Por diana.dantas
Publicado 16/03/2015 23:21 | Atualizado 17/03/2015 13:39

Se houver permissão de fora, o dólar retomará hoje a sua escalada. Prevaleceu ontem a máxima da “realização no fato”, após confirmado o “boato” de sexta-feira de que as manifestações anti-Dilma teriam densidade numérica e territorial. Nos últimos onze pregões, o dólar caiu em apenas dois. Em ambos os casos, foram pausas para colocar no bolso os reais resultantes da depreciação cambial. Não significam reversão da tendência primária de alta. Desde o dia 27 de fevereiro, o dólar desvalorizou-se somente no dia 10 e ontem. O ganho superou os 13%. A justificativa para as vendas é sempre a mesma: uma certa inflexão na curva ascendente da moeda americana nas praças globais. A moeda fechou ontem a R$ 3,2445, recuo de 0,14%. Na cotação mínima do dia, chegou a ceder 1,23%. A queda menos acentua no fechamento já prepara a alta de hoje.

E hoje é véspera da reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed). Os investidores globais não encontraram ontem espaço para promover agitações altistas. Prevaleceu o entendimento de que o Fed sustentará um tom “dovish”, amparado em dados ruins que vem sendo divulgados recentemente e na análise de que o dólar forte sabota crescimento e abate a inflação. Como apertar o juro se a produção industrial dos EUA retrocede há três meses. Em fevereiro caiu 0,2%, após baixa de 0,3% em janeiro. Foi uma surpresa geral, já que os analistas esperavam alta de 0,1%. O efeito foi a queda do rendimento dos títulos de 10 anos do Tesouro americano de 2,11% para 2,09%, e a baixa de 0,55% no índice DXY, que mede a oscilação do dólar frente a uma cesta de divisas internacionais.

O pregão de juros futuros da BM&F também “realizou”, mas apenas no pregão regular. No “after-market”, as taxas subiram. Este mercado mostra-se insensível aos dados sobre o tamanho da contração econômica. O BC não pode parar de subir a Selic por causa das pressões de alta exercidas pela depreciação cambial e pela correção dos preços públicos. E também porque vem crescendo a captação de recursos junto ao público por parte do Tesouro. Quando um devedor clássico precisa de dinheiro só consegue obtê-lo mediante o aumento da rentabilidade oferecida ao credor. O BC divulgou ontem um indicador de atividade que, embora mais negativo do que vinha esperando o mercado, não serviu para diminuir os DIs futuros. O IBC-Br de janeiro caiu 0,11% em relação a dezembro, quando os analistas previam alta de 0,02%. Comparativamente a janeiro de 2014, a retração da atividade foi assustadora, de 1,75%. No acumulado de 12 meses, a queda ampliou-se de 0,15% para 0,40%.

O comportamento levemente declinante dos contratos futuros de juros prendeu-se mais à distensão global, refletida na queda do dólar, do que ao naufrágio da atividade. Mas, no “after-market”, como o dólar, já encomendou a alta de hoje. A taxa para a virada do ano avançou de 13,86% para 13,87%. O contrato para janeiro de 2017 passou de 13,79% para 13,82%. O movimento final de alta não poupou o contrato favorito dos estrangeiros, com vencimento em janeiro de 2021. Fechou a 13,31%, ante 13,28% na sexta-feira.

As expectativas dos analistas persistem em deterioração. Pela 11ª semana consecutiva, as cem instituições que participam da pesquisa Focus do BC revisaram para pior suas projeções de inflação e crescimento do PIB. Os economistas esperam agora IPCA acumulado no ano perto de 8%. De uma vez só, o prognóstico saltou na edição de ontem de 7,77% para 7,93%. A aceleração do IPCA ocorre a despeito do afundamento da economia. A estimativa agora é de uma contração do PIB de 0,78%, ante -0,66% no boletim anterior. A combinação inusitada de recessão e inflação alta, impensável em economias maduras, denuncia o nível alarmante das distorções brasileiras. O que a população que sai às ruas não consegue entender é que, para corrigi-las, o governo propõe soluções que agravam tanto a recessão quanto acirram a inflação.

O ajuste fiscal e a retirada de subsídios a setores produtivos provocam retração do consumo e da atividade. E, combinado com a restauração apressada do realismo tarifário, turbina o IPCA. Para que as medidas saneadoras fossem aceitas pela sociedade, seria preciso, em primeiro lugar, reconhecer os erros do passado. Em segundo, deveriam ser melhor explicadas, sem subterfúgios. Estas duas pré-condições são dispensáveis em relação às negociações visando a sua aprovação pelo Congresso. Neste caso, o preço a ser pago pelo Executivo é a rendição quase incondicional ao PMDB.

A degradação da cena econômica para 2015 ocorre como efeito direto das medidas que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tenta implantar. Ainda não está embutida a possibilidade de ruptura decorrente de sua rejeição pelo Legislativo. Já estava tudo combinado com o mercado. As projeções para este ano pioram, mas para 2016 começam a mostrar o acerto do novo caminho escolhido. O trato já começou a se desmanchar. O IPCA projetado para o ano que vem subiu de 5,51% para 5,60%. E a alta do PIB vem caindo. Passou de 1,5% para 1,4% na primeira semana de março e está agora em 1,3%. Como os analistas confiam no receituário liberal aplicado pelo ministro, o pessimismo para o ano que vem deriva da percepção de que não conseguirá implementá-lo na extensão desejada.

Como não é da alçada do ministro da Fazenda a negociação com os políticos, Levy fez ontem um apelo direto à população. “O apoio da população ao ajuste é muito importante. As razões dele estão claras”, disse em evento com empresários em São Paulo. E, implicitamente, sugeriu que a sociedade deveria ganhar as ruas para pressionar o Congresso a ratificar as providências ao advertir que o reequilíbrio das contas públicas precisa ser feito rapidamente de forma a evitar cenários desastrosos caracterizados pelo “downgrade” da nota de risco brasileira, crise cambial e inflação alta. “Se fizermos ajuste rápido, as pessoas poderão sentir chão firme para começar a trabalhar”, enfatizou. Falta combinar com os russos do Congresso.

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