o tamanho da queda foi reduzido para 0,15%. Mas na meia-hora final do pregão prevaleceu o entendimento de que a negativa foi apenas protocolar.

E piscou nas telas a notícia de que a dirigente da Petrobrás estaria reunida com a presidente Dilma. E o dólar chegou a tombar para até R$ 2,6885, ignorando completamente o rebaixamento do rating da estatal pela agência Fitch. Como na Moody’s, agora também pela classificadora inglesa a companhia merece a nota mínima que assegura o grau de investimento. O rating da Petrobrás vincula-se por osmose à nota soberana da dívida brasileira. É por isso que a perspectiva de reversão no quadro de crise infinda da petroleira não atrai investidores externos interessados em adquirir apenas suas ações, mas também títulos públicos brasileiros.

Com liquidez muito baixa, o mercado de câmbio operou no giro rápido, no aguardo de confirmações oficiais. A demora da Presidência em tomar decisões evidentes por si mesmas, só agindo quando o fato está mais do que consumado — caso em que também se enquadram as tentativas desajeitadas de aproximação com o deputado Eduardo Cunha depois de concretizada a derrota do governo, quando teria sido bem menos onerosa aos cofres públicos uma composição prévia – exaspera os mercados. E tira força das convicções fiscalistas propaladas no segundo mandato.

Mas a boa acolhida internacional ao plano grego impossibilitava completamente uma quinta alta consecutiva do dólar. Ao invés de atitudes radicais, como o não reconhecimento de parte ou do total da dívida e ameaças de rompimento com a comunidade do euro, esperadas pela Troica (Comissão Europeia, BCE e FMI), pelas instituições e investidores, o plano de reestruturação apresentado pelo Syriza foi recebido como agradável surpresa. Nem um prosaico pedido de perdão de parte da dívida foi registrado. O governo grego pretende alongar a dívida por meio da troca de títulos antigos por outros cujos rendimentos estariam condicionados à obtenção de determinadas metas de crescimento econômico. No fundo, é o que todo credor quer: o reconhecimento da dívida e o fortalecimento do devedor para que tenha, mesmo num prazo maior, condições de honrá-la. O impasse agora se tornou mais leve e negociável. A Troica acredita que os gregos só poderão honrar seus compromissos se economizarem através de políticas austeras. O Syriza rejeita a ortodoxia e diz que poderá quitar o carnê com expansão econômica. Se a esquerda tiver sucesso abrirá uma nova frente de política econômica à disposição de outros países da periferia do euro, e rachará as convicções germânicas.

Os mercados globais comemoraram a distensão grega. O fluxo avassalador de dinheiro em direção ao mercado secundário de títulos do Tesouro americano diminuiu e as taxas puderam estancar o seu longo declínio. O rendimento da T-Note de 10 anos avançou de 1,67% para 1,75%. E as bolsas europeias subiram, num dia que amanheceu ingrato, com a divulgação de uma deflação ao produtor na zona do euro de 1% em dezembro, ante previsão de -0,7%, elevando a deflação no acumulado de 2014 para 2,7%. Os US$ 60 bilhões que o BCE começará a liberar no mês que vem virão em boa hora, e devem agilizar o “swap” dos papéis gregos. Puxado pelas ações de bancos gregos, o índice FTSEurofirst 300 valorizou-se 0,75%. Aliviada, a bolsa de Atenas saltou 11,3%. Londres e Paris celebraram discretamente, com altas de 1,32% e 1,09%, respectivamente, enquanto os pregões de países que podem seguir o exemplo grego anteciparam o carnaval: Madri saltou 2,62%, Milão 2,57% e Lisboa, 1,75%. Frankfurt desdenhou, com avanço de apenas 0,58%.

O pregão de juros futuros da BM&F não teve ontem onde se agarrar para insistir na onda de alta. De todos os lados brotavam justificativas para a queda: desvalorização do dólar, distensão na Europa e nova surpresa negativa com o ritmo da economia interna. Os analistas previam uma queda de 2,5% na produção industrial de dezembro, mas ela foi de 2,8%. No ano passado, a retração da indústria bateu em 3,2%. Só não foi pior que o tombo de 7,1% sofrido na recessão de 2009. E as taxas dos DIs caíram em bloco. O contrato com vencimento na virada do ano cedeu de 12,85% para 12,76%, enquanto que a taxa para janeiro de 2021 recuou de 12,13% para 12,02%.


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