Por monica.lima

Há muita inquietação nos mercados globais com a reunião de quarta-feira do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve. Não só porque os investidores pressentem que está chegando a hora da decisão. Mas também porque a de março é uma das quatro reuniões do Fomc no ano em que há a divulgação das projeções econômicas dos seus membros e discurso e entrevista à imprensa da “chair” Janet Yellen. Já na sexta-feira os mercados começaram a aquecer os motores para a reunião. O juro do título de dez anos do Tesouro americano chegou a subir de 2,10% para 2,15% e o dólar disparou globalmente, amplificando o “overshooting” ante o real agudizado primariamente por temores políticos.

A moeda americana saltou sexta-feira 2,77%, cotada a R$ 3,2490. Desde o fundo do poço recente, os R$ 2,8560 do dia 27 de fevereiro, até agora o dólar já se valorizou 13,76% — uma autêntica maxidesvalorização cambial. Se o mercado de câmbio estivesse aberto ontem, teria ido buscar os R$ 3,30 às 16 horas, quando a PM estimou em 1 milhão o número de manifestantes na Avenida Paulista. O comportamento de hoje vai depender da reação dos políticos e do Palácio do Planalto aos protestos. Os investidores vão comprar e vender dólar de olho em Brasília e no Fed.

As três etapas da reunião do dia 18 do Fomc são relevantes para a definição dos rumos da política monetária dos EUA. Na primeira, ocorre a divulgação do resultado prático, no caso a manutenção da taxa básica de juros entre zero e 0,25%, o mesmo patamar que vigora desde o final de 2008. A decisão será comunicada por meio de uma nota, cujos termos são mais importantes que ela mesma. A expectativa é que o Fomc irá retirar o atual “guidance” de política monetária — a propensão do Fed de cultivar a “paciência” antes de tomar a trilha ascendente do aperto. Os analistas acreditam que a retirada da paciência virá acompanhada da advertência que isso não significa que o juro básico será descongelado na reunião seguinte. Apenas reforçará a condicionante reiterada nas últimas atas do Fomc, a de que as decisões futuras serão “data dependent”, vinculadas ao desempenho da economia, à retomada do mercado de trabalho e ao ritmo da inflação.

As três pré-condições precisam caminhar juntas, embora alguns falcões do Fed defendam que o aperto deve se iniciar muito antes dos primeiros sinais mais concretos de revigoramento do ímpeto inflacionário. Se o comitê fosse esperar a inflação chegar perto da meta de 2% não teria espaço para fazer nenhuma correção em face da forte valorização global do dólar. Após o “statement”, o Fed atualiza as previsões dos integrantes do Fomc para as variáveis essenciais inflação, emprego e juros.

A terceira etapa da reunião, o pronunciamento e a coletiva de Yellen, é a que congrega maior potencial de novidades e agitações, dada a franqueza da dirigente. Se a “fed funds rate” for tirada do freezer ainda em 2015 o será ou na reunião de 17 de junho, ou na de 17 de setembro, ou no último encontro do ano, agendado para 16 de dezembro, pois são estas três reuniões as que arregimentam as mesmas características especiais dessa de março. Uma mudança de curso da política monetária é indicada nesses encontros especiais porque há condições mais favoráveis para o Fed explicitar as suas intenções. Hoje o mercado está dividido praticamente meio a meio entre os que apostam na reunião de junho e os que põem fichas na de setembro.

Se a “chair” do Fed deixar escapar a possibilidade de o juro iniciar sua trajetória de alta já na reunião de junho, os grandes fundos de investimento mundiais tendem a deslanchar operações de venda de “treasuries” com consequente elevação da rentabilidade dos títulos. Começará a corrida para o ajustamento dos portfólios à nova realidade monetária dos EUA. Mas não se espera que a taxa do papel de dez anos tenha fôlego para saltar de imediato dos atuais 2,10% para perto dos 3% aos quais chegou depois que o então presidente do Fed, Ben Bernanke, anunciou, em maio de 2013, a intenção de desfechar o “tapering” da política monetária, ou seja, a diminuição na oferta mensal de dólares para a recompra de títulos públicos e hipotecas, até sua completa extinção.

Mesmo que não tenha apetite para tanto, dada a maciça oferta de moeda para os EUA, a tensão tenderá a crescer nas praças globais nos próximos três meses num momento em que o mercado de câmbio doméstico embarcou num rali de alta semelhante ao do segundo semestre de 2002. O medo de Lula fez a moeda bater na cotação máxima de R$ 3,91 no dia 16 de outubro daquele ano. Pode chegar a tanto agora? Se dependesse apenas dos rumos da política de juros do Fed, não. Como o mercado não tem contra quem apostar — o Banco Central sustenta glacial indiferença em relação à disparada do dólar, ao manter estável o atual estoque de swaps cambiais em US$ 113 bilhões e ao negar-se em vender moeda das reservas internacionais —, em algum ponto as próprias forças de mercado encontrarão um preço de equilíbrio. Quando o mercado perceber que o dólar chegou por si mesmo à cotação que promove o equilíbrio natural do balanço de pagamentos, os altistas perdem motivação.

Um combustível extra precisará ser injetado de outra bomba, instalada no Congresso. O dólar decolou na sexta-feira por causa de movimentos de defesa — a cobertura de posições vendidas às vésperas de evento imprevisível, os protestos de ontem — e também da montagem de novas posições compradas por parte de investidores que apostavam na ampliação da crise política com consequência das manifestações. A aposta foi de que os aliados se sentirão encorajados a aumentar o confronto com Dilma Rousseff em face da adesão popular aos protestos, sobretudo em São Paulo. Se os políticos se considerarem respaldados pela população e se puderem tirar vantagem desse apoio, a briga deve recrudescer. E não vai funcionar mais a chantagem utilizada na semana passada — a ameaça de demissão do ministro Joaquim Levy. Se o ajuste fiscal ficar comprometido, o câmbio engrossará a via do impeachment.

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