Dólar acampa em R$ 2,82

O BC, de braços dados com a Fazenda, parece ter um plano: corrigir este ano a distorção do câmbio historicamente sobrevalorizado, nem que para isso o IPCA fure o teto de 6,5% da banda inflacionária

Por O Dia

Após escalada praticamente ininterrupta nos últimos onze pregões, o dólar descansou num platô mais baixo ontem. Projetou-se montanha acima 11,81% no período e, sem visibilidade do cume, recuou ontem 1,85% e montou acampamento nos R$ 2,8209. Não deve desistir da ascensão até fincar bandeira entre R$ 3,00 e R$ 3,20. O Banco Central não vem colocando obstáculos à aventura. Quando se trata de política cambial, quem não impede, mais do que consente, deseja. O BC precisa de um câmbio real efetivamente desvalorizado, e não é tanto para equilibrar a conta corrente do balanço de pagamentos. Também é, mas o objetivo maior é reduzir o custo unitário do trabalho em dólar, uma das trincheiras fundamentais de resistência da inflação.

A autoridade confia que a recessão econômica não irá sancionar um “pass through” cambial expressivo. Nada que mais algumas altas de 0,50 ponto da Selic não resolvam. O BC, de braços dados com a Fazenda, parece ter um plano: corrigir este ano a distorção do câmbio historicamente sobrevalorizado, nem que para isso seja preciso permitir que o IPCA fure o teto de 6,5% da banda inflacionária. Sempre será possível no segundo semestre criar uma transitória meta ajustada de inflação para evitar o vexame do pedido formal de desculpas do BC ao ministro da Fazenda. Com o câmbio ajustado e as finanças públicas produzindo superávits primários, não será complicado trazer a inflação à meta de 4,5%.

O BC nada fez para atrapalhar a subida do dólar desde 28 de janeiro porque havia um certo aval externo e porque internamente uma avalanche de notícias ruins pôs em risco a governabilidade, mas também porque não há procedente dos pregões de derivativos cambiais da BM&F nenhuma articulação externa com o menor jeito de ataque especulativo. Pelo contrário, do último dia útil de janeiro (dia em que o ministro Levy fez considerações sobre a necessidade de se rechaçar uma valorização cambial artificial, que, embora óbvias, deram a senha para a inauguração de uma nova política cambial) até anteontem (última posição oficialmente conhecida) as posições líquidas “compradas” dos investidores estrangeiros subiram quase nada, apenas US$ 310 milhões.
No dia 30, os fundos externos carregavam contratos líquidos em DDI (cupom cambial) e dólar futuro de US$ 35,24 bilhões. No dia 11, a posição comprada líquida avançou a US$ 35,55 bilhões. E foi uma alta concentrada no segmento de dólar futuro, que pode muito bem ser atribuída a operações genuínas de hedge. Se não há volatilidade decorrente de especulação, se há fundamentação para a alta do dólar e se o BC a deseja, não é mesmo o caso de agir para segurá-la por meio de ofertas adicionais de contratos de swaps cambiais.

Não será implausível supor que, se a distensão perdurar no ambiente externo e se o governo conseguir enfrentar o boicote político às medidas de ajuste fiscal — hipóteses que favorecem movimento de descida da montanha —, o BC poderá agir para impossibilitar o retorno do dólar ao patamar de R$ 2,60 em que estava no dia 28. Não será difícil. Basta, primeiro, ofertar contratos de swaps insuficientes para promover a rolagem integral dos que estarão vencendo. E, no final de março, dar por encerrado o programa de intervenção cambial baixado em 22 de agosto de 2013, zerando a atual ração diária de US$ 100 milhões em títulos novos.

O dólar pôde ontem cair por uma conjugação de fatores. O mais decisivo veio de fora. Diminuiu a inapetência por ativos de emergentes tanto porque, nos EUA, foram divulgados indicadores que desestimulam uma atuação menos paciente do Federal Reserve (Fed), como também o cessar-fogo na Ucrânia sinaliza a chance de reatamento da Rússia com a Europa Ocidental, favorecendo o crescimento de ambas. A animação dos investidores pode ser aferida pelo tamanho da recuperação do petróleo. O barril WTI subiu 4,8% em Nova York, para US$ 51,20.

Nos EUA, as vendas varejistas em janeiro caíram muito mais acentuadamente do que imaginavam os analistas. Estes projetavam baixa de 0,5%, mas o dado oficial foi retrocesso de 0,8%. E os novos pedidos de auxílio-desemprego avançaram para 304 mil na semana passada, quando o número esperado pelos especialistas era de 200 mil. Mas também pesaram na queda eventos domésticos: o desempenho de Aldemir Bendine na Petrobras vem sendo uma grada surpresa e a reunião entre Dilma e Lula rompe com o isolamento da presidente.

Na percepção dos tesoureiros e gestores que fecham negócios no mercado futuro de juros da BM&F, o Brasil ficou menos arriscado ontem. A curva futura de juros acentuou sua inclinação negativa porque os contratos longos caíram mais que os curtos. Enquanto a taxa para a virada do ano cedeu apenas 0,06 ponto (de 13,26% para 13,20%), o contrato para janeiro de 2017 recuou 0,15 ponto (de 13,22% para 13,07%) e o com vencimento em janeiro de 2021 tombou 0,22 ponto, de 12,70% para 12,48%. Não dá para afirmar que o índice de atividade do BC, o IBC-Br, teve parcela de responsabilidade no retrocesso dos DIs. Afinal, o indicador caiu menos do que projetava o mercado.

Enquanto os analistas estimavam uma retração em dezembro entre 0,85% e 1,15%, o IBC-Br recuou 0,55%. A expectativa das instituições para o resultado do PIB em 2014, que será conhecido oficialmente no final do mês que vem, varia de zero a -0,3%. As apostas para 2015 ainda estão em aberto: dependem da extensão do aperto monetário, da eficácia das providências fiscais e dos racionamentos de luz e água.


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