Tacada em dois lances

O mercado de câmbio fez ontem uma jogada em dois lances. Primeiro, puxou o dólar para cima o mais que pôde, contrariando a tendência global

Por O Dia

À tarde, depois que os espertos já tinham desovado suas posições, o preço foi recuando lentamente até desabar na meia hora final, fechando em baixa de 0,42%, vendido a R$ 3,2310.  Não houve nenhuma razão objetiva para o dólar em relação ao real ignorar, ao longo da maior parte do dia, o viés externo de desvalorização. Foi apenas uma tacada especulativa o salto matinal de até 1,23%, com a moeda cotada a R$ 3,2844.  Como já estava, no período vespertino, difícil encontrar otário que se dispusesse a comprá-la por esse preço artificialmente engordado, o mercado perdeu o apelo emocional.

O mercado demorou o quanto pôde a precificar o quadro menos tenso na área política e o cenário mais propenso ao risco nas praças globais. O discurso governamental de “humildade, diálogo e coragem” — em substituição à malograda “paciência” — a reaproximação de Dilma Rousseff com o PMDB, a reforma ministerial em preparação visando afinar as relações com o Congresso, a acolhida calorosa dada pela bancada petista ao ministro Joaquim Levy em jantar na noite de segunda-feira e as novas informações do Datafolha, que colocam o foco das reinvindicações da sociedade mais no combate à corrupção e menos no impedimento da presidente, e que transformaram a manifestação da avenida Paulista numa marcha tucana desprovida de adesão massiva, são todos elementos que sugeriam o engajamento do câmbio à calmaria externa.

Quando faltam pretextos concretos para a alta sempre será possível aos operadores lembrar que o país pode sofrer um rebaixamento de “rating” a qualquer momento. Após a visita do pessoal da S&P, agora é a vez da turma da Fitch percorrer os gabinetes de Brasília para medir o pulso do paciente. A inglesa Fitch e a americana Moody’s conservam o Brasil dois degraus dentro da classificação de grau de investimento. Podem rebaixá-lo uma nota que o país ainda ostentará o selo de bom pagador. É claro que elas não são obrigadas a andar um degrau por vez. Podem dar um pulo e jogá-lo numa canetada só na sarjeta dos “junks”. Mas a mais perigosa é a S&P. A americana está a um passo do grau especulativo.

Qual o risco efetivo de rebaixamento ainda no primeiro semestre do ano? Seria elevadíssimo se o ministro da Fazenda ainda fosse Guido Mantega. Há, em relação a Joaquim Levy, uma conversa diferente, o empenho do ministro em fazer o ajuste fiscal é tido como sincero e as agências mais atrapalhariam do que ajudariam na obtenção do superávit primário contratado se agissem contra Levy.

Quanto do rebaixamento já está precificado pelo câmbio? Os analistas não têm essa resposta. Para alguns, o preço perto de R$ 3,30 já embute o grau especulativo. Para outros, a tirada do carimbo de bom devedor promoveria a saída de investidores institucionais que, por estatuto, só podem aplicar em emergentes “investment grade”. Se a saída fosse expressiva, o dólar iria buscar os R$ 3,50. Mas esta hipótese implica numa ação monetária mais enérgica por parte do Banco Central.

Como a ordem é não vender reservas — implícita na argumentação do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, de que não há um descontrole da taxa de câmbio, mas um realinhamento bem-vindo —, haveria um choque de juros para atrair os capitais de reputação mais duvidosa que perambulam pelo mundo à caça de rentabilidade e que não se importam muito com a classificação do hospedeiro. Mas, no momento do “downgrade”, haveria um frisson no câmbio, uma corrida maluca especulativa.

Durante a maior parte do dia, o dólar ignorou a senha digitada pelo maior pregão do mundo. O secundário de títulos do Tesouro americano operou desanimado, com a taxa da T-Note de 10 anos cedendo a 2,06%, ante 2,08% na véspera e 2,15% na sexta-feira. A perspectiva majoritária era de que os resultados da reunião de hoje do Federal Reserve (Fed) iriam ser inconclusivos sobre o momento da alta do juro básico.

Os analistas já quase desistiram de esperar pela revisão do “guidance” acomodatício presente na advertência de que o Fed se manterá “paciente” até tomar sua decisão. Esse tom, se confirmado, abrirá um enorme espaço à “realização de lucros” no mercado global de câmbio. A valorização do dólar — de 25% desde o início do ano passado frente as principais divisas — é incompatível com os indicadores ruins sobre a economia americana que vem sendo divulgados.

O pregão de juros futuros da BM&F mostrou um comportamento técnico, mais condizente com os fatos do dia. Os contratos desabaram sob a influência de duas perspectivas. Tesoureiros e gestores não esconderam a sua surpresa com o desempenho de Levy no jantar com a bancada do PT. As informações são de que o ministro foi aplaudido de pé. A negociação com o PMDB é mais fácil. Basta conceder o de sempre. Tal reviravolta assegura a aprovação das medidas fiscais, espantando o “downgrade”. A segunda foi a ausência de especulação nos mercados americanos na véspera da reunião de março do Fomc.

O resultado foi a ampliação acentuada da curva negativa entre os vértices formados pelos contratos de DI para janeiro de 2016 e janeiro de 2017. Na segunda-feira, fecharam com uma inclinação muito suave, a 13,87% e 13,82%, respectivamente. Ontem, baixaram para 13,76% e 13,59%. Os investidores estrangeiros entenderam o novo cenário e reduziram o DI para janeiro de 2021 de 13,31% para 13,03%.

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