Por diana.dantas

O mercado de câmbio relevou ontem o potencial de turbulência implícito na prisão do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, num momento em que os investidores já consideravam superada a crise política que marcou os três primeiros meses do segundo mandato de Dilma Rousseff. O cenário parecia bem menos intoxicado depois de a articulação partidária ter sido entregue ao vice Michel Temer. As negociações para a aprovação do ajuste fiscal prosperam, a nuvem negra sobre o balanço da Petrobras se dissipa e finalmente é indicado um nome de consenso para o STF. E é nesse ambiente propício à continuidade da queda do dólar e dos juros futuros que a Polícia Federal resolve recolher Vaccari. Pelo menos ontem, o câmbio não viu possibilidade de as denúncias envolverem a presidente Dilma. E o dólar fechou em queda de 0,94%, cotado a R$ 3,0343. No acumulado do mês até ontem, cai 4,91%.

Mas o dia não estava mesmo indicado a especulações altistas. De novo dos EUA vieram más notícias. Após ter crescido apenas 0,1% em fevereiro, a produção industrial americana caiu 0,6% em março. Foi a maior queda desde agosto de 2012. Os economistas já desconfiavam que a indústria não tinha tido em março um mês dos mais brilhantes, mas previam uma baixa de apenas 0,3%. Ratificando o dado, a unidade de Nova York do Federal Reserve divulgou o seu índice Empire State de manufatura. Em abril, negativo, entrou no campo da contração da atividade. Após os indicadores, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano recuou de 1,90% para 1,88%. Ficou mais distante o momento em que o Federal Reserve (Fed) se sentirá compelido a subir a taxa básica de juros.

Da China, a influência sobre o câmbio foi neutra. Ao mesmo tempo em que o Escritório Nacional de Estatísticas divulgou um crescimento do PIB no primeiro trimestre acima das expectativas (a expansão foi de 7%, enquanto que o mercado prognosticava 6,9%), liberou uma série de outros indicadores aquém do esperado: a produção industrial cresceu 5,6% em março (a projeção dos analistas era de 7%); os investimentos em ativos fixos avançaram 13,5% no acumulado do ano, diminuindo o ímpeto, já que, até o mês anterior, a alta era de 13,9%; e as vendas varejistas subiram 10,2% (expectativa de 10,9%). Não há muito o que enaltecer, mas o pouso chinês parece sob controle. Já está no preço do dólar a escadinha de baixa do PIB: expansão de 7,4% no acumulado de 2014, 7,3% no quarto trimestre do ano passado e 7% no primeiro de 2015. No acumulado de 2015 deve ficar abaixo de 7%. O FMI prevê 6,8%. O dólar só estará autorizado a disparar se o crescimento vier a ser algo entre 6% e 6,5%. Por enquanto, improvável.

Da Europa, os indicadores recentes comprovam o acerto das políticas de incentivo monetário do BCE. Após a reunião de política monetária de ontem — em que não mexeu em nada, quer nas taxas de juros (0,05% para os refinanciamentos, 0,3% para empréstimos marginais e -0,2% para os depósitos bancários), quer na oferta mensal de € 60 bilhões para a compra de títulos — Mario Draghi comemorou os bons resultados. E garantiu que o afrouxamento quantitativo não sofrerá mudanças em relação à sua disposição inicial, de fornecer aquele caminhão de euros até fevereiro do ano que vem. A consequência prática é a desvalorização do euro. A moeda está hoje 25% mais barata em relação ao pico atingido no ano passado. Os países da eurolândia têm juro e câmbio favoráveis aos negócios, podem investir na produção e exportam mais. Mas isso é ruim para quem exporta para eles, como o Brasil.

Internamente, não há, considerando-se os ditames da lei da oferta e da procura, motivos para arrancadas do dólar. Conforme divulgado ontem pelo Banco Central, na semana passada as entradas de dólares superaram as saídas em US$ 1,776 bilhão. A maior parte desse saldo foi garantida pelo fluxo financeiro, com aporte líquido de US$ 1,747 bilhão. A conta comercial colaborou com apenas US$ 28,5 milhões. Apesar de toda a conturbação política e das indefinições na área econômica, não falta dólar no mercado. No acumulado de 2015 até sexta-feira, o fluxo cambial é positivo em US$ 5,589 bilhões. Como, no mesmo período, o dólar valorizou-se frente ao real 15,51%, esses US$ 5,59 bilhões foram absorvidos pelos mais assustados e paranoicos. A distensão política estimulou-os a devolvê-los nessa primeira quinzena de abril. A prisão de Vaccari não mudou essa disposição vendedora. Pelo menos ontem.

A surpresa positiva proporcionada ontem pelo Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br) não alterou as apostas para os próximos passos da política monetária fechadas no pregão de juros futuros da BM&F. A economia pode não estar tão ruim quanto imaginavam os analistas, mas não aceita o desaforo de doses suplementares de aumento da Selic. O IBC-Br subiu 0,36% em fevereiro, quando o mercado trabalhava com retração de 0,20%. No cotejo interanual, a queda foi de 3,16%, inferior ao tombo de 4% esperado pelos especialistas. Não há nada o que comemorar. No acumulado de 12 meses, a contração da atividade intensificou-se de -0,40% para -0,97%.

O pregão vê reduzida margem para guinadas na política monetária. Tanto é que o contrato para a virada do ano estabilizou-se em 13,27% há três sessões. Os mais longos persistem em queda, agora mais modestas. A taxa para janeiro de 2017 cedeu de 12,96% para 12,95% e o contrato com vencimento em janeiro de 2021 recuou de 12,42% para 12,40%.

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