Por monica.lima

Na quarta-feira, os bancos centrais dos EUA e do Brasil terão reuniões de política monetária. O Federal Reserve (Fed) avisou na ata do encontro anterior que não vai subir o juro agora porque não precisa. Aqui também não precisa, mas o Banco Central do Brasil — chamado pelo mercado de Bacen por excesso de purismo burocrático — já avisou que vai subir de novo a Selic. O tamanho da alta? Até o fechamento dos mercados na sexta-feira, o tranco consensual seria de 0,50 ponto. Mas nunca se sabe. Pode ser 0,25 ponto, já que o BC muda de ideia a toda hora. E põe a culpa no mercado. São os analistas que não entendem direito a comunicação da autoridade. Não é esta que é falha. Mas o fato inconteste é que nos atuais 12,75% é que a Selic não continuará.

Qual das duas reuniões é a mais importante para a definição da trajetória dos mercados de câmbio e juros futuros. Sem dúvida a do Fed. Não pela decisão objetiva, a manutenção da “fed funds rate” no intervalo entre zero e 0,25% em que está desde dezembro de 2008. Mas pelas sinalizações sobre o futuro que o comunicado pós-reunião trará. Já na reunião anterior, de 18 de março, do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), o “guidance” que constrangia o início de um movimento de alta do juro básico foi removido. Tratava-se da garantia de que o Fomc iria exercitar a sua “paciência” antes de tomar qualquer decisão. Ele não está mais paciente, o que não significa que doravante atuará com impaciência. Significa apenas que será guiado pelos indicadores mais atualizados sobre inflação, emprego e atividade. O “guidance” atual, se é que se pode chamá-lo assim, é o “data dependent”.

O que o mercado quer saber é se os 12 membros do Fomc se inclinam mais para a reunião de 17 de junho ou a de 17 de setembro como a que marcará o fim do longo período de acomodação monetária. Depois desta de abril, ordinária, só haverá no calendário do Fed mais três reuniões “especiais”, assim consideradas por serem encontros ampliados pela divulgação de projeções de inflação, PIB e taxa de desemprego e por discurso da “chair” Janet Yellen. São as reuniões de junho, setembro e dezembro. Em uma delas, para a maioria do mercado, a decisão de alta da taxa básica será tomada. A minoria só vê condições em 2016. Pela maioria, qual reunião será a mais propícia? Os analistas esperam colher pistas seguras sobre o momento mais adequado depois de amanhã. Por enquanto, há o consenso de que o Dia D será o 17 de setembro. Mas se o Fed abrir alguma possibilidade de a taxa já subir em 17 de junho, os mercados irão ferver, com inevitáveis reflexos sobre os ativos brasileiros.

Mas é mais provável mesmo que o Fed só tenha certeza mesmo em setembro. A economia americana vem colecionando uma vasta série de indicadores sofríveis sobre o primeiro trimestre do ano. E os primeiros já divulgados referentes a abril não são melhores. Não há por enquanto nenhuma ameaça à meta de inflação do Fed, de 2%, nem neste ano nem no próximo. Uma ação preventiva poderia solapar uma recuperação econômica que se mostra hesitante. O Fed e os mercados querem muito uma alta de juro. Será o sinal definitivo de que foi totalmente superado o trauma do colapso de 2008. Mas antes a economia precisa chancelar esse movimento. Difícil, com o dólar forte desse jeito, um fortalecimento que resulta não das virtudes domésticas dos EUA, mas de uma apatia econômica global que agiganta os riscos.

O dilema do BC brasileiro é oposto ao do Fed americano. Enquanto este não consegue encontrar argumentos para subir o juro, aquele não acha justificativas para interromper a escalada do seu. Não será depois de amanhã que o Copom irá estancar a longa marcha da Selic. O caminho íngreme começou em 17 de abril de 2013. Depois de conseguir manter a Selic no piso histórico de 7,25% de outubro de 2012 a março de 2013 — seis meses que suscitaram em alguns apressados a suposição de que havia acontecido uma mudança “estrutural” no juro brasileiro —, o BC jogou a toalha em abril. E a taxa subiu continuamente até chegar em 11% um ano depois. Os imperativos do calendário eleitoral forçaram uma parada. Não era o fim do ciclo de aperto. Tanto que três dias depois de encerrado o segundo turno do pleito, o BC voltou a subir a ladeira. Começou devagarinho, puxando a Selic em 0,25 ponto no dia 29 de outubro do ano passado. E apertou o passo depois. Nas últimas três reuniões, o Comitê sustentou o ritmo de 0,50 ponto de alta. Vai mantê-lo ou diminuí-lo na quarta-feira?

Se não mudar de ideia de novo, irá mantê-lo. Não é implicância com o BC: no dia 26 de março, por meio do seu Relatório Trimestral de Inflação (RI), induziu a crença de que esta seria a última alta do ciclo. E uma alta de 0,25 ponto. A Selic seria congelada em 13% até o fim do ano, e começaria a descer o morro, bem devagar, em 2016. O mercado entendeu o recado, tanto é que o contrato de juro futuro para janeiro de 2017, frequentemente o mais negociado do pregão da BM&F, recuou de 13,47% no dia 26 de março para 12,95% no último dia 15. No meio do caminho o BC mudou de opinião. Achou que a queda do juro futuro tinha sido exagerada? Alterou o seu cenário básico de inflação? Recebeu novas orientações da presidente Dilma Rousseff? Não se sabe. O fato é que declarações do presidente Alexandre Tombini reintroduziram com muita força a hipótese de o Copom fazer depois de amanhã a sua quarta elevação consecutiva de 0,50 ponto. E o DI retomou a via da alta. Na sexta-feira, o DI para janeiro de 2017 fechou em 13,42%.

Não se sabe o que levou o BC a alterar o seu pensamento. O fato é que qualquer alta suplementar da Selic é completamente desnecessária, a menos que as doses extras visem apenas atrair capital estrangeiro para intensificar a queda do dólar. Com isso, o BC reincidiria no vício crônico de combater a inflação por meio da apreciação cambial. Para atacar diretamente a inflação, não são requeridas altas adicionais da Selic. A inflação está sendo contida pelo ajuste fiscal, pela recessão e pelo desemprego. E uma alta agora só vai chegar na atividade econômica no fim do ano, justamente quando já se espera alguma retomada. Se as pauladas na Selic demoram a chegar às ruas, aumentam os lucros dos investidores (externos e internos) instantaneamente. Ao manter agora a velocidade de 0,50 ponto, o BC está rasgando o seu volumoso RI. Está dizendo ao mercado que não vale mais aquela garantia de que a inflação vai chegar ao centro de 4,5% da inflação no final de 2016. O RI mostrou muita segurança quanto a viabilidade dessa promessa. Tal certeza esfumaçou-se na semana retrasada. A turma da linha-dura, que nunca confiou nesse BC, está rindo à toa.

E o BC vai subir a Selic como se o aperto monetário funcionasse. Quando avançou a taxa de 7,25% para 7,5% em abril de 2013, o IPCA acumulado em 12 meses estava em 6,49%. Um ano depois, com a Selic já em 11%, a inflação acumulava 6,28%. Retomado o aperto em outubro do ano passado, com a taxa em 11,25%, o IPCA marcava 6,59%. O Copom persistiu elevando o juro em 0,50 ponto, e a inflação pulou para 7,14% em janeiro, 7,70% em fevereiro e 8,13% no mês passado. Para aqueles linhas-duras, não deu certo porque a alta foi tímida e envergonhada. Ou será porque a política monetária serve apenas para minar a atividade e não para desinflacionar?

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