Expectativas em deterioração

Todas as soluções apontadas — do ajuste fiscal ao realismo cambial, passando pelo aperto monetário — quando não aumentam a recessão, elevam a inflação

Por O Dia

O comportamento dos mercados de câmbio e juros revela que as expectativas persistem em deterioração. O dólar fechou ontem em alta de 0,83%, cotado a R$ 2,8657. Se o quadro interno permitisse algum alívio, o dólar não precisaria subir tanto apenas para ajustar-se às inquietações dos investidores globais. Ampliação do risco é sinônimo de elevação dos juros futuros. Diante das incertezas domésticas e externas, o capital cobra mais caro para ficar parado. No pregão de contratos futuros de juros da BM&F, a taxa para a virada do ano avançou de 13,16% para 13,21%. O contrato para janeiro de 2017 pulou de 13,05% para 13,14%. A ponta longa preferida dos estrangeiros passou de 12,61% para 12,74%. Nenhum sinal de reação positiva dos mercados ao plano governamental destinado a quebrar o isolamento da presidente Dilma Rousseff. Como sempre, os pregões vão pagar para ver.

Se os shows do marqueteiro João Santana, se a defesa pessoal que a presidente promete fazer do ajuste fiscal do ministro da Fazenda Joaquim Levy, se a reaproximação com as lideranças do Congresso e se o périplo pelos Estados começarem a render frutos sob a forma de recuperação da confiança e da autoestima nacional, os mercados devem iniciar a reversão das atuais posições compradas em dólar e em juros. Não antes.

Se não bastassem as agonias locais, o pano de fundo externo é tenebroso. O espectro de ruptura do euro ronda a Europa apenas três anos depois da ameaça de fragmentação da união monetária que jogou o mundo na segunda grande crise desde 2008. Os mercados financeiros globais acompanham com muita apreensão as tentativas destinadas a evitar que a Grécia fique sem dinheiro para pagar seus compromissos já no início de março. Os investidores sabiam que o primeiro-ministro esquerdista Alexis Tsipras travaria uma árdua batalha para convencer os alemães, os detentores da chave do cofre, a construir uma ponte financeira de seis meses até que novas premissas do programa de resgate fossem negociadas com mais calma. Mas não poderiam supor que a Alemanha pudesse ser tão obstinadamente intransigente.

A Grécia formalizou ontem por meio de uma carta o seu pedido de prorrogação do acordo de resgate que expira daqui a uma semana. No documento, Tsipras abandona parte das promessas utilizadas na campanha eleitoral e se compromete a manter o equilíbrio fiscal no período de vigência do acordo e a promover reformas para atacar a evasão fiscal e a corrupção. Mas reitera que o governo persiste na defesa de medidas para debelar a “crise humanitária” que assola o país e para retomar o crescimento da economia. Oficialmente, a carta será analisada hoje em reunião do Eurogrupo, integrado pelos ministros das Finanças da zona do euro. Os mercados abriram o dia esperançosos de que seria possível encaminhar um entendimento satisfatório capaz de afastar esta nova ameaça de ruptura. A alegria durou pouco. Logo depois, sem esperar pelo Eurogrupo, a Alemanha saiu bombardeando as propostas gregas. Porta-voz do ministério alemão das Finanças praticamente bateu a porta na cara dos gregos. A Alemanha insiste no cumprimento das regras originais firmadas em 2012, para lutar contra as quais Tsipras foi eleito pela população.

Trata-se um quadro de agudização das aflições do grande capital financeiro mundial que perambula pelos quatro cantos do planeta em busca de aplicações rentáveis e seguras. Há uma hiperliquidez errante que não encontra boas condições em lugar algum. Onde os investimentos são seguros — como no Japão, na Europa e nos EUA — os juros são ridiculamente baixos, quando não declaradamente negativos. Onde são rentáveis, o risco é excessivo para tacadas de maior fôlego. O antigo paraíso do lucro fácil, o Brasil, perdeu seu charme. Não basta pagar o segundo maior juro real do mundo, 5,5%. Trata-se de um emergente em vias de ingressar num pantanal insolúvel e durável que associa variáveis — recessão e inflação alta — que costumam andar bem separadas nos países desenvolvidos.

Todas as soluções apontadas — do ajuste fiscal ao realismo cambial, passando pelo aperto monetário — quando não aumentam a recessão, elevam a inflação. Para equilibrar o balanço de pagamentos, será preciso que o real sofra uma maxidesvalorização efetiva e perene, medida que robustece a inflação, para combater a qual o Banco Central usa uma arma — a elevação da Selic — que reduz a arrecadação fiscal e faz crescer o rombo fiscal pelo lado do endividamento público mais caro, exigindo mais aumentos de impostos e corte de despesas, o que agrava a recessão e provoca desemprego, sem derrubar uma inflação que não é de demanda. Não é uma política econômica que restaura a confiança dos empresários e potencializa o retorno dos investimentos produtivos.
A dupla recessão e inflação já seria suficiente para afugentar os investidores de fora, mas a ela se agrega um extenso rol de dificuldades: oposição parlamentar feroz que ameaça a governabilidade, risco de racionamento de energia elétrica e água, casos de corrupção que afetam a execução dos programas de infraestrutura, dependência excessiva de produtos de exportação (commodities) em depreciação e permanente possibilidade de rebaixamento do rating soberano. É muita coisa para caber na mesma planilha. O ministro Levy já deve ter-se dado conta de que o imbróglio atual não se resolve com a mera aplicação do bê-á-bá liberal-conservador.

Dada a sua falta de qualificação, o país só consegue fechar a conta corrente fazendo uso do dinheiro mais desclassificado que existe no mundo. E é uma migalha que cai da mesa em que costuma se banquetear o grande capital, aquele detrito que pode ser perdido. Mesmo assim, esse resquício está mais saindo do que entrando no país. Em janeiro, estimulado pela alta confiabilidade do início de gestão do ministro Joaquim Levy, o capital externo de portfólio afluiu sem temor. O saldo da conta financeira da balança cambial alcançou US$ 4,12 bilhão no mês passado. Em fevereiro, as medidas fiscais sofreram forte oposição política e sindical e aumentou o tamanho do esforço adicional requerido. E, no acumulado de fevereiro até o dia 13, houve saída líquida financeira de US$ 481 milhões. Como os nativos, os estrangeiros passaram a desconfiar do cumprimento da meta de superávit primário equivalente a 1,2% do PIB. E os restos começaram a ser recolhidos.

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