Por diana.dantas

A cada novo dia, o mercado financeiro constata que o que está ruim sempre pode piorar mais um pouco. Não parece haver fundo do poço para a crise brasileira — assim mesmo, genericamente, porque conjuga, na área econômica, recessão e inflação de 7%, déficit primário das contas públicas, crescente rombo em transações correntes, perspectiva de racionamento de energia, e, na área política, rebelião do Congresso contra os ajustes fiscais tidos como salvadores, feroz e robusta oposição legislativa e recorrentes ameaças de impeachment. Do lado do governo, silêncio e resignação. Já que é preciso batizar a crise brasileira, o mercado encontrou um nome ontem: governabilidade.

Se a crise é de governabilidade, as mesas de operações foram invadidas por rumores de rebaixamento do rating do país. O dólar disparou ontem 2,12%, cotado a R$ 2,8364, maior preço desde 1° de novembro de 2004. A razão primordial é o que está acontecendo aqui dentro mesmo. A conjuntura externa instável atrapalha, mas não está sendo o fator fundamental neste momento.

Se a China estivesse crescendo acima de 10%, se as commodities exportadas pelo Brasil mostrassem preços valorizados, se uma Europa unida caminhasse para a recuperação e se a retomada dos EUA fosse mais consistente, a crise interna poderia ser superada no espaço de um ano projetado pela Fazenda. O vento de proa soprado hoje de fora nem é violentíssimo, não é capaz de provocar turbulências e atrasos. Só que pega um Brasil com motores avariados, fuselagem esgarçada e pilotos aparentemente paralisados pelo excesso de problemas. Os passageiros estão em pânico e os investidores estrangeiros disputam paraquedas para ver que salta antes.

Os acontecimentos internacionais nem de longe justificaram uma depreciação cambial tão acentuada como a ocorrida ontem. Da China, veio mais um dado negativo, a diferença, desta vez, é que não suscitou a velha especulação de que, diante dele, são iminentes novas medidas de estímulo econômico. O índice de preços ao consumidor subiu, em termos anuais, 0,8% em janeiro (o nível mais baixo dos últimos cinco anos), quando o mercado apostava em alta de 1%. O índice ao produtor acusou deflação de 4,3% em janeiro, o 35° mês de deflação consecutiva. Não há inflação a ser combatida e, como todo mundo, o Banco do Povo vai reduzir os juros, mas isso não implica incentivo ao crescimento. Da Grécia, um sinal de distensão. Aparentemente, o Syriza concorda em dar prosseguimento à privatização do seu maior porto. Trata-se de evidência de que não é tão inflexível assim. Nos EUA, nova alta dos juros dos títulos públicos. A T-Note de 10 anos subiu ontem para 2%, quando estava em 1,93% na véspera e 1,82% na semana passada. Trata-se de uma prova de que amainou o movimento global de aversão a risco, e não necessariamente que o Federal Reserve (Fed) irá desistir de sua paciência monetária.

Por isso, o mercado de câmbio global comportou-se, com exceção das negociações envolvendo o real, sem alvoroços. O dólar subiu frente a uma cesta relevante de moedas emergentes, mas só contra o rublo e o peso mexicano conseguiu avançar mais de 1%. As altas foram de 1,42% no primeiro caso e de 1,04% no segundo. Contra a rupia indiana, avançou 0,27%, ante à moeda turca subiu 0,86% e frente ao dólar australiano ganhou 0,53%.

Foi singela a lógica dos investidores que ontem cobriram posições vendidas em dólar a qualquer preço e dos que, após saírem de posições em títulos públicos, compraram moeda para mandar para fora do país: se além da fornida oposição, o pacote tributário do ministro Joaquim Levy for desfigurado pelos aliados, a Fazenda terá de encontrar outros caminhos para conseguir cumprir a meta de superávit primário de 1,2% do PIB. Não poderá ser mais, pela ausência de sustentação parlamentar, pela via dos aumentos de impostos. Terá de cortar gastos correntes, investimentos e benefícios sociais, se quiser preservar o rating atual. Aí quem não vai querer é a presidente Dilma Rousseff. Se a presidente topar, as novas medidas fiscais irão aprofundar a recessão, palavra entre todas a mais maldita do dicionário do grande capital financeiro global.

Os juros futuros exageraram ontem na alta porque cresceu a possibilidade de o Copom manter, no encontro de março, a velocidade de alta da Selic no mesmo 0,50 ponto das duas últimas reuniões. Na reunião do G-20, o novo diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu Pereira, reabilitou a expressão “especialmente vigilante” retirada da última ata do Copom. Mas não dá para deduzir disso que o ritmo será repetido nas reuniões subsequentes. O fato é que os DIs futuros estão perdendo a conexão com a política monetária. A curva futura não reflete mais as prováveis decisões do BC. Os DIs não sobem porque a taxa de câmbio terá um efeito devastador sobre o IPCA. Ninguém sabe quanto da alta do dólar será repassada ao preço. Atualmente, não está chegando nada. Com a recessão aberta, será impraticável o repasse. A importação terá de se reduzir ao essencial.

Os DIs sobem sobretudo por causa da retração da ponta prefixada, onde gostam de se posicionar os investidores mais otimistas. Como nem com lupa se acha player otimista na BM&F, as taxas disparam. O contrato para a virada do ano pulou de 12,88% para 13,07%. E a taxa para janeiro de 2017 saltou de 12,80% para 13,02%. Se o pregão ainda tivesse a missão de precificar as próximas decisões do Copom, a Selic só pararia de subir um pouco depois dos 13%. Seria o melhor atalho para transformar uma recessão que hoje oscila entre 0,5% e 1%, dependendo do piorômetro particular de cada analista, para outra acima de 2%.

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