Por diana.dantas

Os mercados financeiros locais conseguiram evitar a maior parte do contágio negativo vindo de fora graças à maneira firme e segura com a qual o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, defendeu ontem em evento em São Paulo as pilastras de sustentação de sua política econômica e a sua visão positiva para 2016. Sem a sua intervenção verbal, o dia tinha tudo para engrossar as estatísticas negativas de fevereiro. Antes da palestra, por causa do rebaixamento da Rússia a grau especulativo pela agência americana Moody’s e do suspense em torno das propostas gregas de reformas que lhe permitirão prorrogar por mais quatro meses o acordo financeiro com seus parceiros do euro, o dólar disparou, batendo em R$ 2,9046, maior preço em mais de dez anos, e os juros futuros conseguiram avançar ainda mais apesar de já estarem em patamares incompatíveis com uma economia em recessão. Depois de Levy, o dólar oscilou levemente em queda para fechar quase estável a R$ 2,8792.

A rigor, o chefe da economia não disse nada novo. Mas o tom confiante de sua argumentação, a forma como afiançou sua certeza de que a nova política será vitoriosa e a garantia de que o compromisso com a meta de 1,2% de superávit primário não é seu, mas da presidente Dilma Rousseff, convenceram os empresários presentes e os executivos do mercado em suas mesas de operação de que ele terá de cima todo o apoio de que precisar para levar adiante as correções necessárias. Levy insistiu em alguns pontos relevantes: 1) A disciplina fiscal é um compromisso de governo, não do ministro da Fazenda; 2) A política econômica anticíclica pertence ao passado; 3) Terminaram os aportes do Tesouro ao BNDES; 4) Os incentivos fiscais, cujo custo de R$ 100 bilhões é excessivo, serão revistos; 5) Já mudaram para melhor as expectativas do mercado, fato comprovado pelo declínio dos juros futuros de prazo mais longo.

Ecoando o ministro, o contrato com vencimento em janeiro de 2021 — o de longo prazo de maior liquidez por concentrar as apostas do capital estrangeiro — puxou a fila descendente dos DIs negociados na BM&F. A taxa fechou a 12,69%, comparativamente aos 12,84% de sexta-feira. Antes do pronunciamento, foi a 12,92%. De manhã, a curva de juros entre os vértices situados em janeiro de 2016 e janeiro de 2017 ameaçou ficar plana, com taxas de 13,34% e 13,32%, respectivamente, vindo de encerramentos anteriores de 13,26% e 13,23%. Mas estes contratos fecharam com uma inclinação bem mais otimista, a 13,23% e 13,14%.

Se as perspectivas para 2016 em diante são melhores, para 2015 as projeções do mercado persistem em deterioração. O prognóstico de inflação para o acumulado do ano da mediana das cem instituições pesquisadas pelo BC para o seu boletim Focus piorou pela oitava semana em sequência. Os analistas estimam agora IPCA de 7,33% para o fechamento do ano, ante 7,27% na pesquisa anterior. Já bateu no topo ou pode piorar mais um pouco? A julgar pela estimativa do grupo das Top 5, as cinco instituições que mais acertam palpites sobre inflação, a projeção tem ainda céu sem nuvens para continuar subindo. As Top 5 preveem acumulado de 7,48%, praticamente um ponto acima do limite máximo de tolerância da banda inflacionária.

O pessimismo dos economistas se estende ao PIB. Também pela oitava semana consecutiva, o mercado reduziu sua expectativa de crescimento da economia. No caso, significa dizer que aumentou o tamanho da recessão. Da queda de 0,42% vista na semana anterior, a pesquisa divulgada ontem passou a enxergar retração de 0,50%. Para 2016, o cenário é menos trágico. O mercado acredita há quatro semanas em IPCA na casa de 5,60% — ainda distante do alvo de 4,5% perseguido pelo BC e que considera factível ao final do ano que vem — e num crescimento econômico de 1,5%. Ainda não é o futuro sonhado pelo mercado, que pode ser resumido pelo triplo três — superávit primário de 3%, IPCA de 3% ao ano e 3% de crescimento do PIB —, mas pelo menos o país sairá do sufoco no ano que vem.

Como esta é a última semana do mês, a distensão provocada ontem no mercado de câmbio pelas garantias de Levy não tem prazo de validade maior do que um dia. Daqui até a manhã de sexta-feira, tende a se acirrar a guerra entre “comprados” e “vendidos” nos pregões de derivativos cambiais da BM&F visando a formação da Ptax, a taxa oficial de câmbio de encerramento do mês, que servirá de parâmetro para a liquidação dos contratos. Os “comprados” em cupom cambial e dólar futuro vêm ampliando o seu estoque de munição para a batalha final. Interessa a eles puxar para cima a cotação à vista da moeda americana de forma a ampliar seus lucros nos mercados futuros. Os investidores “comprados” são os fundos de investimento estrangeiro. Suas posições líquidas nos dois segmentos cresceram de US$ 35,55 bilhões no dia 11 para US$ 37,16 bilhões na sexta-feira. É US$ 1,6 bilhão a mais a serviço do dólar acima de R$ 2,90 — uma cotação projetada pelo Focus apenas para dezembro.

No mercado externo, o dia juntou condimentos indigestos: indicadores decepcionantes nos EUA, queda do petróleo, rebaixamento russo e expectativa com as novas cartas que a Grécia jogará na mesa de negociações. Nos EUA, as vendas de moradias usadas caíram 4,9% em janeiro, retornando ao patamar de abril do ano passado. E o índice de atividade industrial da regional de Dallas do Federal Reserve (Fed) acusou negatividade de 11,2 em fevereiro, após -4,4 em janeiro. Índices negativos significam contração. A frustração mais a demanda de fora por títulos do Tesouro americano produziram pesada queda no juro de 10 anos. A T-Note caiu de 2,13% para 2,06%. A expectativa dos analistas internacionais é de que a Grécia irá hoje sair do noticiário de crise. A capitulação do Syriza à troica deve ser entendida como satisfatória.


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