EUA fraquejam e dólar sofre

Contribuiu para tornar o declínio frente ao real um dos mais expressivos dentre as divisas emergentes a percepção de que a normalização da contabilidade da Petrobras abrirá uma fresta de oportunidade à captação de recursos externos

Por O Dia

A ameaça da véspera concretizou-se ontem. O dólar fechou abaixo de R$ 3,00, o que não acontecia desde 4 de março. A moeda encerrou a sessão cotada a R$ 2,9816, com perda de 0,89%. Desde o pico mais recente, os R$ 3,1245 do dia 13, já desvalorizou-se 4,57%. Para a queda de ontem foi decisiva a rasteira passada globalmente na moeda americana por indicadores decepcionantes sobre a saúde da economia dos EUA. Contribuiu para tornar o declínio frente ao real um dos mais expressivos dentre as divisas emergentes a percepção de que a normalização da contabilidade da Petrobras abrirá uma fresta de oportunidade à captação de recursos externos. A depreciação cambial conteve a escalada dos contratos futuros de juros na BM&F. Dos contratos mais negociados, apenas o que tem vencimento em janeiro de 2017 avançou, mesmo assim sem muita expressão, de 13,32% para 13,36%.

O maior pregão do mundo — o secundário de títulos do Tesouro americano — amanheceu ontem com vontade de puxar o rendimento da T-Note de 10 anos para além do 2% ao ano. Na quarta-feira, esse juro longo havia disparado de 1,91% para 1,98%, já em preparação aos indicadores que seriam divulgados ontem, para os quais a expectativa era alvissareira. Mas a realidade foi bem diferente do sonho. Todos os três indicadores mais relevantes do dia vieram aquém do esperado. E a taxa teve de ceder a 1,95%, abrindo caminho para a desvalorização do dólar mundo afora. Ontem foi o dia da publicação dos PMI (índice de atividade industrial) na Europa, na China e nos EUA. Todos desapontaram. O americano, calculado pelo Markit, caiu de 55,7 em março para 54,2 em abril, quando os analistas previam uma quase estabilidade em 55,5. Menos mal já que qualquer leitura acima de 50 ainda aponta crescimento. Mas a indústria americana desacelera, pois arrasta uma bola de ferro agrilhoada pelo dólar forte. Do setor imobiliário, veio dado frustrante: após três meses consecutivos em alta, as vendas de moradias novas caíram 11,4% em março. E o mercado de trabalho andou na contramão das expectativas: os analistas previam que o número de novos pedidos de auxílio-desemprego iria, na semana passada, recuar de 294 mil para 287 mil, mas subiu para 295 mil.

Já abaixo dos 50 pontos, o PMI chinês piorou um pouco mais, cedendo de 49,6 em março para 49,2 pontos em abril. A política monetária de constante afrouxamento parece não estar surtindo efeito positivo na reanimação da indústria. A China atravessa uma crise no mercado de crédito às empresas. O excessivo endividamento em dólar afeta a produção num momento em que a troca do modelo exportador por outro de favorecimento ao mercado interno enfrenta o obstáculo da inadimplência. Na Zona do Euro, o PMI conjugado veio igualmente ruim. Caiu de 52,2 para 51,9, para um prognóstico dos analistas de alta para 52,6 pontos. A economia carro-chefe, a da Alemanha, colaborou para a performance negativa. Lá, o PMI recuou de 52,8 no mês passado para 51,9 este mês. As bolsas europeias reagiram de forma clássica, em baixa, sem esperar milagres do afrouxamento quantitativo do BCE. O índice FTSEurofirst 300 das principais ações europeias caiu 0,6%.

Escoltado pelo surpreendente Caged de março, que, ao registrar a criação de 19.282 empregos formais, não só interrompeu uma sequência de três meses de destruição de vagas mas contrariou a expectativa negativa dos analistas de um novo corte de 20 mil postos, o mercado futuro de juros da BM&F concluiu convenientemente que a economia aguenta aperto monetário maior. Não aguenta. O dado de março não torna mais ameno um cenário de horror: no primeiro trimestre o saldo é negativo em 64.907 empregos (no mesmo trimestre do ano passado foram criados 303.535 postos), um perda que consegue ser pior que a registrada (-57.751) de janeiro a março de 2009, ano de recessão. Mas o DI não se intimida.

Cristalizada a aposta de que o Copom vai na quarta-feira manter o ritmo de alta da Selic em 0,50 ponto, o pregão avança agora sobre a reunião seguinte, agendada para 3 de junho. Cresce a fatia de players que aposta na sustentação desta velocidade de alta, com a taxa básica avançando a 13,75% em junho. O ciclo longo de arrocho só seria interrompido no final de julho, com uma alta derradeira de 0,25 ponto. Selic final de 14% ainda não está embutida na curva futura de juros, mas tesoureiros e gestores “comprados” em taxa não medem esforços. O Banco Central ainda não moveu nenhuma palha para dissuadi-los.

<CW-3>No papel, a sinalização que vale ainda é aquela formulada pelo Relatório Trimestral de Inflação (RI) referente aos três primeiros meses do ano. Divulgado em 26 de março, o RI sustenta a convicção de que o IPCA estará no centro de 4,5% da meta inflacionária ao fim de 2016 sem que o Copom precise desenvolver esforços monetários adicionais. A sua leitura suscitou a percepção no mercado de que o Comitê iria encerrar o ciclo já nesta reunião de abril com uma alta simbólica de 0,25 ponto. Afinal, a análise sempre foi de que o soluço inflacionário resultava do choque das tarifas públicas e da valorização do dólar. O primeiro já foi feito e contabilizado. E a segunda, perde força.
</CW>Mas, na semana passada, tudo mudou depois que a presidente Dilma Rousseff atribuiu a culpa pelo aumento da desaprovação ao seu governo à inflação e depois que o presidente Alexandre Tombini frisou que “foi, está e estará vigilante” em sua missão. Mas, no que conta, em texto oficial, a mudança de humor da autoridade ainda não foi consignada.

Como a interpretação altista do DI futuro ainda não foi contestada oficialmente, os agentes supõem que contenha algum grau de verdade. Mas, do ponto de vista do BC, a alta dos juros futuros não é inoportuna. Como os juros do crédito são formados tendo como plataforma primária do custo do dinheiro a estrutura a termo das taxas de juros, desenhada a partir dos DIs de diferentes vencimentos, o BC está, sem fazer nada explicitamente, induzindo um aperto monetário suplementar, capaz de sufocar pressões inflacionários renitentes. Se não sancionar as novas apostas do DI, pode eximir-se da imputação de perda de credibilidade sob o argumento de que em nenhum documento oficial assegurou que o ciclo continuaria.

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