Por diana.dantas

Os mercados de câmbio e juros agiram ontem preventivamente e aumentaram suas defesas para não serem surpreendidos por um rebaixamento do rating soberano do Brasil para grau especulativo. Os pregões foram pegos desprevenidos pelo rebaixe da Petrobras. Tesoureiros e gestores armaram posições para essa possibilidade, mas, no íntimo, não acreditavam que uma petroleira do porte da brasileira fosse aviltada à condição da congênere argentina — sobretudo depois da troca de comando da estatal e dos sinais de que o balanço de 2014 será auditado e publicado antes do prazo fatal. Não querem, por precaução, estar “comprados” secamente em Brasil, e tomarem conhecimento de um corte de rating longe das mesas de operação.

Por isso, o dia foi dedicado a um princípio de corrida de ajuste das carteiras para enfrentar nota que conduza a dívida externa do país ao risco especulativo. O dólar reabsorveu boa parte da desvalorização de 1,59% registrada na véspera e subiu ontem 1,23%, cotado a R$ 2,8681. Após um pico matinal de elevação, os juros futuros fecharam com oscilações acanhadas. A taxa para a virada do ano avançou ligeiramente de 13,10% para 13,11%. O contrato onde costuma posicionar-se o capital estrangeiro, com liquidação em janeiro de 2021, subiu de 12,54% para 12,58%. O pregão recusa-se a precificar a possibilidade de o Banco Central ter de elevar ainda mais a Selic com o objetivo específico de convencer os investidores de fora a permanecerem aqui em caso de “downgrade”.

A Moody’s foi precipitada? Agiu severa e açodadamente sem esperar o balanço da empresa e a ida dos processos da Lava-Jato às instâncias superiores? Ao reduzir a força de um dos seus motores de propulsão, como a agência espera que a companhia consiga retornar ao mercado internacional de crédito para alterar o perfil do seu endividamento e sanear suas finanças? Qual a motivação “política” do rebaixamento: forçar a mudança do sistema de partilha do pré-sal e, no extremo, a privatização? Essas questões foram debatidas intensamente ontem pelos analistas. O prestígio das maiores agências de rating foi gravemente abalado pela crise americana de 2008, pois concediam fartamente nota triplo A a securitizações que respingavam material excrementício. Mas não tem jeito: por estatuto, muito investidor institucional terá de vender títulos emitidos pela Petrobras se mais uma classificadora — ou a S&P ou a Fitch — também considerar o investimento especulativo.

Por força legal, os papéis terão de ser desovados com prejuízos aos fundos abutres mesmo que o risco de default seja inexistente. A decisão da Moody’s é uma alucinação contábil. Os bônus da Petrobras têm garantia do seu acionista majoritário, o Tesouro Nacional. Supor que não teria condições de honrar um pagamento seria equivalente a acreditar que o Tesouro estaria quebrado — hipótese absurda, mesmo no caso de o rating brasileiro ser desonrado a grau especulativo, já que as reservas cambiais (US$ 371,81 bilhões, pela última posição conhecida, referente à segunda-feira) são suficientes para o resgate integral da dívida externa bruta (US$ 348,7 bilhões, última posição conhecida, relativa ao final de janeiro).

Se a Moody’s não esperou as correções de Aldemir Bendine, por que esperaria pela aprovação do ajuste do ministro Joaquim Levy? A pergunta foi colocada ontem pelos mesmos analistas que consideraram exageradas as preocupações dos mercados com o risco de contaminação do rating soberano. Levy pode merecer clemência maior do que Bendine, mas o risco de contágio existe pelos vasos comunicantes entre o poderio da estatal — responsável sozinha por 13% da Formação Bruta de Capital Fixo do PIB — e as exigências que poderá impor ao caixa do Tesouro para sair da crise. A Fazenda parece de mãos atadas: o baque na petroleira amplia o viés recessivo da economia brasileira, reduzindo o potencial arrecadador da Receita Federal e aumentando o esforço fiscal para equilibrar a dívida pública bruta. Ao mesmo tempo, pela mesma razão, o Tesouro não pode fazer incursões criativas de salvamento da companhia. O contágio existe e é real. Por isso, o prazo (até o fim de maio) autoimposto por Bendine para a publicação do balanço anual auditado da Petrobras já parece exageradamente preguiçoso. Não há outra prioridade: Bendine deveria confinar toda a diretoria da empresa e toda a diretoria da PwC num navio-sonda fundeado em alto-mar e só sair de lá com o balanço assinado pronto para publicação.

Os mercados brasileiros não puderam se beneficiar com a volta da esperança às praças globais. Após a superação do impasse grego e a presteza com a qual a presidente do Federal Reserve (Fed), Janet Yelle, acalmou os fundos sequiosos por aumento de juros, a China retornou ontem do infindável feriado de ano-novo lunar com um dado positivo. A desaceleração da segunda maior economia do planeta pode ter sido estancada neste mês de fevereiro. A prévia do índice PMI-Markit da indústria de transformação surpreendeu positivamente ao avançar do nível contracionista de 49,7 pontos em janeiro para patamar expansionista de 50,1 agora em fevereiro. Os analistas estavam pessimistas, prevendo queda para 49,6. Diante desse informe, o mercado já começou a acreditar que a China conseguirá evitar que o crescimento do PIB no primeiro trimestre caia abaixo de 7%. Todas as crises recentes saíram do horizonte do mercado: cessar-fogo na Ucrânia, fim da ameaça de ruptura da comunidade monetária do euro, protelação do início do movimento de normalização monetária nos EUA e trégua na guerra do petróleo. A Arábia Saudita parece estar conseguindo o que queria: a redução da produção de óleo de xisto nos EUA. O barril oscila sem aprofundar o fundo do poço. O reduzido preço da energia impede a volta da inflação nos EUA e os grandes investidores globais perdem o medo de aplicar em mercados emergentes. Mesmo os mais arriscados.


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