Dólar devolve alta vazia

O mercado de câmbio não abandonou ontem seu comportamento extremado. Depois da disparada de 1,74% na segunda-feira, afundou ontem 1,97%, cotado a R$ 3,0630

Por O Dia

A liquidez estrita, de novo abaixo de US$ 1 bilhão, favorece o jogo do day-trade — o tiro curto de tentar comprar na baixa e vender na alta. Se faltaram motivos para a alta de segunda, sobraram para a derrubada de ontem: o ritmo de crescimento dos EUA se desacelera de forma estranha; os investidores comemoram, aliviados, a definição pela Petrobras de uma data (22) para a publicação dos atrasados balanços auditados; as negociações das medidas de ajuste fiscal prosseguem em tom otimista; e o novo diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Tony Volpon, aprovado ontem na CAE do Senado, disse que o câmbio já está bem perto de sua taxa de equilíbrio, ou seja, altas adicionais seriam antinaturais.

Realista com o Brasil, o FMI mostrou-se otimista demais com os rumos da economia americana mesmo tendo rebaixado suas expectativas de crescimento dos EUA para este ano e o próximo. Tanto para 2015 quanto para 2016, o Fundo projeta agora expansão de 3,1%. No relatório anterior previa, respectivamente, 3,6% e 3,3%. Os economistas do FMI estão, como de resto todo o mercado global, assustados com a perda de fôlego da maior economia do planeta, após o boom registrado no terceiro trimestre de 2014. De lá para cá, os indicadores vinham alternando bons e maus momentos.

Entretanto, os mais atuais, referentes ao primeiro trimestre de 2015, apontam para uma desaceleração imprevista e frustrante. Os analistas sabiam que a valorização global do dólar, a fuga para a qualidade dos títulos do Tesouro americano e a queda do petróleo iriam segurar o crescimento. Estes são os fatores conjunturais. Estruturalmente, os EUA enfrentam o aumento da desigualdade de renda e a compressão dos salários. Mas o mercado estava despreparado para índices tão apáticos. E o rendimento da T-Note de 10 anos desceu de 1,93% para até 1,85%.

O Federal Reserve (Fed) gostaria muito que a economia estivesse mantendo um ritmo de crescimento que não deixasse margem para dúvida acerca da necessidade de “normalizar as condições monetárias”, eufemismo empregado nos textos oficiais para designar um aumento da taxa básica de juros. Mais até do que os altistas do mercado secundário de “treasuries”, o Fed torce para isso. E, às vezes, distorce. Ele esgrime uma complicada semântica para assegurar que o futuro é róseo. Ao mesmo tempo, preservando a sua reputação, informa a disposição de vigiar os dados da hora para definir o momento exato da alta. Mantém o mercado em suspenso e, com isso, impede quedas muito acentuadas dos juros de 10 anos.

Mas há dias em que o mercado fica desalentado. Ontem foi um deles. Dois indicadores relativos a março comprovaram, duas semanas depois de um sofrível “payroll” (o relatório oficial sobre o mercado de trabalho), que o passo da economia está lento. Não parece ser somente a segunda economia do mundo, a chinesa, que se esforça para evitar o pouso, enquanto a Europa, na pista contrária, luta para planar um pouco acima do chão. As vendas varejistas registraram crescimento de 0,9% no mês passado, quando os especialistas previam alta de 1,1%.

Frente ao mesmo mês de 2014 o avanço foi de apenas 1,3%. O segundo indicador foi o PPI, a inflação no atacado. Na comparação interanual, a deflação do índice cheio subiu de 0,6% para 0,8%. E, no core, a inflação caiu de 1% para 0,9%. Ou seja, qualquer aperto monetário é completamente dispensável. Uma elevação da “fed funds rate” iria somente ampliar o declínio.

Comprovando a tese de que o fator decisivo para a tomada de decisões globais de investimento é mesmo o comportamento da economia americana, a derrocada mundial do dólar ocorreu a despeito do surgimento ontem de mais dados negativos sobre a economia chinesa. Na véspera, a moeda tinha disparado por causa do susto com os indicadores ruins sobre a balança comercial da China. Deveria ter permanecido em alta porque ontem foi divulgada expressiva queda nas concessões de crédito. Os empréstimos totalizaram em março RMB 1,18 trilhão, abaixo do montante concedido em fevereiro (RMB 1,353 trilhão). O mercado esperava alta para RMB 1,5 trilhão em decorrência das medidas de afrouxamento monetário baixadas para estimular a economia. Não está adiantando muito reduzir o juro básico nominal.

Como a demanda cai e a inflação também, o juro real sobe, inibindo o crédito. A economia chinesa está numa armadilha de crédito, baixa procura externa motivada pela valorização de sua moeda e consumo aquém da produção turbinada por anos de oferta de dinheiro sem garantias sólidas.

Já o patinho feio da economia global — a zona do euro — destoa dos EUA e da China, mas não consegue interferir no preço dos ativos. A produção industrial da eurolândia cresceu 1,1% em fevereiro, surpreendendo positivamente os analistas, que apostavam numa alta menor, de 0,4%. Na base interanual, a indústria se expandiu 1,6%. O dado mostra a volta da confiança em resposta aos estímulos injetados pelo BCE. Hoje de manhã, o BCE faz a sua reunião mensal de política monetária. Os bons resultados já colhidos mostram que a instituição está no caminho certo. Por isso, não se esperam mudanças nem nas taxas de juros nem na oferta mensal de recursos.

Os juros caíram no mercado futuro da BM&F, refletindo as mesmas razões que justificaram o mergulho do dólar. A taxa para janeiro de 2017 recuou de 13,07% para 12,96%, enquanto que o contrato para janeiro de 2021 cedeu de 12,58% para 12,42%. Foram baixas menos acentuadas que a sofrida pela moeda americana, em primeiro lugar porque os contratos de juros não acompanharam a arrancada anterior. E, em segundo, porque os executivos notaram uma inflexão um pouco mais dura do presidente do BC, Alexandre Tombini, em discurso proferido em evento em São Paulo.

Embora tenha repetido as linhas gerais do último Relatório Trimestral de Inflação (RTI), Tombini não se limitou a repisar que a autoridade se mantém “vigilante” no combate à inflação. Enfatizou que o Copom “está e continuará vigilante”. Esse “continuará” é novo, e pode sugerir que pode ainda não ter chegado a hora de parar de subir a Selic. Em comprovada essa hipótese, o zelo terá sido excessivo. A atividade não aguenta mais alta de juro. Os números são cada vez piores. Exemplo: o mercado esperava alta de 0,2% nas vendas varejistas de fevereiro, mas houve queda de 0,1%.

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