Por monica.lima

Ainda faltam 12 dias úteis para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, mas o mercado de juros já ferve de inquietação para conhecer o resultado. Cresce a cada dia a ala dos analistas adeptos da tese de que o BC vai encerrar o longo ciclo de aperto monetário já no dia 29 com uma alta final da Selic de apenas 0,25 ponto. A taxa alcançaria o patamar de 13% e descansaria nele por alguns meses até ser iniciado, no fim do ano, um novo ciclo, agora de baixa. O resultado prático desta percepção, ainda subjetiva apesar de alguns sinais provisórios colhidos em textos oficiais do Copom, é o acentuado declínio este mês das taxas embutidas nos contratos futuros de juros negociados na BM&F, o maior pregão privado em volume de negócios do país.

O ápice da taxa para o contrato de maior liquidez, com liquidação em janeiro de 2017 (o contrato, portanto, que tem a missão precípua de precificar o que poderá ser a política monetária no ano que vem), foi alcançado no dia 9 de março, três dias úteis depois da última reunião do Copom, realizada no dia 4. Bateu em 13,85%. O mercado acreditava então, com base no “statement” desta reunião, que o BC iria com certeza continuar subindo a Selic ao ritmo dos últimos encontros de 0,50 ponto e não iria interromper o ciclo de alta tão cedo. Uma corrente de tesoureiros e gestores ainda apostava na possibilidade de um tranco maior, de 0,75 ponto.

Essa impressão não se desfez de todo com a divulgação, no dia 12, da ata desta reunião de março. Tanto é que do pico de 13,85% do dia 4, a taxa foi recuando até chegar a 13,69% no dia 11 mas, divulgada a ata no dia seguinte, o contrato subiu para 13,78%. Tudo mudou no dia 26, quando o diretor de Política Econômica, Luiz Awazu Pereira, divulgou e comentou o Relatório Trimestral de Inflação (RI) referente ao primeiro trimestre do ano. Naquele momento uma dúvida atroz foi introduzida nas certezas do mercado. Se o Copom quiser, no próximo dia 29, subir a Selic em somente 0,25 ponto e, com esse passo, dar por finalizada a maratona que começou em 17 de abril de 2013, com um tempo técnico concedido para tomar água nas reuniões de maio, julho e setembro de 2014, poderá fazê-lo tranquilamente pois o movimento já terá sido sinalizado. Se o mercado não entendeu, não é problema dele, BC.

O mercado parece ter entendido, mas isso não quer dizer que esteja plenamente convencido. Ainda há muita discordância entre os analistas sobre a decisão do dia 29, mas, preventivamente, o DI para janeiro de 2017 desmoronou. Do cume de 13,85% do dia 4 de março, iniciou abril em 13,23% e chegou a cair abaixo de 13% (para exatos 12,98%) na quarta-feira passada, dia 8. Na sexta-feira, fechou a 13,02%. Os “players” começaram a “comprar” o cenário do Copom depois de revelado, no dia 8, o IPCA fechado de março. Além de subir menos que o previsto (avançou 1,32% ante expectativa de 1,39%), o índice mostrou que a inflação brasileira é hoje um fenômeno que se restringe ao tarifaço de preços públicos e a choques de oferta agrícola. Não há inflação de demanda, aquela que deve ser combatida com elevação de juros. Os preços livres e os de serviços estão em rota declinante por causa da recessão. Esta impede o repasse da variação cambial aos consumidores.

O declínio da atividade econômica, que se iniciou em 2014 como consequência da falta de confiança no governo, será intensificado pelas medidas destinadas a corrigir aquilo que o ministro Mangabeira Unger chama de “keynesianismo vulgar”. O BC não precisa mais elevar a Selic para exacerbar essa recessão e sufocar uma inflação que não é de demanda. Uma Selic de 13%, já alta o suficiente para atrair capitais externos de investimento necessários para o financiamento do balanço de pagamentos, dará conta do recado também do ponto de vista da política de desinflação. Até porque, dado o efeito retardado e cumulativo da política monetária (o seu impacto sobre a atividade só ocorre no mínimo seis meses depois de tomada a decisão), ainda se vive hoje sob uma Selic de 11%, a que vigorou de maio a outubro do ano passado. A Selic de 13% só chegará à economia em outubro, quando já estiver respirando por aparelhos.

O BC só vai dar mais um aumento de 0,25 ponto porque, tanto no RI quanto na fala de Awazu, frisou-se que a autoridade não considera que os esforços até agora realizados foram “suficientes”. Esta palavra, suficiente, está sendo usada como “guidance” de que Copom subirá o juro no dia 29. Se for retirada dos textos, o sinal será de que o ciclo de alta terminou. Mas como o BC, ao contrário do mercado, poderia ter tanta certeza de que está na hora de pôr um fim à longa marcha de alta da Selic? Ele rodou todos os seus modelos econométricos, ponderou todos os cenários alternativos e concluiu que o IPCA estará de fato no centro da meta de 4,5% de inflação lá por novembro e dezembro do ano que vem. A inflação “com certeza” —– como poderia ter sido dito pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy — vai estourar este ano o teto de 6,5%, mas trata-se de um problema administrativo cuja resolução legal será feita por meio de carta aberta ou imposição de meta ajustada, o importante é obter-se o centro da meta ao fim de 2016.

Esse objetivo só não estará assegurado se o Federal Reserve (Fed) administrar mal a saída da atual política monetária acomodatícia. E desencadear, com uma alta precipitada da taxa básica americana, um rearranjo atabalhoado dos portfólios globais. Mas como o Fed administrou muito bem a passagem da política ultra-acomodatícia (a remoção até dezembro do afrouxamento quantitativo) para a acomodatícia atual, não se presume que possa agora cometer barbeiragens danosas aos EUA, aos mercados emergentes e à economia mundial. As sequelas inflacionárias de uma arrancada do dólar, supondo-se o início da alta da “fed funds rate” em setembro, só iriam se materializar em 2016 se o Brasil já estivesse em recuperação econômica. Difícil, já que depois de obtido com muito esforço um superávit primário de 1,2% do PIB a meta subirá para 2%.

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