Por monica.lima

O feriado bancário de segunda-feira transferiu para hoje, ao meio-dia, a divulgação do boletim Focus do Banco Central. Não há expectativa de que traga boas notícias. As projeções devem se deteriorar mais um pouco, consolidando dois alertas trágicos para o governo: 1) A inflação vai este ano furar o teto de 6,5% da banda inflacionária e não será em 2016 que o Copom conseguirá conduzir o IPCA para o centro de 4,5%. 2) Os analistas suspeitam que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não terá condições de cumprir a meta de superávit primário de 1,2% do PIB. Ou seja, o mercado não acredita nas promessas nem do BC, nem da Fazenda. 2015 não começa depois do Carnaval: se não houver uma nova e poderosa ofensiva do governo para consertar o que foi arruinado de maneira bisonha e inacreditável em 2014, o ano já acabou melancolicamente.

Dada a magnitude dos problemas, a solução gradualista, além de prolongar o sofrimento e o baixo-astral da sociedade, pode exigir mais do que os dois anos planejados de aperto monetário e fiscal. A ideia era equilibrar as finanças públicas e reduzir a inflação em 2015 e 2016 e turbinar o crescimento econômico nos dois últimos anos do segundo mandato de Dilma, aplainando o terreno para a volta de Lula em 2018. O Focus está pessimista em relação ao IPCA do ano que vem. Na semana passada, projetou alta de 5,60%, um patamar elevado demais para permitir uma política econômica de retomada do crescimento em 2017. No boletim que sai hoje, se saberá se surtiu efeito o tom incomumente áspero utilizado pelo novo diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu Pereira, ao sinalizar que a Selic deve subir mais 0,50 ponto na reunião do Copom do dia 4 de março, de 12,25% para 12,75%.

Awazu foi escalado para refazer o sinal anterior, presente na ata do Copom de janeiro, de que a velocidade de avanço da taxa seria desacelerada para 0,25 ponto, com possível encerramento do ciclo de alta. Não só Awazu, mas todo o colegiado parece assustado com o reajuste das tarifas de energia elétrica e a alta dos combustíveis. A mudança de patamar da taxa de câmbio, dos R$ 2,60 nos últimos dias de janeiro para o atual patamar de R$ 2,80, tem sua parcela de culpa na alteração de viés de política monetária. Mas para o Focus alterar substancialmente suas expectativas inflacionárias para 2016 não basta prosseguir no aperto até a Selic chegar em 13,50%. O juro teria de ir mais longe. Para que consiga parar em 13% no Copom de 29 de abril, será preciso um novo contra-ataque pelo flanco fiscal. Depois que a reconquista de mínima credibilidade despertada pelas medidas iniciais de contingenciamento de gastos e aumentos de impostos foi perdida pelo bombardeamento que sofreram no Congresso, a equipe da Fazenda teve de voltar a se debruçar sobre as planilhas.

Mas só isso não basta. Não basta o BC falar grosso e a Fazenda baixar mais pacotes. É preciso um plano maior, organicamente integrado e executado, capaz de superar a impressão de que o governo está apenas apagando recalcitrantes focos de incêndio. Quem teria condições de elaborar tal plano seria o ministro do Planejamento, mas Nelson Barbosa enfurnou-se num claustro frio e silencioso desde que foi desautorizado pela presidente Dilma na questão do salário mínimo. Teria de ser um plano que, de uma tacada, reorganizasse solidamente as finanças públicas, nem que para isso fosse preciso suspender temporariamente investimentos no âmbito do PAC —– quebrando de uma vez por todas a espada do rebaixamento de rating que vem descendo lenta mas inexoravelmente desde o ano passado. Seria preciso criar condições favoráveis ao capital privado para que pudesse suprir a ausência do investimento público.

A política fiscal teria de ser dura o suficiente para simultaneamente permitir tanto a recomposição da competitividade do real quanto tornar dispensável um rigor excessivo da política monetária. Trata-se de falácia ultraliberal a ideia de que uma política fiscal austera não desobriga o concurso de uma política monetária igualmente severa. A Europa mostra que dureza fiscal impiedosamente prolongada depaupera as economias a ponto de exigir a pratica de juros negativos.

Vem falar que o Brasil não dispõe de todo o tempo do mundo para fazer os acertos. O país, dependente hoje dos ariscos capitais de portfólio para financiar o rombo em transações correntes do balanço de pagamentos, tem um encontro marcado com o imponderável em algum momento de 2015. Trata-se do início do descongelamento da taxa básica de juros dos EUA. O principal evento da curta agenda desta semana acontece hoje —– a publicação da ata da reunião de 28 de janeiro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve. Os mercados conhecerão em detalhes os debates internos dos 12 membros do Fomc sobre a ocasião mais propícia para desencadear a ascensão da “fed funds rate”. Mesmo tendo avançado do piso de 1,65% para a atual faixa dos 2%, os rendimentos dos títulos de 10 anos do Tesouro americano ainda estão ridiculamente baixos para uma economia que cresce algo acima de 3%. Basta um número ruim sobre inflação para desencadear uma onda altista. O Fed só está esperando esse dado ruim para iniciar seus preparativos para a alta da taxa básica. E esse momento será trágico se coincidir com uma revisão para baixo da nota de risco de crédito soberano do Brasil.

A tensão doméstica não deixou, sexta-feira, que o câmbio refletisse a maré positiva global. Crescimento alemão acima do previsto, expectativa de mais afrouxamentos monetários na China, armistício na Ucrânia e perspectiva de será possível à Grécia e à Troica abrirem um caminho de negociação animaram os investidores a buscar ativos em mercados emergentes. O Brasil foi exceção. Aqui, o dólar subiu 0,37%, cotado R$ 2,8313. Na semana, a moeda valorizou-se 1,9%. Os juros futuros mais sensíveis aos acontecimentos internacionais, para janeiro de 2021, ao invés de caírem para acompanhar a distensão externa subiram de 12,48% para 12,55%.

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