Juro futuro pressiona BC

Primeiro, os juros futuros dispararam nos últimos pregões, captando a suposta ordem dada pela presidente Dilma Rousseff ao Banco Central de continuar, por meio do aperto monetário, conferindo prioridade máxima ao combate à inflação. Depois vem o Focus, legitimando com ares de isenção o movimento

Por O Dia

Em um pregão com liquidez reduzida a um terço do normal, o dólar caiu 0,46% na segunda-feira, cotado a R$ 3,0273. O feriado de ontem restringiu o giro de negócios na segunda-feira, com a BM&F registrando volume um pouco acima de US$ 500 milhões. Os poucos investidores que frequentaram o mercado de câmbio no início da semana gostaram das declarações feitas em Nova York pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e das medidas de estímulo ao crescimento adotadas pela China. Levy reafirmou o seu compromisso de produzir um superávit primário de 1,2% do PIB este ano e disse “confiar no BC” na questão inflacionária. A distensão cambial não se estendeu ao pregão de juros futuros da BM&F, onde os “players” redobram suas apostas no prosseguimento do aperto monetário.

No mercado global, a abertura da semana foi marcada pelo novo passo do Banco do Povo da China na direção do afrouxamento monetário. Medida baixada no fim de semana permitiu uma diminuição ontem na aversão global a risco. Ao reduzir o compulsório bancário em um ponto, para 18,5%, o BC chinês injetou na economia cerca de US$ 200 bilhões. Mas não se trata de uma ampliação de liquidez. O retorno desse dinheiro que estava represado nos cofres públicos apenas tapa o buraco deixado pela fuga de capitais ocorrida desde o ano passado. Mas já é um sinal de desafogo. Ao mesmo tempo em que os dirigentes intensificam o afrouxamento — desde dezembro já foram feitos dois cortes de juros e duas reduções de recolhimento compulsório — aumentam o rigor na regulação do mercado de capitais. Ou seja, o recado é de que não vão deixar que os yuans liberados ampliem a especulação com ações. Com as medidas monetárias, o governo quer evitar que se concretize a projeção dos analistas de um crescimento do PIB chinês este ano de apenas 6,5%. E quer manter em casa os capitais estrangeiros assustados com o pouso.

Pelo menos na segunda-feira, deu certo. Caiu a procura por títulos do Tesouro americano e as taxas da T-Note de 10 anos subiram de 1,86% para 1,90% a despeito de ter sido divulgado um indicador muito ruim sobre a economia americana. O Índice de Atividade Nacional — a média móvel de nada menos que 85 indicadores de atividade --, calculado pela distrital de Chicago do Federal Reserve (Fed), aprofundou sua incursão no terreno negativo, passando de -0,18% em fevereiro para -0,42% em março. Taxas negativas significam que a economia está se expandindo a um ritmo menor que a tendência histórica. Foi uma ducha gelada nos falcões do Fed e nos altistas do mercado de “treasuries”.

Os contratos de juros futuros relevaram os efeitos desinflacionários da apreciação do real. A taxa para a virada do ano avançou de 13,43% para 13,53%. E o contrato com liquidação em janeiro de 2017 subiu de 13,17% para 13,33%. Usualmente, as projeções de inflação, câmbio e juros das cem instituições que participam da pesquisa do Focus do Banco Central costumam andar atrás da curva futura de juros desenhada por tesoureiros e gestores dessas mesmas instituições no mercado futuro de DIs da BM&F. Os economistas que fazem prognósticos não fecham operações, ou seja, não apostam o dinheiro próprio dos bancos nem dos seus clientes nos mercados de juros e câmbio. E os executivos que tomam as decisões de investimento não precisam seguir obrigatoriamente as orientações formuladas pelos departamentos de economia da casa onde trabalham. Na verdade, eles compram análises e expectativas de dezenas de instituições “concorrentes”. O Focus, portanto, não é um instrumento destinado a manobrar os ativos para um lado ou para o outro. Mas serve frequentemente para sancionar, revestindo-as de credibilidade técnica, mudanças de rota já traçadas efetivamente pelos mercados. É o que está acontecendo agora em relação à visão do mercado sobre a política monetária.

Primeiro, os juros futuros dispararam nos últimos pregões, captando a suposta ordem dada pela presidente Dilma Rousseff ao BC de continuar, por meio do aperto monetário, conferindo prioridade máxima ao combate à inflação. Depois vem o Focus, legitimando com ares de isenção o movimento.

O carimbo dos economistas que não lidam com dinheiro veio sob a forma de projeções mais elevadas para o IPCA. Em quase todos os períodos em relação aos quais são feitas estimativas de inflação, houve alta na pesquisa divulgada na segunda-feira. Depois de recuar com consistência de 6,49% há quatro semanas para 5,99% na semana retrasada, a expectativa para o IPCA acumulado nos próximos 12 meses subiu agora para 6,04%. A projeção de taxa oficial de inflação no acumulado de 2015 avançou de 8,13% para 8,23%. As alterações feitas nesses dois períodos decorrem dos ajustes realizados nos prognósticos relativos aos IPCAs dos meses de abril e maio. A inflação esperada para o primeiro mês avançou de 0,65% para 0,69% e, para o segundo, de 0,48% para 0,49%.

Se estas observações sobre a inflação forem cruzadas com o viés enxergado para a taxa Selic, o Focus se imuniza contra a acusação de estar deteriorando as expectativas inflacionárias. Como sustenta há três semanas o entendimento de que o Copom irá na semana que vem subir a taxa em 0,50 ponto, para 13,25%, e simultaneamente congelá-la nesse patamar por alguns meses até iniciar um deslocamento declinante capaz de reduzi-la a 11,50% ao fim de 2016, o Focus está dizendo que o BC terá de endurecer ainda mais a política monetária se quiser comemorar uma melhora das expectativas. O problema não está no mau humor do Focus, mas na “leniência” do BC.

Neste ponto, o Focus atua como linha auxiliar dos tesoureiros que põem dinheiro em cima de suas previsões. A curva do DI informa que, para esses executivos, o Copom não irá limitar-se a subir a Selic para 13,25% no dia 29. Vai indicar a necessidade de fazer pelo menos mais uma alta na reunião seguinte, do dia 3 de junho. Se não houver mudança no discurso atual da autoridade — principalmente aos dois “guidances”, o de que o BC se mantém “vigilante” e de que ainda não fez o “suficiente” — não vai demorar muito para o Focus elevar sua previsão de Selic para o fim deste ano para 13,50%.

Outra maneira de o Focus pressionar o Copom a manter o atual ritmo de aumento da Selic é por meio da inação. As instituições mantêm o prognóstico de IPCA para o ano que vem engessado em 5,60%. A estabilidade pode ser vista pelo seu ângulo positivo — afinal, frente aos 8,23% esperados para 2015, trata-se de um tombo impressionante, digno de comemoração —, mas também deixa margem a um foco negativo. Em todos os seus mais recentes textos oficiais, o BC reitera a convicção de que a inflação estará no centro da meta de 4,5% ao cabo do ano que vem. O Focus simplesmente não acredita nesse vaticínio. O mercado encara a ênfase do BC mais como uma promessa, cujo cumprimento estará sujeito a reviravoltas imprevistas, do que como uma questão de honra.

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