Dólar ferve e BC nega 'hedge'

O Banco Central põe fé demais no freio que a recessão econômica induzida pelo ajuste fiscal irá colocar nas tentativas de repasse da depreciação cambial aos preços

Por O Dia

Temerariamente, reduziu a oferta de swaps cambiais destinados a renovar os que irão vencer no dia 1° de abril. O BC baixou de 9,5 mil para 7,4 mil a quantidade de títulos leiloados por dia para rolar o lote de US$ 9,964 bilhões a vencer. Se não mudar de ideia ao longo de março, permitirá o resgate de US$ 2,2 bilhões, o equivalente a 22% do lote. Quem já está hedgeado, terá de buscar esses US$ 2,2 bilhões no mercado à vista ou no futuro. Com a medida, a autoridade sanciona o patamar atual do dólar. A moeda fechou ontem a R$ 2,8951, em alta de 1,37%. O juro futuro acompanhou, com a taxa para janeiro de 2017 subindo de 12,78% para 12,87%.

O BC foi o principal responsável por essa valorização. Ajudaram uma cena externa intranquila por causa da redução dos juros básicos chineses e novos rumores sobre rebaixamento da Petrobras a grau especulativo agora pela Fitch. O BC não se limitou a ratificar a taxa de câmbio acima de R$ 2,85. O recado sub-reptício foi de que não teme os efeitos inflacionários da arrancada da moeda americana, de 27,5% somente nos últimos seis meses. Daí para o mercado concluir que não irá renovar o programa de intervenções cambiais, cuja terceira etapa expira no fim de março, foi um passo curto.

Atualmente, a ração diária consiste na oferta de US$ 100 milhões em swaps novos. Já foi de US$ 200 milhões no segundo estágio e de US$ 500 milhões no primeiro. As instituições defendem a substituição do sistema de ração diária por incertas antiespeculação. Ao invés da monótona venda diária de uma cota pré-definida de papéis, o BC atuaria de vez em quando, sempre que entendesse estar a volatilidade incompatível com os fundamentos. Ao contrário do que diz o senso comum, a troca favorece tacadas especulativas. Quando o BC é transparente e previsível — as duas principais virtudes do regime de ração — empresas endividadas em dólar e investidores sabem que não precisam se sujeitar aos preços praticados no mercado. Basta aguardar o BC.

Quando passa a operar esporádica e aleatoriamente, sem regra fixa, os mais paranoicos não têm paciência para esperar por uma intervenção que pode nem vir. Pior que isso: quando o BC é errático, os espertos passam a apostar contra ele. Desenvolvem todo tipo de arapuca especulativa para “chamar” o BC. Uma delas é a clássica armação do “vendido a descoberto”. Primeiro puxam o preço à vista sem gastar muito dinheiro, apostando que, em determinado patamar, a autoridade não terá outra saída a não ser vender os swaps. Depois disso, compram a moeda a preços mais baixos e repassam aos “comprados”. No sistema de ração diária, as pegadinhas não funcionam. Se o BC resolveu fazer agora a defesa de um câmbio mais depreciado, como forma de auxiliá-lo no reequilíbrio do balanço de pagamentos, deveria ir diminuindo a dose diária para promover a desintoxicação gradual do viciado, e não acabar com ela de uma vez. O fim abrupto vai trazer mais volatilidade, especulação e dor de cabeça.

Outro ponto questionável da fé do BC no impacto recessivo e desinflacionário das medidas fiscais é a confiança de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguirá, na marra e contra todos, entregar de fato o prometido superávit primário de 1,2% do PIB. Os sucessivos pacotes de corte de despesa e aumento de receita, cujo montante já supera os R$ 100 bilhões, contam com dois apoios. Um é eterno, o do mercado. O outro, do PMDB, é frágil. O acerto com o principal partido da base aliada pode não resistir ao traumas e desdobramentos da lista, que será conhecida esta semana, de políticos denunciados na Operação Lava Jato. Levy enfrenta oposição feroz às suas medidas do PT, das lideranças empresariais e das centrais sindicais. E do Palácio do Planalto? A presidente Dilma Rousseff não reconhece que a política de desoneração tributária foi um erro. Ao classificar como “infeliz” o adjetivo “grosseiro” empregado por Levy para qualificar a estratégia, Dilma admitiu apenas “correções” e fez a defesa dos seus princípios básicos. Trata-se de uma tese claramente anti-Levy. Para um fiscalista liberal-conservador como ele, a desoneração é, em qualquer época, um monstrengo repulsivo.

Na verdade, o ministro só pode contar em qualquer hora com um único aliado — o mercado. E este conhece apenas uma única maneira para blindar Levy, tornando-o indemissível pelos próximos quatro anos: por meio de disparadas do dólar e dos juros futuros, forçar posicionamentos pragmáticos da presidente. Ou seja, trata-se de um permanente estado de crise. Formalmente, nem mesmo o mercado acredita muito que o ministro vai conseguir aglutinar os apoios necessários para o cumprimento do superávit de 1,2%. No boletim Focus, há semanas as instituições mantêm em 1% para este ano e em 1,9% para o próximo suas projeções de superávit primário. O ministro sabe que está isolado, sob pesado fogo cruzado. Ou as suas “escorregadinhas” são fruto de um estresse prematuro — afinal, sua gestão completou oficialmente na última sexta-feira apenas dois meses, contra oito anos de um antecessor impiedosa e diuturnamente massacrado — ou está buscando fortalecer-se e impor-se aos ministros da casa ou já prepara a sua saída.

Ninguém no mercado vai pedir a cabeça de Levy e da diretoria do BC pelo fato de que a inflação deste ano pode superar em um ponto o teto de tolerância de 6,5% do sistema de metas inflacionárias. Os analistas já perceberam faz tempo que o governo vai fazer em 2015 uma inflação corretiva. Toda defasagem de preço público será recomposta agora para que 2016 se inicie zerado. É por esta razão que os economistas que participam da pesquisa Focus elevam seus prognósticos de IPCA para este ano e reduzem para o próximo. Na edição de ontem, o primeiro subiu pela nona semana consecutiva, de 7,33% para 7,47%. E o segundo, após quatro semanas estabilizado em 5,60%, recuou para 5,50%. Como todas as maldades serão concentradas este ano, a estimativa para a contração do PIB piorou de 0,50% para 0,58%. O Copom será um coadjuvante quase imperceptível no teatro do absurdo. Para o Focus, depois de subir a Selic amanhã de 12,25% para 12,75%, o Comitê só encontraria espaço para mais uma elevação de 0,25 ponto, encerrando em 13% um ciclo longo de aperto que começou em abril de 2013, quando a taxa estava em 7,25%.

A influência exercida ontem pelo mercado externo não foi decisiva para o comportamento do dólar e dos juros futuros. A semana começou com uma novidade. No sábado, o PBoC, o BC chinês, cortou surpreendentemente os juros básicos. A taxa de concessão de empréstimos caiu de 5,60% para 5,35% e a de depósitos, de 2,75% para 2,50%. Os mercados globais reagiram mal à decisão. Eles têm uma maneira sui generis de receber certas providências. Quando os dados são ruins, os ativos operam de forma otimista antecipando afrouxamento monetário destinado a contra-atacar a crise. Mas quando ele chega, o mercado fica pessimista por acreditar que, se os juros caíram, é porque a situação deve ser pior do que a imaginada.

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