Por diana.dantas

A liquidez muito enxuta, inferior a US$ 1 bilhão, tornou possível aos profissionais do mercado de câmbio exacerbar a tendência externa de alta da moeda americana. Num extravagante destempero especulativo, o dólar saltou ontem 1,74%, cotado a R$ 3,1245. Como é amarrado tecnicamente pelo ajuste diário de margem, o pregão de juros futuros da BM&F não acompanhou a aventura cambial. Depois da disparada de março e da derrocada das duas primeiras semanas de abril, os players do dólar tentam tirar o atraso a despeito da inexistência de uma razão mais sólida. Ao invés de dedicar-se agora a encontrar um preço mais adequado aos novos fatores internos e externos, o mercado não resiste à tentação de dar uma puxadinha.

Externamente, a principal inquietação — o momento da alta do juro básico americano — deslocou-se para um ponto menos visível do teatro de operações. O centro é ocupado agora por atores que raramente perdem a condição de coadjuvantes: o grau de desaceleração da economia chinesa e as negociações em torno da tragédia grega. Internamente, o clima desanuviou-se. A fraca adesão popular às manifestações de domingo coroa um cenário político bem menos desfavorável à presidente Dilma Rousseff. Para o mercado, isso se traduz no fortalecimento do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Por falar no ministro, o câmbio não deu nenhuma relevância aos elogios feitos aos esforços fiscais da equipe econômica por Mauro Leos, vice-presidente da Moody’s, agência que hoje classifica o risco soberano em Baa2 (segunda nota de baixo para cima dentro da categoria “investment grade”), mas com viés negativo. O executivo informou que a classificadora só irá reavaliar o rating e o “outlook” brasileiros depois de novembro. Para o câmbio, foi como se tivesse alertado para a iminência de um rebaixamento. Quando o mercado quer especular não há santo que ajude.

Com base num pretexto externo de segundo plano, a desaceleração chinesa, o câmbio tentou ontem retomar a glória dos idos de março. Foi uma alta que não se sustentará se não surgir nenhuma outra razão de peso. Até porque não dá para prolongar um movimento continuamente ascendente do dólar apenas escorado em números sobre o comércio exterior da segunda maior economia do planeta. Após alta de 22,5% no primeiro bimestre do ano, as exportações caíram 15% em março, na contramão total da projeção dos analistas de avanço de 9%. As importações se retraíram 12,7%, acima da baixa de 10% prevista pelo mercado. As importações cedem por causa da desalentada demanda interna, afetando negativamente os países emergentes que exportam commodities para lá. E a indústria chinesa sofre com a demanda acanhada dos países para onde mais exporta, caso dos EUA (queda de 8%), da União Europeia (-19%) e do Japão (-25%).

O superávit da balança comercial chinesa alcançou US$ 3,08 bilhões no mês passado. Trata-se de um saldo muito inferior ao de fevereiro (US$ 60,62 bilhões) e ao estimado pelos especialistas (US$ 40,10 bilhões). “A frustração com o desempenho das exportações em março aumenta o risco de que o PIB do primeiro trimestre mostre crescimento abaixo de 7%”, diz o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros.

O dólar tende a cair se os novos dados sobre a economia da China, sobretudo o referente ao PIB, não ratificarem os temores despertados pelo informe comercial. Não há nos mercados globais movimento de aversão global a risco que autorize depreciações mais acentuadas da taxa de câmbio. Se houvesse, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano teria recuado muito mais do que a baixa de 1,95% para 1,93% registrada ontem.

O mercado futuro de juros da BM&F preferiu perfilar-se às novas percepções dos economistas sobre o andamento da inflação. As altas dos contratos referiram-se a meros ajustes. O juro para a virada do ano passou de 13,26% para 13,27%, enquanto que a taxa para contrato com vencimento em janeiro de 2017 subiu de 13,02% para 13,07%. O contrato longo de maior liquidez, com liquidação em janeiro de 2021, avançou de 12,52% para 12,58%.

As expectativas inflacionárias do mercado financeiro iniciaram a reversão do pessimismo. Pelos vários critérios observados pelo boletim Focus do Banco Central, as projeções de IPCA das cem instituições participantes da pesquisa estão menos carregadas. Confirmando informação desta coluna, segundo a qual a 14ª alta consecutiva, de 8,13% para 8,20%, no prognóstico para o índice no acumulado deste ano, ocorrida na mostra divulgada na segunda-feira da semana passada, havia encontrado o seu teto, na pesquisa de ontem constatou-se recuo para o patamar anterior de 8,13%. Também houve queda na projeção de taxa para os próximos 12 meses, de 6,58% para 6,11%. E os especialistas do mercado em inflação desenham uma escadinha de baixa para o IPCA mensal.

O pior do tarifaço, que produziu índices muito elevados no primeiro trimestre do ano (1,24% em janeiro; 1,22% em fevereiro; e 1,32% em março), já passou. Para abril, o Focus indica 0,65% e, para maio, 0,48%. Trata-se agora de uma inflação compatível com a atividade econômica em recessão, desemprego em alta e crédito em desaceleração. E tendendo a piorar já que o Copom ainda não parou de subir a taxa básica de juros e o ajuste fiscal da Fazenda nem foi aprovado pelo Congresso. E o viés é de que seja sancionado pelo legislativo, dada a distensão política.

O principal problema econômico do país não é mais a inflação. O fator que pode frustrar os prognósticos agora mais comedidos sobre a evolução dos preços é a taxa de câmbio. As instituições que alimentam o Focus mantiveram a perspectiva de dólar a R$ 3,25 no fim do ano. Como as diversas variáveis da pesquisa conversam entre si, a projeção de IPCA de 8,13% já embute tanto esse dólar de R$ 3,25 em dezembro quanto uma Selic de 13,25% do dia 29 de abril (data da próxima reunião do Copom) até dezembro. Ou seja, o dólar teria espaço para uma alta adicional de 4,5% até lá sem mexer basicamente na atual aposta de IPCA. Se, por algum motivo externo, a moeda americana disparasse o BC teria de mexer na variável Selic para o IPCA não se deslocar para cima.

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