Por monica.lima

Como o mercado futuro de juros da BM&F já havia embutido nos contratos a sinalização dada pelo Banco Central de elevação da Selic em 0,50 ponto no Copom da semana que vem, os DIs vinham se movimentando quase exclusivamente em função da volatilidade do dólar. Na sexta-feira, as taxas perderam a condição de espelho passivo: subiram muito mais do que seria tecnicamente necessário para tão-somente acompanhar a alta de 0,46% registrada pela moeda americana, cotada a R$ 2,8788. Chamou atenção a expressiva alta do contrato para vencimento em janeiro de 2017, de 13,14% para 13,23%, quase encostando na taxa para a virada deste ano, de 13,26%. O DI janeiro/17 tem a incumbência delicada de projetar a política monetária para o ano que vem. Até agora, imaginava-se um declínio da Selic em 2016. O DI já começa a descartar essa possibilidade. O que aconteceu?

A esticada independente dos juros futuros pode estar associada à maratona de reuniões realizadas pelo diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu Pereira, com representantes de bancos, consultorias e gestoras de fundos na quinta e na sexta-feira. Foi a estreia de Awazu no comando da diretoria que, dentro do BC, desempenha a tarefa de elaborar os modelos que irão subsidiar as decisões do Copom. As reuniões com os economistas do mercado são tradicionais e corriqueiras, integram o rito de elaboração do Relatório Trimestral de Inflação (RTI). Nelas, o BC mais ouve do que fala. A ideia é justamente a de colher as impressões e sentimentos dos analistas sobre inflação, atividade e problemas econômicos em geral. As opiniões do mercado serão sopesadas e podem ou não influenciar na redação do RTI. O objetivo é dar transparência ao sistema de metas de inflação. Não fazer dele um ato discricionário.

Tido como o diretor do BC de postura monetária mais flexível, Awazu vem surpreendendo o mercado pela dureza de suas posições. Pouco transpirou do seu encontro com os economistas. Sem acesso da imprensa, que fica dependente de informações confidenciais de escassa confiabilidade, as reuniões procuram englobar o maior número possível dos players que fecham negócios no DI futuro, conferindo igualdade de condições. Mas o fato é que a curva futura de juros fechou sexta-feira precificando Selic de 13,50% ao cabo do atual ciclo de alta. É muita coisa, apesar de todas as incertezas internas e externas.

A agenda econômica desta última semana de fevereiro, carregada de indicadores relevantes, pode clarear o cenário. Todas as variáveis essenciais — inflação, atividade, emprego, contas públicas e balanço de pagamento — serão atualizadas. Mais que isso: serão os primeiros números sob a nova administração de Joaquim Levy.

Amanhã, o IBGE divulga o IPCA-15 aferido de 15 de janeiro a 15 de fevereiro. Preços administrados e alimentos devem reproduzir o salto dado em janeiro pelo irmão gêmeo IPCA. Para a versão 15 do indicador, a previsão consensual dos analistas é de que suba do 0,89% anterior para algo levemente acima de 1,2%. Com isso, o acumulado em 12 meses pulará de 6,69% para perto de 7,25%. Trata-se de repique previsto e já incorporado na curva futura de juros. Os contratos de DIs futuros só estarão autorizados a subir mais do que já vêm subindo se houver alguma surpresa bem negativa — como, por exemplo, a identificação de repasses da depreciação cambial para os preços. Até agora, a disparada do dólar não chegou para valer no bolso do consumidor, restringindo-se ao dos turistas. Por falar nisso, também amanhã, o BC divulga a sua nota do setor externo. No ano passado, o rombo em transações correntes foi de US$ 90,95 bilhões, o equivalente a 4,17% do PIB. Os dados do balanço de pagamentos relativos a janeiro já podem detectar alguma sensibilidade dos investidores estrangeiros à posse de uma equipe no Ministério da Fazenda identificada com a austeridade econômica.

Na quarta-feira, o balanço do comportamento do crédito no primeiro mês do ano deve fornecer uma fotografia da atividade econômica, imprecisa nos detalhes, mas focada no essencial. A atividade, débil, estará no centro das várias sondagens — indústria, construção, comércio, serviços e consumidor — que a FGV irá publicar ao longo da semana.

A quinta-feira será dedicada ao mercado de trabalho. O IBGE divulga a sua PME de janeiro. Em dezembro, a taxa de desemprego, de 4,3%, foi recorde de baixa. Apesar disso, os analistas já descobriram sinais de fraqueza, mas esperam por números mais eloquentes sobre o momento em que as trajetórias de queda do PIB e do emprego se encontrarão menos assimetricamente. No mesmo dia podem ser revelados os números de criação de novos postos de trabalho — ou destruição de vagas antigas — segundo o Caged. O mercado aposta em destruição, algo próximo de 23 mil empregos. Até aqui o pregão de juros futuros da BM&F já disporá de vasta gama de elementos para calibrar os próximos passos da política monetária. Atividade e emprego tenderiam a arrefecer o ímpeto desinflacionário do BC.

Por fim mas não por último, nos dois dias finais da semana saem os dados mais frescos sobre a política fiscal, epicentro das inquietações do governo e do mercado. Na quinta-feira, o Tesouro divulga o resultado primário do governo central no primeiro mês sob a batuta do secretário Marcelo Barbosa Saintive. A expectativa é que o superávit de R$ 1,04 bilhão registrado em dezembro suba para algo um pouco além dos R$ 11 bilhões em janeiro. Na sexta-feira, o BC divulga o resultado consolidado de todo o setor público. Em dezembro, houve déficit recorde de R$ 12,89 bilhões. De posse dos dados de janeiro, o mercado fará as suas contas sobre o tamanho do esforço fiscal adicional que Levy terá de fazer para cumprir sua promessa de superávit primário de 1,2% do PIB.

O ministro formulou essa meta sem saber da existência de três enormes blocos de granito no meio do caminho: 1) Em 2014, houve déficit de 0,6% e uma larga ciclovia de restos a pagar, as pedaladas. Ou seja, ele está largando dos boxes com atraso de 0,6%. Não basta mais a economia de R$ 66 bilhões, o que já não seria fácil; 2) A truculenta oposição parlamentar às medidas fiscais; 3) Queda do PIB (sem contabilizar racionamentos) de 0,5% este ano, minguando a arrecadação federal. O mercado ficará ansioso por conhecer as novas medidas, a sua extensão e sua distribuição pelos setores da sociedade. Em princípio, a Fazenda não teria como evitar duas providências cujo impacto econômico será o aprofundamento da recessão: mais um pesado pacotão de aumento de tributos e corte fundo nos investimentos públicos. Se o ministro vacilar ou se não encontrar respaldo palaciano ou político, o dólar vai buscar um patamar, mais perto de R$ 3,00, já condizente com o futuro rebaixamento do rating brasileiro para grau especulativo. Na sexta-feira, a moeda namorou o nível de R$ 2,90.

Atenção total hoje à apresentação pela Grécia das novas reformas com as quais o governo se comprometerá para merecer a prorrogação do atual acordo de renegociação da dívida por mais quatro meses. Por enquanto, a Troica está conseguindo empurrar o Syriza para as cordas.

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