Sem ajuste e BC, dólar desgarra

Furada ontem a barreira de R$ 2,90, o mercado vai buscar primeiros os R$ 2,95 e, se o BC negar a ração diária de US$ 100 milhões, o alvo serão R$ 3,00

Por O Dia

A trégua firmada nos mercados globais não consegue suavizar os tremores internos. Em alta, dólar e juros futuros se desgarram das influências externas. A calmaria vista nas praças internacionais não pode ser aproveitada porque há uma espada sobre a cabeça dos políticos que têm a urgente missão de aprovar as medidas fiscais do governo e, com isso, evitar o “downgrade” da nota soberana atribuída ao país pelas agências de rating. A “lista de Janot” paralisa os meios políticos, impossibilitando as duas casas do Congresso de pensar em nada que não seja a tromba d’água que se aproxima. Dá para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, fazer um ajuste fiscal que independa do parlamento? Dá, mas a um custo terrível, o de estancar todos os investimentos públicos.

O dólar operou em alta praticamente o dia todo, mas encontrou forças na meia-hora final do pregão para acelerar ainda mais a velocidade. Fechou com valorização de 1,14%, cotado a R$ 2,9280, maior preço desde 2 de setembro de 2004. A crise política é o fermento de um bolo que começou a ser assado pelo Banco Central noite de sexta-feira, quando anunciou sua disposição de não rolar integralmente, como vinha fazendo nos últimos meses, o lote de US$ 9,964 bilhões em swaps cambiais que vence no dia 1°. Ao levantar a suspeita de que vai, no fim do mês, acabar com o programa de intervenção criado em agosto de 2013, ele liberou o mercado para encontrar um preço mais condizente com as várias e sucessivas turbulências. E o mercado vai fazer isso. Furada ontem a barreira de R$ 2,90, vai buscar primeiros os R$ 2,95 e, se o BC negar a ração diária de US$ 100 milhões, o alvo serão R$ 3,00.

Como os juros futuros não têm essa obsessão do câmbio, não conseguiram ontem sustentar as máximas do dia. O contrato para a virada do ano, depois de bater em 13,18%, fechou a 13,11%, em leve queda perante os 13,12% da véspera. A taxa para janeiro de 2017 fechou nos mesmos 12,87% de segunda-feira, após alcançar 12,98%. Mas o contrato predileto dos investidores externos, com vencimento em janeiro de 2021, encerrou em alta. Avançou de 12,38% para 12,43%, embora tenha atingido 12,52% no momento mais nervoso. O sentimento do DI é que a política monetária não vai acusar a escalada do dólar. Mesmo mantido o discurso de que a Selic subirá para mitigar o impacto sobre a inflação da depreciação cambial, o ciclo de aperto, que deverá ser hoje à noite robustecido por mais uma alta de 0,50 ponto, não irá muito longe.

A pulsação dos mercados, idêntica à dos políticos, se agita com a impressão de que as investigações da Operação Lava Jato se aproximam do seu ápice, a partir do encaminhamento pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal (STF) dos pedidos de abertura de inquérito envolvendo entre 35 a 40 políticos. As informações de bastidores são de que lideranças dos maiores partidos estão na lista. Não se trata mais de um megaescândalo adstrito ao PT. Tem todo o jeitão de uma crise política, longa e generalizada. Para investidores e instituições do mercado financeiro, instala-se o pior dos mundos: de nada adianta ter no comando da economia um legítimo representante dos postulados ortodoxos que defendem se esse paladino não conseguir aprovar as medidas. Trata-se de um rei sem coroa, cedro e poder. Um fazedor de planos inapreciáveis.

Criou-se uma incômoda relação de dependência entre Dilma Rousseff e Joaquim Levy. A presidente precisa que o ministro, com sua severidade fiscal nata, corrija os equívocos dos dois últimos anos. Ele pode fazer isso, sem maiores problemas. Se for preciso, não hesitará em deixar pedra sobre pedra. Mas, para isso, carece de condições políticas. Estas só podem ser garantidas pela presidente em pessoa. Não adianta nomear Levy o general da “batalha da comunicação” ou transferir a articulação política aos ministros da casa. A presidente precisa, e parece estar tentando com afinco, superar sua notória ojeriza aos políticos. Isso significa o seguinte: para aprovar o Orçamento de 2015 e as medidas fiscais e, ao mesmo tempo, rechaçar derrubadas de vetos já realizados, a presidente vai ter de se empenhar com mais afinco no jogo das concessões. O que Levy vai retirar de um lado, Dilma devolverá bem parcimoniosamente de outro. A linguagem das concessões é a única inteligível em meio à crise suscitada pela lista de Janot. O governo terá de reaproximar-se do presidente do Congresso, Renan Calheiros, e, divulgada a lista negra, não perder tempo em preencher os cargos de segundo escalão com os nomes indicados pelo PMDB. O maior aliado quer deixar de ser o maior aliado, quer ser governo. Enquanto isso, Levy espera. E o mercado, se exaspera.

Nos mercados globais, o dia foi de amenidades inconclusivas. Vazia, a agenda só produziu dois indicadores dignos de registro, mas ambos foram incapazes de mudar as expectativas para a Europa. Na Alemanha, as vendas varejistas cresceram 2,9% em janeiro e 5,3% em doze meses. Nos dois casos, foram números que superaram as previsões de alta de 0,4% e 3%, respectivamente. Já o Índice de Preços ao Produtor da zona do euro reconfirmou a antiga deflação. Os preços caíram 0,9% em janeiro e 3,4% no cotejo interanual. A deflação persistente reconfirma a premente necessidade do afrouxamento quantitativo orçado em 60 bilhões de euros mensais que o Banco Central Europeu (BCE) começará a pôr em prática este mês. Há uma certa ansiedade para se conhecer o detalhamento do plano ao término da reunião de amanhã dos 19 membros do seu comitê monetário.

Nos EUA, o maior pregão do mundo — o secundário de títulos do Tesouro americano — prepara-se sem demasiada ousadia para a divulgação, na sexta-feira, do “payroll” de fevereiro, o relatório oficial sobre o mercado de trabalho. As taxas dos papéis de 10 anos se conservam em rota ascendente embora a expectativa majoritária não seja a de um “payroll” pujante, capaz de acelerar os passos monetários do Federal Reserve (Fed). O índice de preços dos gastos com consumo pessoal (PCE) não permite especulações otimistas. O núcleo subiu 0,1% em janeiro e apenas 1,3% em doze meses. O yield da T-Note de 10 anos oscilou ontem entre 2,07% e 2,12%.

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