Susto com rejeição ao pacote

Além de assustada com as ameaças de racionamento de energia elétrica e água e a magnitude da corrupção na Petrobrás, a população rejeitou o plano de austeridade fiscal de Joaquim Levy

Por O Dia

Os mercados de câmbio e juros futuros se retraem em meio ao fogo cruzado disparado de fora e de dentro. Internamente, foi pesado o golpe desferido pela pesquisa Datafolha de domingo sobre o ânimo dos investidores. Além de assustada com as ameaças de racionamento de energia elétrica e água e a magnitude da corrupção na Petrobrás, a população rejeitou o plano de austeridade fiscal do ministro da Fazenda Joaquim Levy. Se 55% acham que a situação vai piorar, se 81% esperam por inflação maior e se 62% acreditam no aumento do desemprego, o “choque de confiança” aplicado pelo ministro fracassou. Se a maioria da sociedade confia na promessa de que as medidas ortodoxas do presente irão proporcionar um futuro melhor, a tendência é “marcar a mercado” o plano econômico: a confiança em dias risonhos se traduz em otimismo aqui e agora. Não é o que acontece.

Se a população está pessimista, seus atos serão de defesa. Passará a consumir o que for estritamente necessário. O que era desaceleração sujeita a recomposição nos últimos trimestres do ano vira recessão aberta e continuada. O cenário negativo desencorajada consumo e investimento, as duas pontas da demanda. Ao invés de despertar o “espírito animal” dos empresários, as medidas da Fazenda exacerbam uma conjuntura mais condizente com o instinto primitivo de um coelho. E o governo não pode compensar a escassez de consumo e investimento privados com consumo e investimento públicos em face da crise das finanças públicas. O resultado é queda de arrecadação federal. Como o governo fará para obter este ano o compromissado superávit primário de 1,2% do PIB? Mais elevações da carga tributária? Tal sobretaxação aumentaria o pessimismo e a recessão, promovendo mais um giro na roda da baixa arrecadação. É insolúvel.

O que deveriam fazer os players do mercado futuro de juros da BM&F diante de tal quadro desolador? Reduzir as taxas dos DIs. O movimento de baixa não acontece porque está todo mundo querendo assumir a ponta pós-fixada dos contratos. Diminuiu a propensão de investidores em postar-se na ponta prefixada, pois têm medo da inflação. No DI futuro, as apostas são simples: o agente pós acredita que o Banco Central terá de subir a Selic mais do que vem sendo precificado pela estrutura a termo das taxas de juros. O pré ganha se o BC avançar a Selic menos do que está embutido na curva. A ponta pós continua puxando os DIs para cima apesar de todas as bandeiras desfraldadas pelo BC indicarem ser muito improvável uma elevação da taxa básica para além dos 12,50%. Não só porque a economia se encaminha para uma recessão como também pelo fato de que as recentes mudanças na diretoria da autoridade tornaram mais “dovish” o perfil do Copom. Isso poderia servir de estímulo para uma maior demanda pela posição pré. Só que este investidor está muito assustado com a inflação, mais propriamente, com a possibilidade de um descontrole inflacionário decorrente de três choques de custos, contra os quais a política monetária tem reduzida eficácia: câmbio, tarifaço e alimentos.

Dada a baixa oferta de players dispostos a assumir a ponta pré, os juros sobem na BM&F. Enquanto a taxa curta, com liquidação na virada do ano, sofreu pequena correção, de 12,84% para 12,88%, já que mais atrelada à política monetária de 2015, os juros longos dispararam para refletir a percepção do aumento de risco. O contrato para janeiro de 2017 pulou de 12,69% para 12,80%, e o para janeiro de 2021 saltou de 12,38% para 12,52%.

A inquietação dos investidores com os rumos da inflação se exacerba pela constatação de que a depreciação da taxa de câmbio ainda não chegou a um IPCA que já roda acima dos 7% ao ano. Vai chegar, quando e com qual força? A tendência é que chegue, diluído, com as empresas compensando a alta do dólar com o corte de outros custos. Após aberta a planilha do IPCA de janeiro, divulgado na sexta-feira, verificou-se que os preços dos “tradeables” desaceleram pelo quarto mês consecutivo. Isso indica, segundo o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, que “a alta do dólar não atingiu ainda tais preços e que a atividade em queda pode ter começado a pressioná-los”. Os “tradeables” frearam de 0,60% em dezembro para 0,28% em janeiro. No acumulado de 12 meses, de 6,07% para 5,67%.

Ocorre que o câmbio está de novo mudando de patamar nominal. Nos últimos oito pregões, o dólar subiu em seis e ficou estável em dois. Pulou de R$ 2,5706 no dia 27 de janeiro para R$ 2,7774 ontem. A valorização no período foi de 8,04%. As empresas que ainda têm estoque de artigos e componentes importados tratam de contabilizá-los pelo preço antigo pois a demanda não sanciona repasses. E quando o estoque acabar? O dólar encerrou quase estável ontem — no fechamento a variação foi negativa em 0,03% --, mas já começou a flertar com o nível de R$ 2,80, previsto pelas cem instituições que participam do Focus apenas para o fim do ano. Na máxima do dia, durante a manhã, bateu em R$ 2,7917. Perdeu fôlego à tarde por causa da alta do petróleo. A retração do investidor foi estampada pelo baixo giro de negócios, de US$ 436 milhões, menos de um terço do volume negociado em uma sessão normal.

Para atemorizar ainda mais os investidores, à artilharia doméstica juntaram-se ontem torpedos vindos de fora. O medo do risco recebeu impulso da China e da Grécia. As importações chinesas tombaram 19,9% em janeiro, quando os analistas previam modesta queda de 3,2%. As compras feitas pelos chineses nos seus tradicionais parceiros produtores de commodities (Brasil, Austrália, Rússia e África do Sul) puxaram a retração. Tudo indica que a China não conseguirá crescer este ano nem 7%. Mesmo assim ações de mineradoras e siderúrgicas subiram ontem na BM&F. É desconcertante como alguém ainda acredita na conversinha que sempre surge depois de um dado muito ruim na China de que o governo vai tomar medidas de estímulo ao crescimento, revertendo a situação. Sim, governo sempre adota uma providência ou outra, mas são todas insuficientes. E o PIB acaba crescendo menos que o projetado. O fato é que a China não pode turbinar a economia. Injetaria mais combustível num sistema financeiro que ameaça explodir a qualquer momento.

Da Europa, vieram sinais de radicalização da Grécia e de autoridades da zona do euro. A troica quer que, no dia 28, quando expiram os termos do atual programa de socorro, os gregos renovem o acordo sem mexer em nada na austeridade. E o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ratificou em discurso a rejeição ao programa atual e reforçou sua intenção de aumentar o salário mínimo. Ninguém parece disposto a ceder. A semana promete: amanhã haverá reunião de emergência dos ministros de finanças da eurozona para tratar da questão e, na quinta, Tsipras tem encontro com o seu avesso, Angela Merkel.



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