Por diana.dantas

As negociações para a renovação do pacote de socorro financeiro à Grécia, cujos termos e condicionantes vencem no fim do mês, monopolizaram ontem as atenções dos mercados globais, influenciando o comportamento dos pregões brasileiros, inativos nos dois dias anteriores. Os mercados se dividiram em duas linhas opostas. As bolsas de valores optaram pelo caminho otimista: como a Comissão Europeia se mostra intransigente, só restaria ao Syriza ceder pois, caso contrário, enfrentaria consequências, sob a forma de uma recessão, piores do que as impostas pela austeridade que abomina. Já o mercado de câmbio vê a questão se encaminhar para um impasse que só seria resolvido pela via traumática — a do desligamento da Grécia da comunidade do euro. Enquanto as bolsas subiram, o dólar se fortaleceu porque os investidores buscaram refúgio no mercado de títulos do Tesouro americano.

Internamente, a volta do Carnaval foi marcada por valorização do dólar e alta dos juros futuros longos. O dólar subiu 0,38%, cotado a R$ 2,8422, em sessão curta no tempo e no dinheiro. Os pregões cambiais da BM&F movimentaram apenas US$ 275 milhões, menos de 20% de um giro normal. No mercado futuro de juro, a taxa que oscila conforme os humores globais, negociada para janeiro de 2021, avançou de 12,55% para 12,61%.

Declarações do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em evento com 180 investidores estrangeiros realizado nos EUA, também mexeram com os mercados locais. Levy formulou diagnósticos que fizeram alguns economistas se lembrar das narrativas folcloricamente esperançosas do seu antecessor. No seu momento Guido Mantega, Levy disse que a inflação se encaminha para a meta de 4,5%. No Focus, pesquisa elaborada pelo Banco Central junto a cem instituições financeiras, a expectativa de IPCA para o acumulado do ano sobe sem parar há sete semanas. Em meados de janeiro estava em 6,67%, na semana retrasada foi a 7,15% e, no boletim divulgado ontem, avançou a 7,27%.

Para quando o ministro imagina que ocorrerá o encontro entre o índice real e o seu alvo? Projetou vagamente: em quatro ou cinco anos, o IPCA estará próximo de 5%, o que é próximo de 4,5%. Se a meta só será alcançada no final do segundo mandato de Dilma Rousseff é porque o governo não planeja ampliar o aperto monetário. Por isso, os juros futuros curtos não seguiram a alta dos longos. A taxa para a virada do ano recuou de 13,17% de sexta-feira para 13,16%, enquanto o contrato para janeiro de 2017 cedeu de 13,06% para 13,05%.

Difundindo otimismo no melhor estilo Mantega, Levy garantiu que vivemos nova era de responsabilidade fiscal, e que será possível cumprir a meta de superávit primário de 1,2% do PIB “sem medidas draconianas”. Por dever de ofício, nenhum ministro da Fazenda deve ser pessimista sobre o futuro — seria equivalente a reconhecer antecipadamente o fracasso das medidas destinadas a torná-lo melhor. Mas se a visão for demasiadamente rósea pode transmitir a impressão de que não serão tomadas providências do tamanho da encrenca vista no presente. O fato é que o contraste entre a visão ministerial e a dos analistas é chocante. O Focus está, semana após semana, vendo mais inflação, juros mais altos e menos crescimento. Se, antes de ganhar a guerra, a batalha das expectativas deve ser vencida, o governo coleciona ofensivas malogradas.

A expectativa de crescimento do PIB neste ano está em declínio há sete semanas. No primeiro Focus de 2015, os economistas previam uma expansão de 0,50%. O prognóstico foi sendo rebaixado toda semana até chegar agora em -0,42%. Ou seja, uma mudança radical, de um extremo ao outro, em apenas um mês e meio. Se a economia vai mal, com inflação em alta, o que o mercado recomenda? Alta da Selic. Depois de estabilizada em 12,50% por nove semanas, a taxa básica de fim de ano subiu de 12,50% para 12,75%. Não é bem esse o juro que o mercado quer. Algo mais perto de 14% seria o recomendável para encurtar o horizonte de “quatro ou cinco” anos do ministro Levy. Mas ele só mudou a projeção para a Selic porque o BC alterou a sua. Passou a esbravejar contra a inflação, sugerindo elevação de 0,50 ponto no Copom de março e de 0,25 no de abril.

O evento mais aguardado do dia foi a divulgação, no fim da tarde, da ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed), realizada no dia 28. Frustrou os puxadores de taxa. Os votantes do Fomc temem que um aumento prematuro do juro possa sabotar a recuperação econômica. Estão cobertos de razão e sensibilidade. No patriótico anseio de diferenciar-se da anorexia europeia, o mercado americano enxerga uma pujança econômica que não existe. Depois de ter fechado na sexta-feira a 2,02%, a taxa do título de 10 anos do Tesouro americano deu um pulo para 2,14% na terça-feira (foi feriado nos EUA na segunda-feira), mas ontem o excesso de otimismo foi aparado. E o rendimento desceu a 2,11% durante a manhã e afundou para 2,05% depois da ata.

Os vários indicadores divulgados ontem agiram para moderar o entusiasmo de investidores e operadores. O mercado secundário de “treasuries” busca blindar-se no consenso de que o Fed, faça chuva ou faça sol, vai mesmo iniciar o movimento de ascensão da taxa básica na última reunião do primeiro semestre do ano, marcada para 17 de junho. Falta combinar com os russos, nesse caso os informes mais recentes sobre inflação e atividade.

Os dados revelados ontem sugerem, ao contrário, que o Fed deve acalentar a sua paciência em uma confortável rede. No mês passado, o PPI (o índice de preços no atacado) registrou a maior deflação em um pouco mais de cinco anos. Na terceira deflação consecutiva, o PPI recuou 0,8% em janeiro, a mais forte deflação desde novembro de 2009, o dobro da queda esperada pelos analistas. Em doze meses, a inflação ao produtor americano foi zero. Os defensores de um aperto monetário com base no argumento de que as pressões de baixa são transitórias, derivadas da debacle do petróleo e do fortalecimento do dólar, coçaram a cabeça. O núcleo do PPI — que exclui energia, alimentos e serviços comerciais — acusou deflação de 0,3%.

Existe claramente nos EUA um cenário desinflacionário, o que é muito diferente de outro, este trágico, o deflacionista. Mas o primeiro não pode ser considerado o vestíbulo do segundo? Como está a atividade? Relatório de ontem do Fed informou que, ao invés da alta de 0,3% prevista pelos analistas, a produção industrial subiu 0,2% em janeiro, depois de ter-se mantido estável em dezembro. E o Departamento do Comércio revelou que as autorizações para o início de novas construções habitacionais cederam 0,2% em janeiro, para o ritmo anual de 1,07 milhão de unidades. O Fed parece estar em relação aos EUA menos otimista que Levy em relação ao Brasil. Pelo menos, o cenário de explosão do dólar começa a ficar esmaecido.

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