Dólar perde seu aliado

A certeza do BC parece ser a de que não haverá ambiente econômico para um 'pass-through' disseminado e potencialmente contagioso para o conjunto de preços

Por O Dia

Não é somente a presidente Dilma Rousseff que não pode mais contar com seus aliados. O dólar disparou ontem 2,43%, vendido a R$ 3,2034, mas os juros caíram no mercado futuro da BM&F. Tesoureiros e gestores que fecham negócios no pregão de DIs futuros já não veem muito sentido em alinhar automaticamente os contratos à oscilação do dólar. Não vale mais o raciocínio de que, se o dólar sobe, arrasta consigo a inflação exigindo do Banco Central mais rigor no aperto monetário. Os DIs seguiram ontem um curso próprio. Até a taxa para a virada do ano cedeu. O contrato com vencimento em janeiro de 2016 recuou de 13,56% para 13,53%. A taxa que reflete as expectativas para a política monetária que será praticada no ano que vem, relativa ao contrato para janeiro de 2017, recuou de 13,44% para 13,40%. O contrato longo que espelha os riscos externos e a turbulência política interna, para janeiro de 2021, desceu de 12,98% para 12,95%.

Se na noite de terça-feira o BC deu um passo gigantesco em direção ao câmbio realista, ao acabar com o suprimento diário de swaps, e, ao mesmo tempo, sustentou enfaticamente sua inabalável convicção de que o IPCA vai encostar no centro de 4,5% da meta inflacionária no final do ano que vem — num movimento longo e contínuo de queda que deverá iniciar-se em abril —, é porque confia no resfriamento das expectativas de inflação em decorrência do ajuste fiscal e da retração econômica. A certeza do BC parece ser a de que não haverá ambiente econômico para um “pass-through” disseminado e potencialmente contagioso para o conjunto de preços. A ponta final do raciocínio fica nítida: não há, portanto, razão para exagerar no aperto monetário.

O principal perigo à estratégia do BC de perseguir uma taxa de câmbio menos depreciada, capaz simultaneamente de ajudar no financiamento do balanço de pagamentos e garantir a competitividade interna da indústria nacional vis-à-vis os importados, afastou-se por hora. Trata-se do início do aperto monetário americano. Dado após dado, constata-se que a economia dos EUA encontra muita dificuldade para deslanchar. Saiu ontem o número oficial sobre as encomendas de bens duráveis à indústria em fevereiro: ao invés de avançarem o 0,2% esperado pelos analistas, caíram 1,4%. No dia anterior, a inflação ao consumidor, medida pelo CPI, passou de deflação de 0,1% no acumulado de 12 meses encerrados em janeiro para estabilidade no de fevereiro. Direto ao ponto: a inflação é zero e a indústria patina, como subir juro?

O segundo perigo vem da Grécia. Os dirigentes do Syriza têm até segunda-feira para apresentar reformas convincentes para conseguir liberar euros necessários para evitar o calote da dívida. Se a tragédia grega prolongar-se, os mercados podem reeditar os clássicos deslocamentos derivados de aversão a risco. Buscarão a âncora segura das “treasuries”. Ou, como vem fazendo uma parcela de investidores insatisfeitos com o rendimento dos títulos americanos, o ouro, cuja onça-troy negociada na Nymex, ao subir 0,50% ontem, conheceu sua sexta alta consecutiva. A recidiva grega é ruim para o Brasil diretamente. Mas, indiretamente, rechaça o temor número 1. Quanto maior for a fuga para os EUA, mais o dólar se valoriza, mais caem os rendimentos dos títulos do Tesouro americano e mais distante fica o momento em que o Federal Reserve promoverá a primeira alta de juro básico desde 2006.

O mercado americano não forneceu ontem justificativas para a agitação cambial. Os rendimentos da T-Note de 10 anos passou o dia oscilando na terceira casa decimal depois da vírgula, vindos de 1,904% do fechamento de terça-feira, só no final avançou a 1,93%, enquanto o DXY (índice de oscilação do dólar) recuou 0,38%. Os motivos para a disparada do dólar contra o real devem ser prospectados no novo round da encarniçada luta entre líderes do PMDB e o governo. E também na mudança da estratégia cambial.

Na terça à noite, Dilma Rousseff sofreu nova derrota, mediante a aprovação de projeto que impõe prazo de 30 dias para o Executivo assinar a mudança de indexador das dívidas estaduais. Com aliados deste quilate, a presidente Dilma não precisa de inimigos. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, escalado pelo Planalto para negociar com os políticos uma alternativa aceitável para ambas as partes, recebeu um novo ultimato: tem até terça-feira, quando depõe na CAE do Senado, para apresentar um plano de indexação e convalidação de incentivos fiscais que seja satisfatório, impedindo a votação da matéria em plenário. Levy hoje tem dois chefes: Dilma e o PMDB. Haja jogo de cintura.

O sentimento do mercado de câmbio é o de que a briga será longa e desgastante, com cada quesito do ajuste fiscal tendo de ser negociado cansativamente enquanto a presidente não ceder incondicionalmente ao partido. Vencida as batalhas contra Cid Gomes, Aloysio Mercadante e Pepe Vargas, o PMDB quer agora a cabeça do ministro das Cidades, Gilberto Kassab. Mas a impressão é de que quanto mais a presidente recuar, mais a pauta de reivindicações crescerá. Dilma parece presa a uma insolúvel rede de chantagem: quanto mais paga, mais aumenta a sua dívida e sua condição de refém.

A decisão do BC de acabar com o programa de intervenção cambial criado em agosto de 2013 também contribuiu para a escalada do dólar. Os executivos juram que a interrupção da oferta de swaps novos, mantendo-se apenas, por meio de rolagens, o estoque atual de US$ 114 bilhões, “já estava precificada”. A questão não é essa. Se o BC, sem demonstrar fragilidade alguma, se ausenta voluntariamente das negociações, sugerindo que deseja um real depreciado, o mercado vai querer saber qual o tamanho de dólar pretendido pela autoridade. Vai puxar a moeda até encontrar esse teto tolerável. Está apenas no começo esta nova versão do tradicional cabo de guerra entre mercado e BC.

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